Hoje é dia de Visibilidade!

O que, exatamente, queremos tornar visível?

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Hoje é o dia mundial da visibilidade bissexual.

No caso da bissexualidade, hoje é o dia, mais um dia, na verdade, para reafirmarmos que existimos, que não há nada de errado com a gente, que temos direito de amar, como todo mundo. É mais um dia para pensar sobre o tipo de afirmação que as pessoas fazem sobre nós e sobre como combater os preconceitos e pré-julgamentos que pesam sobre a gente.

Porém, neste dia de visibilidade, o que queremos tornar visível? Eu não queria apenas falar do preconceito que nos rodeia, da questão existe-ou-não-bifobia, da nossa sub-represtação no meio lgbt, da desconfiança que pessoas, dentro e fora da comunidade lgbt, nutrem em relação a nós, e da consequente dificuldade que as pessoas sentem em se afirmar bi, já que pouco se fala sobre o que é ser bi, e quando se fala as pessoas tendem a não nos levar a sério. Não que essas coisas sejam irrelevantes, ou tenham sido superadas; temos sim que falar sobre isso, evidentemente.

Queria dar visibilidade, porém, hoje, às inseguranças que seguem atormentando, pelo menos de vez em quando, aquelas pessoas entre nós que se consideram militantes da causa, que são bem pra fora do armário, que não tem nada a esconder e são orgulhosas de sua sexualidade. Deixa eu exemplificar.

Outro dia, uma amiga minha muito sábia, companheira de luta e exemplo de vida, me disse: Amiga, acho que sou uma feminista hipócrita. Falo com todas as minhas amigas, especialmente as mais novas, o que engloba minha irmã, que elas tem que amar seu próprio corpo do jeito que ele é, que se estão se relacionando com um cara e ele der qualquer sinal abusivo, elas têm que correr, e não somente, têm que falar com as amigas, cuidar umas das outras. Digo pra elas que a ditadura da moda e da beleza é algo a ser combatido, que não tem essa de vou fazer dieta para ter corpo-verão. Acredito plenamente nisso tudo, mas muitas vezes não consigo aplicar isso a mim mesma.
Aquilo ficou na minha cabeça, porque eu também tenho esses momentos. Eu sei que a ditadura da magreza é um horror imposto sobre nós, mas cá estou querendo emagrecer pra ficar “bonita” de biquini. Eu detesto depilar, e não vejo nenhum problema em pêlos. Nem na vida, nem no sexo, nem em lugar nenhum. Porém, esses dias, achei melhor tirar, porque sinto um pouco de vergonha em sair com meus pelinhos expostos ao mundo.

Sinto que é importante, de vez em quando, pararmos para pensar nessas coisas. Claro que se aceitar, desafiar padrões, é um processo, não algo que acontece da noite para o dia. E estamos neste processo. Porém, às vezes, temos medo de falar sobre isso, porque significa ter que lidar com nossas próprias inseguranças, com a dura realidade de perceber que o discurso é uma coisa maravilhosa, que nos fortalece, mas que nem sempre a prática é igualmente maravilhosa. Pelo contrário, ela é difícil, recheada de dificuldades e dúvidas.

Ter essas dúvidas faz de nós pessoas hipócritas? Não. Faz de nós pessoas humanas, que percebem que nada é fácil, preto no branco, auto-evidente. O discurso empoderador, por importante que seja, às vezes joga sombras sobre estas dificuldades, como se a pessoa empoderada “mesmo” não sentisse esse tipo de insegurança.

É pra isso que eu gostaria de dar visibilidade neste dia.

A sexualidade bi é algo fluido. Eu adoro discutir esse tema, como vocês podem notar pelo número de posts anteriores que fala disso. É uma identidade que foge da lógica binária, que permeia a sociedade. A divisão em dois pólos, homem/mulher, e em duas sexualidades, homo/hétero, não é igualitária. A gente sabe que um dos pólos detém mais poder que o outro.

