Reportagem
Ajuda Providencial
Iniciativas voluntárias como os “Arautos da Aparecida” e “Brechó Divinos Avós” mudam a realidade de crianças e idosos em Novo Hamburgo, no Vale dos Sinos

Acordes contra as estatísticas
Gustavo é um menino arteiro, daqueles que não conseguem ficar sentados por mais do que algumas batidas de coração. Mas quando Marcília Claudete Melo, cabeleireira do bairro São José Kephas, de Novo Hamburgo, começa a cantar, o menino de sete anos ouve com paciência. “Te ouvir cantar me faz querer chorar”, confessa.
Ele é uma das 80 crianças que compõem o projeto social coordenado por Claudete, “Os Arautos da Aparecida”, que cantando buscam enfrentar as dificuldades do cotidiano na periferia. As salas da Igreja Nossa Senhora Aparecida ressoam com flautas e violões em meio a pobreza e a trindade usual do desespero: a criminalidade, o tráfico de drogas e a exploração sexual. Os acordes são a forma como eles encontraram de lutar contra as estatísticas que são apresentadas todos os dias como sentenças de vida (e morte) na televisão.
Dez anos antes, Claudete Melo participara da implementação da Pastoral da Criança no bairro. “Tinha dias que voltava pior do que tinha ido”, ela garante. Nas visitas realizadas com a Pastoral, encontrava-se de tudo: crianças com fome, assustadas, abusadas pelas próprias famílias. A realidade da comunidade não assombrava apenas Claudete, mas todos os envolvidos no projeto.
Um menino, em especial, segue vivo em sua memória. Ela recorda de suas visitas à casa dele, que sempre a observava com olhos desconfiados. Antes dos doze anos já aprendera a fechar a cara, lhe faltavam bons modos ou educação. A mãe se prostituía e levava a filha junto. O menino sofria abusos físicos, encontrava refúgio nas drogas. Poucos anos depois, enquanto participava de um assalto foi alvejado pela polícia e não sobreviveu para continuar sua história. “Se eu tivesse começado o projeto antes, podia ter salvado ele”, Claudete se arrepende. Ainda recorda-se das balas que comprava pelo caminho para agradá-lo. Era ainda uma criança, afinal.
Dona de um salão de beleza com borboletas pintadas sobre as paredes brancas, Claudete sonhou em transformar a infância que era negada às crianças da periferia. Começou a organizar quem poderia ajudá-la, até chamou o padre da Igreja Nossa Senhora Aparecida, porém ele não poderia se envolver. “Me dê sua benção e deixe eu usar a igreja, padre, que já está bom.” Assim começava a trajetória dos Arautos.

Atualmente, sete anos após sua fundação, o projeto aumentou sete vezes o número de crianças atendidas. Todas as segundas-feiras elas se reúnem no salão da igreja, para aulas de violão e flauta doce. Com a chegada da professora aposentada Sônia Hoffmann, passaram também a estudar inglês. Na hora de ir embora, as crianças pedem para ficar mais. “Eu queria que elas quisessem estar aqui”, Claudete conclui, com um sorriso: “Acho que consegui”.
Para ela, o futuro está claro: “Vou viver 140 anos e trabalhar até os 90. Sim, depois dos 90 vou só aproveitar”. Enquanto isso, continuará cantando com Gustavos, Maicons e Rafaeis. Afinal, nem todas as lágrimas são de tristeza.
A moda é ajudar o próximo
No outro lado da cidade, no bairro Primavera, onde as casas têm jardins cercados e piscinas de azulejos, as irmãs Sonia Maria e Carla Inês Brock, 71 e 72 anos, também não param por um instante. Enquanto Sonia lida com os clientes no caixa, Carla organiza as novas saias que chegam por meio de doações. “Achei que ninguém mais usasse saias”, comenta e depois diverte-se: “Mas a moda é assim mesmo, vai e depois volta”.

