Há mais de 15 anos cometi esse pretenso-pequeno-ensaio. Foi publicado originalmente na revista NovaE no dia 19 de maio de 2002, exatamente no aniversário de 50 anos do início da viagem que resultou no *Grande Sertão: Veredas*. E agora, aos 50 anos do “encantamento” do Rosa, resolvi republicá-lo aqui.

Nasce uma Obra
“A gente estava em maio. Quero bem a esses maios, o sol bom, o frio de saúde, as flores no campo, os finos ventos maiozinhos. (…) Ali, a gente não vê o virar das horas. E a fogo-apagou sempre cantava, sempre.”
Da Sirga à fazenda São Francisco, passando pela Tolda, Pindóia, Santa Catarina, Andrequicé, Vereda do Catatau, Meleiro, Cordisburgo. Para Manuelzão, Zito, Santana, Bindóia, Gregório, Sebastião de Morais, Aquiles, Sebastião de Jesus, o trajeto de 40 léguas, ou cerca de 240 quilômetros, já era bem conhecido. Para o auto-intitulado “vaqueiro-amador”, tocar as 600 cabeças de gado de uma fazenda a outra, num percurso de dez dias, a viagem serviu de matéria-prima para uma obra que instiga pesquisadores, confunde leitores não-iniciados, desafia tradutores.
Acompanhando a boiada, atento a cada detalhe da fauna e flora do norte das Minas Gerais, sem deixar passar nenhum causo, piada, aventura, cantoria dos vaqueiros, o médico-diplomata João Guimarães Rosa mantinha presa a um cordão, no pescoço, uma cadernetinha. Os registros da viagem incluem, também, as impressões do escritor, como as frases que abrem este artigo.
Era maio, dia 19 de maio de 1952. Há 56 anos começava a viagem que resultou em “Grande Sertão: Veredas”. Nonada, o neologismo hermético que inicia a fala de Riobaldo Tatarana ao baldear o “Gaiola” rumo ao norte, rumo ao “desejo de Deus”, Diadorim, entraria de vez para o léxico português.
“Tenho de segredar que — embora por formação ou índole oponha escrúpulo crítico a fenômenos paranormais e em princípio rechace a experimentação metapsíquica — minha vida sempre e cedo se teceu de sutil gênero de fatos. Sonhos premonitórios, telepatia, intuições, séries encadeadas fortuitas, toda sorte de avisos e pressentimentos. No plano da arte e da criação — já de si em boa parte subliminar ou supraconsciente, entremeando-se nos bojos do mistério e equivalente às vezes quase à reza — decerto se propõe mais essas manifestações. (…) Quanto ao Grande Sertão: Veredas, forte coisa e comprida demais seria fazer crer como foi ditado, sustentado e protegido — por forças ou correntes muito estranhas”, diria Rosa, em “Tutaméia”, sobre como a obra se fez, ou foi feita.
Presença frequente nas maiores antologias literárias, “Grande Sertão: Veredas” teve mais um reconhecimento recente. O jornal inglês “The Guardian” convocou cem escritores de todo o planeta para elegerem as cem maiores obras literárias da humanidade. O único representante brasileiro: “Grande Sertão: Veredas”. Vale lembrar que Rosa e Machado de Assis disputam o título de maior escritor brasileiro. Coincidência ou não, Rosa nasceu exatamente no ano em que Machado morreu, 1908. Seria um dando continuidade à obra do outro?
O João Rosa, como o chamavam os vaqueiros, fez apenas uma exigência durante a viagem: que ninguém o chamasse de “doutor”. Montando a mula Balalaika ou o burro Canário, o médico e diplomata, àquela altura já consagrado por “Sagarana” e então chefe de gabinete do ministro João Neves da Fontoura, quis apenas resgatar suas próprias origens, viver ao relento, começar o dia com um gole de cachaça e um punhado de feijão tropeiro (“Dormidas: 1ª noite: tapera de paiol. 2ª noite: garage de caminhão. 3ª noite: uma rebaixa de engenho”, registrou Rosa em sua caderneta).
E percorrer as veredas, apreciar o pôr-do-sol moldado pelos buritis, saborear a sabedoria nata daqueles homens e reses tão brutos quanto sensíveis. “Isso porque a vida de vaqueiro é bebida, briga e rapariga, e a alegria de pobre é um dia só: é uma libra de carne e um mocotó”, resume Bindóia (ou Raimundo Ferreira do Nascimento) no livro “Nas Trilhas do Rosa”, de Fernando Granato. Bindóia, o campeiro da expedição, chamou a atenção de Rosa por um detalhe: sempre descalço, mantinha uma espora amarrada ao calcanhar.
A exemplo de Bindóia, outros vaqueiros da expedição acabaram imortalizados como personagens de Rosa. O mais famoso deles: Manuel Nardi, o Manoelzão, o caboclo de 1,90 metro de altura que protagonizaria “Corpo de Baile”, ou “Manuelzão e Miguilim”. E não apenas as personagens, mas boa parte das cenas narradas por Rosa, são mais do que verídicas. A inauguração da capela construída por Manuelzão em homenagem à mãe, com direito a festa e participação de todos os moradores da redondeza, é fato. Restam hoje apenas as estruturas de madeira da velha capelinha, na entrada da fazenda da Sirga, que se chamaria “Samarra” no conto “Uma Estória de Amor”.