O ser bi, porém, diz respeito a estar flutuante entre pólos, particularmente o homo/hetero. Isso é difícil. Em primeiro lugar, porque a gente tende a pensar, de fato, em dois pólos que se enfrentam, quando, talvez, fosse melhor pensam em um continuum, uma linha que vai de um extremo ao outro. E as pessoas se distribuem ao longo dessa linha, ao invés de se concentrarem nas pontas. Em segundo lugar, porque quando pensamos em pólos e na desigualdade de poder, construímos nossa identidade a partir de um extremo, em oposição ao outro. Se estamos distribuídas ao longo de uma linha, porém, significa que nosso Eu está, em sua constituição, entrelaçado ao Outro. O Outro está em nós, para bem e para mal. Isso não anula a concentração de poder, só a torna mais difícil de ser identificada. Nossa percepção identitária, porém, e por consequência nossas ações afirmativas, se constrói partindo dessa lógica de oposição, não de entrelaçamento.

O que faz pleno sentido: para dar coesão à uma comunidade, de modo que ela possa se afirmar e se defender dos ataques que a atormentam (vide gente do naipe Malafaia & Co.), bem como demandar mudanças políticas, é preciso que ela tenha uma identidade estável, elementos que a caracterizem. A fluidez, poderíamos dizer, tem muito a ver com a teoria queer, que, afirmam críticos, é um pensamento ligado à afirmação individual, mais difícil de ser posto em prática em termos comunitários ou coletivos. Essa, afinal, é uma crítica recorrente a esse pensamento, especialmente vinda de grupos mais ligados ao pensamento marxista e socialista.

Não discordo dessa crítica. Mas também enxergo problemas nessa estabilidade identitária, visto que uma estabilidade, uma caracterização específica, inclui gente, mas também exclui quem não se enquadra plenamente. Identidade é algo que construímos em meio a recortes de classe, de raça, de gênero, entre outros. E recorte não é só uma palavra. Quer dizer que a experiência social não é a mesma para todo mundo. A vivência da própria sexualidade também está incluída nisso. Ainda assim, construímos estabilidades, porque assim damos coesão às nossas comunidades, visto que, apesar das inúmeras diferenças, precisamos de um piso comum. Este percurso, porém, não é isento de problemas, dos quais é preciso tratar, sem que isso signifique invalidar tudo o que já foi feito partindo de um tipo de identificação mais estável, mais centrada em uma lógica de oposição e que continua sendo fundamental para nossas conquistas coletivas. Dá para ver que sim, a gente brilha (glitter!), mas não é fácil ser a gente.

Tudo isso para dizer que a fluidez, algo que eu penso ser inerente à bissexualidade, gera dúvidas, questionamentos, dificuldades, e isso não é algo que vai embora da noite para o dia.

Às vezes, a gente se pergunta se a gente é de verdade mesmo. Afinal, as pessoas já acham a gente meio unicórnio.

http://hecatesfairy.tumblr.com/

Quantas vezes não dissemos, mais ou menos em tom de piada, sou meia-viada? Porque, em algum lugarzinho na nossa cabecinha, quem sabe isso nos faz sentir “mais” parte da comunidade lgbt, que se caracteriza em termos mais binários. O ser “meio a meio” é algo presente em nós, talvez por conta de um processo de internalização de um pensamento social recorrente sobre a bissexualidade.

A discussão sobre bissexualidade passa muito de seu tempo, por motivos variados que não vêm ao caso, sobre a questão da bifobia. Ainda que, pessoalmente, ache que existe bifobia, não é sobre isso que quero falar. Meu ponto é que a energia que gastamos com essa discussão faz com que outros temas fiquem perenemente em segundo plano.

Em termos de afeto e sexualidade, como lidamos com o fato de que, para um conjunto de pessoas bi, existe uma tendência a se envolver afetivamente com um gênero, por assim dizer, e a ter um envolvimento de tipo mais sexual e menos afetivo com outro? Isso não é verdadeiro para todo mundo, ou o tempo todo. Porém é algo. Será que isso é um problema? Será que, enquanto pessoa bi, deveria me empenhar a ter relações afetivo-sexuais mais equilibradas? Porque esse é outro mito mais ou menos internalizado: ser bi é ser 50%-50%, com pequenas variações ao longo da curva. Especialmente se tendo a me envolver sexualmente com mulheres, mas não tanto afetivamente, estou objetificando essas pessoas?

