Doritos: teus discursos não correspondem aos fatos

Algumas observações não tão evidentes sobre o governo de João Dória


Pele lisa, pullover rosa claro nos ombros, camisa bem passada, mil e um compromissos da agenda, oratória impecável. João Dória não dá ponto sem nó.

Principalmente fora de SP vejo muitos amigos acreditando no discurso do Dória. E esse é um grande problema porque ele é ótimo em discurso. Ele é marketeiro, televisivo, ele sabe tudo sobre mensagem e convencimento. Eu contrataria o Dória para o marketing da minha empresa, certeza, mas jamais elegeria ele pra me representar. Explico:

1Dória vem trazendo a promessa do “o não-político”, administrador, homem de negócios que vai trazer novos ares pra política. É uma estratégia boa e eficaz, vem sendo usada no mundo todo e foi a estratégia que elegeu Macri na Argentina e Trump nos EUA. O problema é que, ao ser não-político Dória vem fazendo não-políticas.

No setor público, é importante o diálogo, o consenso, o concílio. No setor privado não precisa. Se o CEO acha que é, o resto da empresa obedece e pronto. Ao tratar o setor público como setor privado, Dória afasta ao invés de dialogar. Fecha portas ao invés de abrí-las [mesmo que na mídia apareça o oposto]. Outro problema das não-políticas é terceirizar para o setor privado responsabilidades que são públicas, num momento em que precisamos muito de um setor público que assuma e cumpra com suas responsabilidades. Mas porque terceirizar essas responsabilidades é ruim?

2 Visão de Cidade/País. Dória tem uma visão privada de espaço. Isso significa o investimento em privatizações em detrimento ao investimento em convívio. Privatizar espaços é um jeito fácil e rápido de melhorar eles. Ficam mais bonitos, mais bem cuidados, custam menos pro estado, tudo isso. Só tem um problema: a visão de cidade privada aumenta insegurança, aumenta criminalidade, aumenta desigualdade social.

Isso porque coloca catraca no convívio, separa ‘quem pertence’ de ‘quem não pertence’. O prejuízo social é dramático. A visão de cidade privada leva a ‘feudalização’ da cidade/país. Isso quer dizer que: dentro do feudo tudo é lindo, para os poucos que tem acesso. Já fora dele, é cada um por si e sem notícias de Deus.

Quem já passou pelo bairro do Morumbi em SP sabe do que estou falando. Condomínios incríveis dentro, mas fora, uma cidade murada, sem calçada, sem pedestres, sem vida. Só se anda de carro lá. Até quem mora no Morumbi tem medo de sair a pé. Não tem padaria, não tem vizinhança, não tem convívio. Não é essa a ideia de cidade que acredito.

3 Política do Morde e Assopra: aqui saímos do campo das ideias e partimos pro campo da moral. Se pudéssemos acreditar no que o Dória fala, menos mal. Mas o problema é que ele, com sua maestria midiática, vende uma coisa e faz outra. Ele assopra na mídia e, na vida real, morde de tirar pedaço.

Um exemplo é a política de pessoas em situação de rua que está sendo aplicada pela Prefeitura de São Paulo. Na mídia, a promessa é de cuidado, de levar para abrigos, de dar condições. Na prática, uma política higienista brutal, tirando as pessoas da rua com violência, despindo-as de seus poucos bens. Se fosse gente rica isso seria apropriação indevida de bens, só poderia apreender com mandato. Como é morador de rua, “tira do vagabundo!”. Tudo na marra e na marretada pra deixar o centro de SP mais bonito porque a especulação imobiliária ali é das maiores do mundo.

4Vamos falar de liberdade e comentar do risco que corro ao escrever, já que advogados da prefeitura estão entrando em contato com pessoas que demonstram opiniões contrárias ao governo Doritos nas redes sociais.

Por essas e outras, peço aos meus amigos esclarecidos: olhem pra além do discurso, porque depende de nós fazermos escolhas melhores.

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