Personagem de si-mesmo, Rosa fez daquela viagem o reencontro de sua meninice em Cordisburgo, “quase só lugar.” “É uma região de muito isso”, diria Rosa em seu discurso de posse na Academia, exatos três dias antes de falecer, em novembro de 67. Hoje, a casa em que Rosa nasceu é sede da Associação dos Amigos do Museu Casa Guimarães Rosa. Entre objetos pessoais e fotos, no grande cômodo da frente está caracterizada a antiga “venda” do sr. Florduardo, ou melhor, “seu” Fulô, pai do JGR. (Parênteses: outubro de 99, estive lá. Deixei meu registro na página 55 do livro de presenças.)
Na venda de seu Fulô, Rosa teve os primeiros contatos com vaqueiros. O comércio, em frente à estação ferroviária Central, era ponto de parada dos cavaleiros. A mesma estação, hoje praticamente desativada, que, com um pouco de imaginação, pode-se “ver” o conto “Sorôco, sua Mãe, sua Filha”. Entre um gole e outro de cachaça, os causos dos viajantes começavam a formar o universo literário de Rosa, depois revivido na viagem de 52, da fazenda da Sirga ao pasto do Capão do Defunto.
Ascese literária
Da via-crucis das baldeações de Riobaldo pelo “Gaiola” à busca metafísico-existencial da Terceira Margem do Rio; da aquiescência do mundo sob a ótica do Burrinho Pedrês à purificação penitenciosa de Augusto Matraga; do non-sense sentimental do Cavalo que Bebia Cerveja à audição surda mas onipresente das orações de um sapo por parte de Maria Euzinha.
As letras como instrumento da ascese místico-medieval de Santo Tomás e Ruisbröeck; os desejos de Deus — Diadorim — ao encontro do Fausto. A narrativa fluida mas consistente como as de um rio, “que é sempre igual sem ser o mesmo”. A dureza de homens que choram e se submetem à noite da encruzilhada. Mitos junguianos revistados emoldurados pela dignidade simples — legítima! — das durezas das lágrimas, buritis, São Francisco, chuva. Águas sempre presentes na estiagem do sertão. O sim pelo não.
O mundo concentrado num cenário infinito -”o sertão é do tamanho do mundo”. Personagens que de tão normais ganham dimensões épicas incomensuráveis. Tempo legitimamente concentrado em instantes que remetem a histórias imemoriais. Tudo costurado por linhas mestras de uma linguagem única, reconstrutora de sintaxes indiferente ao pensamento cartesiano-ocidental, subvertendo lógicas à zen budismo. “Tens panos para remendos? Sim, mas de que cor são os buracos?”
Páginas herméticas acessíveis a não-iniciados; disposição de espírito, entrega de alma. “Quem tem medo de viver não nasce…”
Rosa não se furtou ao destino, e selou-o com a presença legítima em quaisquer das antologias mundiais que se prezem. O que, no entanto, tornou-se problema para os bibliotecários: onde classificá-lo? Filologia? Filosofia? Sociologia? Literatura…
Ironia do destino fazer essa confusão com os homens dos livros. Borges, quem sabe, na sua cegueira, pudesse entrever essa classificação. Ambos cosmopolitas ao extremo, marcando a literatura por detalhes locais; o Grande Sertão ou a Recoleta. Fantástica viagem pelos labirintos do ser-tão veredas.
Os óculos de Miguilim embaçaram-se. A capela de Manuelzão ganhou seu santo definitivo. Tresaventuras…
Rosa humanista
Diplomata, servindo em vários países, João Guimarães Rosa teve uma faceta particular revelada apenas há alguns anos. Em 1938, Rosa é nomeado cônsul adjunto em Hamburgo, e segue para a Europa; lá fica conhecendo Aracy Moebius de Carvalho (Ara), que viria a ser sua segunda mulher. Durante a guerra, por várias vezes escapou da morte; ao voltar para casa, uma noite, só encontrou escombros. Ademais, embora consciente dos perigos que enfrentava, protegeu e facilitou a fuga de judeus perseguidos pelo nazismo; nessa empresa, contou com a ajuda da mulher, D. Aracy.
Em reconhecimento a essa atitude, o diplomata e sua mulher foram homenageados em Israel, em abril de 1985, com a mais alta distinção que os judeus prestam a estrangeiros: o nome do casal foi dado a um bosque que fica ao longo das encostas que dão acesso a Jerusalém. A concessão da homenagem foi precedida por pesquisas rigorosas com tomada de depoimentos dos mais distantes cantos do mundo onde existem sobreviventes do Holocausto. Foi a forma encontrada pelo governo israelense para expressar sua gratidão àqueles que se arriscaram para salvar judeus perseguidos pelo nazismo.
Rosa, na condição de cônsul adjunto, facilitava vistos aos judeus em fuga para o Brasil. Os vistos eram proibidos pelo governo brasileiro e pelas autoridades nazistas, exceto quando o passaporte mencionava que o portador era católico. Sabendo disso, a mulher do escritor, D. Aracy, que preparava todos os papéis, conseguia que os passaportes fossem confeccionados sem mencionar a religião do portador e sem a estrela de Davi que os nazistas pregavam nos documentos para identificar os judeus. Nos arquivos do Museu do Holocausto, em Israel, existe um grosso volume de depoimentos de pessoas que afirmam dever a vida ao casal Guimarães Rosa.
O escritor, que fez o que fez, sempre se furtou a comentar o assunto. Ele apenas fez o que devia.