A mulher que eu tento ser coloca a menina que eu ainda sou de castigo. Ela não compreende que o medo do escuro é irracional e justamente por isso é inevitável. Resiste à ideia de acender o abajur, ainda que essa seja a solução mais simples para aquela noite de sono.
A mulher que eu tento ser detesta pedir ajuda pois seria um verdadeiro atestado de incompetência. Isto a mulher que eu tento ser não pode admitir.
E assim ela bate (de cara) em muitas portas.
A mulher que tenho sido insiste em fazer sozinha as tarefas de dupla, achando que vai dar certo. Não poderia estar mais errada, coitada.
Para não ser injusta, a mulher que eu tento ser também acerta. Ela já está aprendendo a lidar com as coisas da gente adulta. Ela rabisca “pago” na conta de luz e mantém os documentos importantes num envelope pardo dentro da cômoda. Ela evita apertar no botão da soneca na hora de acordar. Depois faz café e se senta à mesa vendo os primeiros trabalhadores caminhando na rua em direção ao ponto de ônibus.
A mulher que tenho sido lê poemas e pensa na vida com aquela resignação de quem já entendeu o ritmo do trem que nunca para.
À mulher que quero ser ainda falta um monte de coisas, mas principalmente o respeito ao que sou e ao que já fui. Falta a calma de saber ocupar os seus espaços dentro de mim, deixando, por exemplo, a criança tomar conta quando é necessário.
Essa mulher que usa blazer e salto alto, que caminha imponente nos corredores e que é cheia de compromissos marcados, precisa se ater às suas competências, se é que me entende. Também isto ela está aos poucos aprendendo.
“Isso não é uma competição”, eu aconselho. Há dias em que ela me escuta e assim todas nós nos assentamos no sofá e juntas assistimos aquela série engraçada por algumas horas.
“Não é força”, a pequena diz. “É jeito”, ela completa.

