:: Pesadelo Refrigerado ::

Se há algo que sempre me intrigou é o fascínio que os EUA exercem sobre uma parcela considerável dos brasileiros (assim como no resto do mundo, mas fiquemos por aqui), e dentro dessa parcela outra mais considerável devido, em tese, ao nível cultural e de instrução. Dirão que é ingenuidade minha: nem o acesso a uma formação cultural razoável é garantia de bom-senso e discernimento, nem a autopropaganda estadunidense deveria ser menosprezada.

Mas a recente (ou nem tão recente) e crescente onda reacionária, que não raro evoca *valores* importados lá do país do norte (num patriotismo patético e contraditório ao vestir a camiseta canarinho), e que tem como um de seus paradigmas o sonho de consumo de morar em Miami, amplifica essa minha sensação de intriga. (Ressalte-se que sou um cara que não alimenta, nem nunca alimentou, nenhum sentimento xenófobo, e o que se segue são links e fatos e a análise visceral de um… estadunidense.)

Como, por exemplo, exaltar um país campeão de massacres, vários cometidos em pacatas escolas? Ou onde resistem — e se multiplicam — abomináveis homens de capuz, excrescências de ares medievais? Ou ainda onde rancheiros racistas se acham no direito de fazer suas próprias leis? Ou, por fim, onde na *terra do progresso* o que se vê é a proliferação de homeless inservíveis, que apenas, e tão-somente, enfeiam e custam caro? Isso pra não falar do insano apoio ao nome do Donald Trump e da ainda mais insana política de incentivo à indústria da guerra, e às guerras, entre outras aberrações.

Talvez a paranóia existencial que moldou a cultura estadunidense explique isso tudo — e retroalimente isso tudo. Sintomaticamente, pipocou (ou viralizou) nas redes um trecho da série The Newsroom, da HBO (thanks, brôu Marcelo — o vídeo tá aqui.

E, mais emblematicamente ainda, tive a grata surpresa de ganhar um daqueles presentes absolutamente inesperados, mas que parecem vir no *momento certo*. A gentileza foi do grande camarada Carlos Bueno Guedes — um livro que, confesso, não conhecia: *Pesadelo Refrigerado*, o livro censurado de Henry Miller, nesse interessante artigo que achei na Revista Bula. Vale a pena ler o artigo, mas pincei alguns trechos do prefácio:

… Chamar isso aqui de sociedade de povos livres é uma blasfêmia. O que temos a oferecer ao mundo além da superabundante pilhagem que com total indiferença arrancamos da terra sob a maníaca ilusão de que essa atividade insana representa progresso e iluminação?
[…]
*… não é um mundo em que eu queira viver. É um mundo adequado a monomaníacos obcecados com a ideia de progresso — mas um falso progresso, um progresso que fede. […] o sonhador cujos sonhos não sejam utilitários não tem lugar neste mundo.*
  • Miller escreveu isso em plena 2ª Guerra — depois de passar uns 10 anos na Europa, voltou e fez uma viagem de uns três anos pelos EUA — o livro é o relato dessas impressões de viagem, falando tudo o que ia contra o sentimento patriótico pra lá de exacerbado naquele momento. Mas, se naquele contexto a guerra era até um pretexto (discutível) pra justificar o comportamento doentio da nação, hoje nem esse pseudo-pretexto há (ou há, mas faz parte exatamente dessa cultura que se alimenta do medo, do ódio e da dor): é a cegueira de um povo que não admite, não quer ver, o fosso cruel que eles mesmos criaram. É esse *tipo sociológico*, ao mesmo tempo vítima e algoz, que faz parte de uma sociedade doentia — e que o Miller apontou e descreveu com precisão há uns 70 anos, mas segue mais (morto-)vivo do que nunca.