Um Lugar Chamado América (do Norte!)

Era a quarta vez que eu andava em um avião e a primeira vez que não era numa viagem mais-rápida- que-ir-de-Novo-Hamburgo-a-Porto-Alegre, isto é, de Porto Alegre a São Paulo e vice-versa. Eram um pouquinho mais de oito horas de avião e foi mais ou menos na sétima hora que eu descobri como reclinar o banco. Isto para não falar no oriental estranho de um lado e o americano grandão no outro. O mais incrível? Tudo isso parecia a coisa mais incrível do mundo.

Desci em Houston numa manhã de domingo, e entre Guarulhos e o tal do George Bush foi mais rápido que ir de ônibus de Novo Hamburgo a Curitiba. Demorado mesmo foi a imigração. Tão demorado que deu tempo de perder a conexão.

Éramos umas trinta pessoas que deveriam chegar em Pittsburgh o quanto antes. Spoiler: a gente demorou bem mais do que deveria. Spoiler dois: Mas a gente chegou.

Passei o domingo no aeroporto de Houston, onde todas as lojas vendiam coisas de cowboy e da NASA — e estampas informavam para todo o lado que “tudo é grande no Texas”. E era enorme mesmo. O aeroporto. Os carrinhos levando passageiros de um lado para o outro e que faziam um barulho de “BIBI! BIBI!” que me confundia a toda hora. E o mundo era enorme também, porque de repente eu me dei conta que estava muito, muito longe de casa.

Já era fim da tarde quando dei tchau para Houston e entrei num voo para Atlanta. O avião da United parecia que iria bater asas a qualquer momento e eu me perguntei o que fariam se eu morresse no meio dos Estados Unidos. E depois pensei que estranho seria meu corpo acabar num lugar que eu nem conhecia. E depois nem pensei em mais nada porque cada vez que eu me ajeitava no banco pedia desculpas para as pessoas do meu lado e elas me olhavam estranho até eu lembrar que lá não é desculpa, é “sorry”.

Cheguei em Atlanta onde o sol era quente e os hambúrgueres vinham com cebola, mesmo se você tentasse pedir sem. E descobri que todos os aeroportos parecem o mesmo, ou seja, a globalização é um saco. Em Atlanta as lojas vendem imãs de laranjas e as pessoas falam rápido, mas não tão enrolado quanto no Texas (onde pedir um Subway foi uma aventura e tanto, com um final inesperado).

Em Atlanta passei uma noite em um hotel que parecia um pouco com um clipe do 30 Seconds to Mars, mas mais velho. E acordei atrasada. E assustada. O motorista do shuttle parecia um cantor de Hip Hop, e não dava para entender nada do que ele dizia. Mas eu já estava me acostumando com isso. Não entender.

Mais um voo, o sexto antes de eu perder as contas. A Delta serve café num copinho do Starbucks. E é estranho explicar, porque parece estranho sentir, mas a essa hora eu já estava um pouco de saco cheio. Não que viajar não fosse incrível e inacreditável — mas essa história de perder voo, achar novo voo, passar uma noite numa cidade e acordar cinco da manhã para ir para outra. Espera em aeroporto e mais espera em aeroporto e mais um aeroporto… A pessoa vai perdendo a animação. Mas okay, talvez vocês estejam certos e a pessoa seja meio chata demais mesmo.

O aeroporto de Pittsburgh não parece feito em uma produção. Ele é menor, um pouco como o Salgado Filho, e é cheio de placas contando como um dia ele foi uma fazenda que alguém doou e tudo mais. É um aeroporto simpático, para uma cidade que eu descobriria que também é muito simpática.

Um ônibus escolar estava esperando pela gente. Amarelo e tudo.

A estrada para Pittsburgh é relativamente longa. Tem bastante verde e estrada e verde e mais estrada. Lembro de comer Altoids, olhar placas, olhar para as pessoas nos carros e descobrir que elas são estranhamente iguais a nós. Nada de especial e inacreditável nos norte-americanos.

E, então, o ônibus entrou num túnel. Não um túnel de dez segundos a lá o da Conceição. Um senhor túnel. Os segundos se passavam e nada do túnel acabar. Meus olhos estavam já quase acostumados com a iluminação artificial na escuridão do túnel quando finalmente ele chegou ao fim.

E que fim.

De certa forma eu tenho uma inveja gigantesca de eu mesma naquele instante. Porque mesmo que um dia eu volte a Pittsburgh, aquela sensação nunca vai ser a mesma.

Brilhando como uma moeda de ouro no sol, Pittsburgh apareceu do outro lado do túnel em toda sua maravilhosa e perfeita áurea de cidade pitoresca perdida no espaço e feita para histórias serem contadas sobre ela.

É uma cidade entre rios, com pontes de aço, prédios de aço, prédios brilhantes e antigos também.

Lembro de sentir meu coração bater forte. Meus olhos abrirem mais, para tentarem não perder nada. Lembro de me encantar com cada detalhe, com cada esquina, com a estranha revelação de que sim, eu estava longe de casa e que aquilo não era como nada que eu tinha visto. E isso era maravilhoso.

Tirei poucas fotos da viagem. Acho que estava preocupada demais em ver tudo. Apareço só em duas ou três, mais nas dos outros.

Enquanto fazia minhas malas, a viagem chegando ao fim, depois de tanta coisa que nem parecia poder ter sido só uma semana, prometi para eu mesma que voltaria. E um dia vou voltar.

Depois fui para o aeroporto, e adivinhem só:

Perdi o voo mais uma vez.

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