Para as duas senhoras que organizam o “Brechó Divinos Avós”, são as peças que vão que importam. Cada venda realizada é um alento para os 49 “vovôs” que vivem no andar de cima, residentes do Lar São Vicente de Paula, instituição para idosos sem condições de arcar com os custos de clínicas privadas. Todo faturamento do evento é revertido para o Lar, garantindo que não faltará luz, água ou remédios para os moradores, ao menos até o próximo mês.
Ideia das irmãs, o Divinos Avós ocupa boa parte de seu tempo livre. A vontade de ajudar veio após a morte da mãe, que já andava doente há tempos. “A mãe ficou mais doente, então eu lia pra ela, a mãe não enxergava mais, eu lia o Jornal NH pra ela, fazia lanchinho, sentava com ela”, relata Sonia. Sem filhos e com os sobrinhos todos já adultos, as duas senhoras — irmãs mais velhas entre nove irmãos — decidiram não parar de cuidar dos outros.
Aberto quinzenalmente, aos sábados, das 9h às 14h, o Brechó funciona desde 2013 e, atualmente, já faz parte da comunidade. Basta uma conhecida entrar que Sonia já trata como amiga. Lembra dos nomes sem problemas, comenta sobre alguma peça que acredita que combina com o estilo da cliente. Mas não pode se distrair por muito tempo, admite: “Quase que foi vendida a minha jaqueta, vende tudo por aqui!”.

Para Sonia, voluntário precisa estar pronto para trabalhar duro: tem que pegar no pesado, varrer o chão, limpar banheiro e matar aranha. É este o dia a dia dela e de sua irmã, que mesmo aposentadas dedicam a maior parte do tempo ao Lar São Vicente. “Quando somos solicitadas, estamos sempre presentes”, conta ela, para logo depois completar: “Inclusive para os enterros”.
Estatísticas para o bem
O Rio Grande do Sul abriga quase 10% do total de instituições sem fins lucrativos brasileiras, segundo dados do IBGE, na pesquisa “As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil (Fasfil)”, realizada em 2010. Ao total, somam-se 53.467 unidades, entre as 556.846 organizações nacionais. Das pessoas envolvidas diariamente com estas iniciativas, 72.2% não recebem nenhum tipo de remuneração formal. Trabalham, no jargão popular, “apenas no amor”.
Estima-se, segundo dados da “Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD Contínua)” de 2017, também do IBGE, que 7,4 milhões de pessoas realizam trabalho voluntário no país. Na região Sul, segunda em proporção de voluntários, a taxa de participação é de seis a cada 100 mulheres e 4,3 a cada 100 homens. Os números, além disso, seguem crescendo: desde 2016, o total de voluntários no país cresceu 12.9%.
Em Porto Alegre, a Parceiros Voluntários funciona como ponte entre aqueles interessados em ajudar e organizações em busca de colaboradores. A instituição também investe em capacitação, tanto dos voluntários quanto das ONGs, em prol de projetos mais eficientes e duráveis. O objetivo é ultrapassar o simples assistencialismo e alcançar verdadeiras transformações sociais.
Silveth dos Santos Lima, que acompanha a Parceiros desde 1997, acredita que há na população em geral vontade de ajudar o próximo. Silveth lembra do início da organização, 21 anos atrás, quando a fundadora Maria Elena Johannpeter concedeu uma entrevista à televisão. Ela anunciou que haviam oportunidades aos interessados em ações voluntárias, bastando comparecer na sede da instituição no próximo dia. Na manhã seguinte, quando Dona Maria Elena chegou à Parceiros, uma fila já se formara em torno do prédio. Existiam dezenas de voluntários à disposição.
Duas décadas depois, as “Reuniões de Conscientização”, primeiro passo para os voluntários da Parceiros, acontecem duas vezes por semana, sempre atraindo novas pessoas interessadas em aderir a causa. São novas Claudetes, Sônias e Carlas a procura de um lugar onde possam fazer a diferença.
Como afirma Silveth, a busca pelo voluntariado é a uma resposta ao sentido da vida. “A vida não está só passando. Não estou só no meu caminho, mas estou entrando no caminho de outra pessoa também”.
