
3 de Setembro — Dia das Biólogas
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Eu tinha planejado o lançamento desse espaço, vinculado ao meu trabalho com o Mantra, pra hoje. A noite de ontem, porém, me obrigou a mudar os planos e falar um pouco dos 200 anos de pesquisa científica que viraram cinza no incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.
Um dos objetivos dessa página — eu diria hoje, se hoje estivesse nos meus planos — , é estabelecer reflexões sobre como as ciências, mais especificamente do corpo, podem nos fornecer material pra o cuidado de si; como esse conhecimento foi construído ao longo de milênios, por povos diferentes, em lugares diferentes. Mas hoje perdemos um dos maiores depositários da Antropologia, História Natural, Biologia… 200 anos de Ciência: pó. A mais antiga instituição científica do país: cinzas.
Hoje todo cientista — com formação ou não — chora. E aqui não estou diferente disso.
Porém, pra além da tristeza, é necessário não esquecer o quadro que nos levou a essa tragédia anunciada.
A Ciência é feita pra ser questionada, isso é (ou deveria ser) uma máxima sua. Mas ela só pode ser questionada se estiver existindo, assim mesmo, no gerúndio, em movimento constante. Sem Ciência não tem questionamento, porque ela é o material primordial do questionamento. Ela é o próprio questionamento. Ou deveria ser.
O desmonte da ciência como bem público, no Brasil, vem sendo arquitetado e posto em prática através de um projeto neo liberalista que teve início, em âmbito federal, na década de 90, com a onda de privatizações e o arrocho salarial dos funcionários das universidades públicas federais. Já no começo dos anos 2000 anunciava-se a precarização das universidades públicas estaduais — sob a gestão do mesmo partido que deu início, federalmente, às privatizações — através do corte de funcionários e salários, terceirização de serviços e corte de verbas pra manutenção das universidades. O anúncio dos cortes nas bolsas de pós graduação e a redução bombástica do investimento em pesquisa, em 2018, pintam o último cenário escandaloso da gestão em Cultura e Ciência & Tecnologia no país. Quando de sua morte — matada, como disseram — o Museu Nacional tinha como orçamento anual uma quantia quase equivalente a um mês de salário de um parlamentar.
Se isso não é impressionante, eu não sei o que é.
A tragédia do Museu Nacional é um retrato da tragédia nacional. Com fogo, como disseram sabiamente, se limpa tudo: favela, ocupação, mata nativa, demarcação das terras indígenas e museu. Se mata gente no fogo que arde e no fogo da bala que dispara. Que disparou no mesmo Rio de Janeiro, há pouco, e matou Marielle, cuja investigação já se arrastou mais do que qualquer outro crime semelhante. Dispara todo dia matando gente que é gente, mas é anônimo; o anônimo cotidiano. O incêndio cotidiano. Nós estamos permitindo que toda nossa história, em símbolos e pessoas, seja sacrificada em homenagem ao deus do capitalismo.

Em breve, tudo aquilo que não interessa a esse deus será destruído, e quantos profetas já vaticinaram? Aliás, veremos nossos cientistas e rebeldes virarem profetas quando as provas do que disseram forem cinzas. Quando suas verdades não forem mais tijolos de uma construção coletiva, mas ~opiniões que serão questionadas “porque sim” e “a serviço de”. Isso podia ser versículo, podia ser sura, podia ser Confúcio ou Ganesha. Parece uma passagem do Apocalipse. Pouco científico, né?
Mas o que será que falarão de Luzia daqui 50, 100 anos?
Eu queria dizer que daqui pra frente vamos ter que pensar como faremos pra dar conta desse prejuízo inominável, como faremos pra reduzir os danos dessa tragédia. Mas eu tenho a dizer que o problema é mais amplo. O incêndio é um reflexo de um incêndio nacional. Minha pergunta, mais que uma afirmação, é: vamos mesmo deixar que esse incêndio acabe com a gente e não acabe com eles?
Enquanto não mexermos em coisas realmente radicais — e sairmos dos nossos laboratórios pro mundo que não parece fazer parte da Ciência que nos interessa — , vamos continuar parados tempo suficiente pra cada mentira ser uma verdade inquestionável.
Tá acontecendo já.
Porque pra quem acha que a ciência morreu, vamos lembrar que não existe vácuo de poder na história do poder. Alguém vai fazer e vai chamar de ciência. Quem vai ser?
Como e com quem vamos continuar disputando o que é e como deve ser feita a ciência?
Só um desejo: depois que as lágrimas secarem, que a gente, que no fim é sempre Fênix, consiga levantar profundamente mais incandescente dessas cinzas.
