A Menina que Aprendeu a Voar

Bibi Xausa-Bosak
Aug 9, 2017 · 4 min read

Estou caminhando na rua.
É uma rua que passa no alto de morro, dessas de bairro cheias de aclives.
Passamos por uma esquina suave, um prédio normal, daqueles mais antigos, tem uma escadaria simples, 3 degraus mais altos que o normal, cor verde desbotado, meio lavado, meio velho. Do lado, um portão verde escuro.

Aconteceu sem querer. Depois de uma noite agitada, de semanas intensas e muitas conversas, caminhávamos por ali. Eu e alguens que não sei quem são, umas 3 pessoas.

Passei por aquela esquina e, meio que desviando o caminho, brincando com a estrada, decidi pegar os degraus: e flutuei por alguns segundos.

No segundo degrau da escadaria se sentia um magnetismo, descobri brincando. Se você jogasse o corpo para frente sentia uma resistência do ar, uma força impedindo que você caísse. Ali, dando um pequeno impulso, mínimo, quase zero, quase como apenas não resistir, apenas se deixar cair e ser repelida do chão por essa força magnética, você flutuava no ar.

Foi tão natural que pareceu banal. Flutuei uns segundos e fiquei pra trás do grupo que continuava caminhando. Corri para alcançá-los. Seguimos conversando. Tão ordinário quanto ter parado pra ver algo na rua.
Comentai algo sobre o degrau.

“Vocês viram aquele degrau? Tem algo ali, tipo um imã. Dá um barato”.

Então voltamos, e aí já lembro, eram duas amigas e eu.

Mostrei pra elas o truque do degrau e flutuamos. Dessa vez consegui ir um pouco mais longe. Descobri como sentir essa resistência magnética no ar e subir um pouquinho mais depois, além do tempo da queda estendida que tinha sentido antes.

Flutuamos uns metros pela rua e quando voltamos para o degrau, já tinha virado a sensação do bairro. Como uma fofoca que se espalha, aquela nossa brincadeira discreta, 3 meninas voando, sozinhas, sem expectadores, havia atraído “multidões” — alguns adolescentes com tempo livre no contraturno. Os adolescentes, na maioria meninos, tentavam seu peso contra os degraus verde-velho. Se formava uma fila para ‘cair’ no degrau.

Uma amiga sumiu, outros conhecidos chegaram, a outra amiga passou a ter rosto, agora eu sabia — mais ou menos — quem ela era. Eu não conseguia lembrar direito seu nome, nem de qual situação da semana anterior tínhamos nos conhecidos, mas ela estava tão presente, transmitia uma sensação de cumplicidade. A presença dela, para mim, era nublada, desfocada, mas a minha, para ela, parecia ser nítida, cristalina. Era reconfortante.

Me joguei nos degraus mais algumas vezes. Tentei sair do terceiro degrau ao invés do segundo. Do lado esquerdo, depois do direito. De frente, depois de costas, com as mãos no bolso, como se apenas desse o comando de me desprender do chão. A força magnética era mais forte no segundo degrau, ali dava pra sentir bem, saindo dali qualquer um conseguia flutuar uns segundos.

Continuei nos meus testes. Mais longe, mais alto.
As vezes era fácil como o movimento de um balão. Noutras senti que precisava nadar no ar, fazer força para subir. Não adiantou. O que adiantava mesmo era fazer nada. Sentir a corrente que passava e se deixar levar.

Peguei uma corrente forte. Reparem, não é vento, é algo sutil, magnético, se sente mais com o estômago e com o peso das pernas do que na pele. Subi até depois da copa da árvore que fica em frente aos degraus. Por um momento achei que ia perder o controle, que a corrente ia me levar pra cima e pra cima até o céu. Decidi descer. Automaticamente meu corpo ganhou mais peso, senti a gravidade voltar a fazer efeito. Mas menos, menos do que estar presa ao chão. Quando aterrissei, foi em câmera lenta. Um pé tocou o chão, a ponta, depois a base, lento. Depois a ponta do outro. O joelho esquerdo dobrou para amortecer, pousei como naqueles filmes de kung-fu, o movimento da garça. Seguimos caminho, conversando, só mais um dia.

Essa foi a primeira vez que voei.

No final, depois do último voo, a menina que está comigo, a quem não reconheço a não ser vagamente, me diz:

“A gente precisa se deixar intoxicar pelo outro, se não a gente não evolui.”

Ela tem um rosto leve e simpático, mais jovem que o meu. Pele morena clara, cabelos cacheados, presos. Traços arredondados, um sorriso largo, dentes gordos e pra fora, que fazem a boca sorrir sem querer e sobrancelhas marcantes, finas em formato de arco, olhos castanho-esverdeados.

Não lembro de onde nos conhecemos e me sinto mal por isso, por não ter dado atenção, não ter estado presente. Se fechar os olhos ainda vejo seu rosto, em angulo, sorrindo pra mim, olhando por cima do ombro esquerdo. Ela, ali, na sua pureza, me convida a me abrir mais, estar mais, relaxar e confiar no outro.

E foi assim, num dia de temperatura amena, sol e céu limpo, naquele segundo degrau daquela escada verde-velho, que aprendi a voar.

***

Bibiana Xausa-Bosak

Florianópolis, inverno e cachorros.

Leão, agosto, 09, 2017. Entre um eclipse lunar e um eclipse solar.

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