Eu já disse isso no blog, não tem nada disso. Foda-se a curva. Identificar-se como bi não diz respeito a um padrão matemático-estatístico do que você faz na balada, por exemplo. Porém, esse é um pequeno pensamento que surge, de tempos em tempos, e nem sempre é óbvio se livrar dele. Afinal, a sociedade interage assim com a gente, por exemplo, quando nos perguntam, como se fosse ok, se ficamos/transamos/namoramos com mais homens ou mulheres. Isso não é da conta de ninguém, mas parece que devemos falar sobre isso, fornecer provas numéricas, para sermos considerados.

Existe o argumento da “passabilidade bi”. Isso quer dizer que bi podem mais tranquilamente parecer hétero, o que lhes permite ser mais bem aceitos na sociedade. Esse argumento não surge exclusivamente para discutir a natureza da bissexualidade. Está também associado, por exemplo, ao discurso sobre como pessoas lgbt em geral deveriam parecer “normais”, para demonstrar para o resto da sociedade que não somos um bando de doentes, que é possível não se conformar a uma sexualidade heteronormativa e ter uma família, ser do exército, participar da política etc. Essa é uma discussão longa e importante, mas meu ponto aqui é que, ainda que a gente possa discordar da ideia de que “passabilidade bi” existe, outras pessoas pensam isso, nos nossos círculos sociais. Será que a gente, buscando nosso espaço na comunidade lgbt, uma maior visibilidade, deveria combater essa ideia “parecendo” mais lgbt? Olha, isso é bem grave. Primeiro, porque caricaturiza a comunidade lgbt. Ser lésbica, por exemplo, não é usar roupas masculinas e cabelo despenteado. Isso se chama aparência, gente, não sexualidade. A mina lésbica que passa maquiagem, usa salto e blusinha de renda não é menos lésbica do que outras. E ser bi não é parecer a Ramona Flowers e pintar o cabelo de uma cor diferente a cada semana.

Evidente que existem pessoas que são mais conformes, em sua aparência, àquilo que consideramos o padrão estético dominante, não que isso não exista ou não tenha problemas. Certas aparências são mais conformes ao padrão, logo, essas pessoas tendem a ser melhor aceitas em certos espaços: quantas mulheres negras já relataram que foram abertamente preteridas em entrevistas de emprego por não alisarem seu cabelo? Meu ponto aqui, evidentemente, não é fingir que isso não existe ou que não é um problema; a questão, no específico, é desqualificar a bissexualidade porque ela não responde, supostamente, a um padrão estético-normativo próprio, usando o argumento da “passabilidade”.

E isso nos afeta, quando achamos que deveríamos agir ou nos apresentar de formas específicas, para nos afirmar. Quando, enquanto mulheres, nos interessamos por outra mulher e pensamos nossa, será que ela vai me achar muito hetero? (gente, eu não dou muitos exemplos de homens bi, porque não conheço tanto essa realidade! Se alguém quiser se manifestar, escrever um texto conjunto, qualquer coisa, só falar!).

Eu queria pensar nossa será que ela vai me achar muito hetero? Não queria. Sei que não é por aí, que ser bi não significa “não parecer hetero”, mas isso está na minha cabeça, em vários momentos.

Em geral, acho que isso está relacionado ao fato de que discutimos pouco bissexualidade e, em geral, aquilo que se costuma chamar de sexualidades não-monossexuais. Discutimos os estereótipos, tentamos superá-los. Dizer o que não é ser bi já em um avanço, mas ainda não é discutir sobre o que achamos que somos, o que queremos ser. Como isso se faz pouco, eis que certas coisas ficam na gente, e produzem insegurança, mesmo quando gastamos parte consistente do nosso tempo “dedicadas à causa”, mesmo quando já saímos do armário e nos dispomos a falar de nossa sexualidade em público, na esperança de ajudar outras pessoas.

Conversemos mais sobre o não somos, mas também sobre o que imaginamos ser, sobre como queremos nos construir. Feliz dia da Visibilidade Bi!

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