Sou fruto das minhas raízes (ou: o dia em que aprendi a aceitar meu nariz)

Não acho que eu seja uma pessoa que foge totalmente aos padrões de beleza. Sou branca, magra e de estatura mediana. Apesar disso, nunca foi o meu rosto que eu vi estampado nas revistas e talvez por isso eu nunca tenha aprendido a gostar dele (o “talvez” aqui é só uma forma de fazer o texto correr melhor: não tem talvez coisa nenhuma). Até o dia em que vi, nele, as minhas raízes.

Até aqui está tudo meio obscuro, então vou dar um background rápido sobre minha relação com meu rosto. Quando eu era pequena, eu tinha o menor narizinho do mundo, arrebitado, ai que fofinha!. Conforme eu fui crescendo, no entanto, meus traços foram mudando (nada mais normal, né?). Demorou algum tempo, talvez anos, para eu reparar que ninguém mais elogiava meu nariz. Eu me lembro claramente de um dia em que, num passeio na escola, quando eu tinha 11 anos, um menino desconhecido se sentiu no direito de gritar “nariguda!” para mim. A partir de então eu só consegui me reduzir e me reconhecer como nada mais do que aquilo: nariguda. Meu nariz era (e é) mais comprido do que o das meninas europeias das revistas. Ele é fino na frente – o que ainda me torna um pouco mais “aceita” pelos padrões –, mas grande e ossudo. Ele só era bonito quando era pequeno e arrebitado.

Por outro lado, eu sempre gostei muito dos meus olhos. É verdade que eles não são claros ou pequenos e misteriosos como pedem os padrões. Pouquíssimas pessoas que olham para mim elogiam meus olhos, mas mesmo assim eu sempre gostei muito deles (nota de rodapé: eu acho que isso pode ter a ver com o fato de que, quando eu era bem pequena, com uns 6 anos, e quando todo mundo ainda elogiava meu nariz, mas só elogiava os olhos da minha amiga de olhos azuis, um professor de kung fu que eu tinha dizia que eu tinha os olhinhos mais lindos que ele já tinha visto, porque eram enormes, redondos e brilhantes. Até hoje eu os enxergo assim. Valeu, Sihing!).

O que eu nunca havia pensado, até o fatídico dia em que pensei, era que meus olhos, escuros, redondos e meio amendoados, tinham exatamente a mesma origem do meu nariz grande e ossudo que eu tanto odiava: meus antepassados árabes.

Até aquele dia, eu costumava dizer que o bonito dos nossos corpos é que eles são telas em branco que vão sendo pintadas por nossas experiências: é assim com minhas estrias – tanto as de crescimento quanto as que eu ganhei depois daquela viagem em que bebi muita Coca-Cola –, minha cicatriz no pé, minhas tatuagens, que também contam minha história, e aquelas rugas que um dia eu terei e que vão denunciar décadas de transtorno de ansiedade. Mas, por mais que a vida, de fato, faça arte no nosso corpo, ele não vem totalmente em branco. Ele já vem pintado por nossos ancestrais, pelas memórias, histórias e lembranças deles. E, mais ainda, pela luta e sofrimento delas.

A partir daquele dia, toda vez que eu tive raiva de algum traço meu, eu pensei no que o ou a ancestral que me deu aquele traço sentiria se soubesse que eu odeio tanto uma parte da nossa história. Nossos corpos são histórias, as nossas e as deles. Nossos corpos são políticos, e já o eram antes de nascermos. Nossos corpos são também das mulheres que nos antecederam. Eu sou fruto porque um dia houve raízes. E se eu consigo amar meus olhos, por terem o formato que têm, consigo amar meu nariz, que veio da onde os olhos vieram. E você, seja lá de onde forem seus ancestrais, consegue também.

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