Intersecionalidade 1

sim, é metodologia. Não. Não é chato!

Então falemos sobre feminismo intersecional, como prometido em algum post anterior. Li várias coisas em blogs, este texto aqui foi postado por vários blogs feministas sobre o assunto. Este não é um texto especialista, é só uma sumarização das coisas que li até então.

Uma definição dada à intersecionalidade seria “o estudo de interseções entre formas ou sistemas de opressão, dominação ou discriminação”. Esta é a definição dada pela estudiosa feminista Kimberle Crenshaw, que criou o termo enquanto feminista negra: a soma de estudos sobre a vivência de mulheres brancas (mulheres brancas e de classe média são o primeiro foco do feminismo) e sobre a vivência de homens negros, em seu conjunto, não constrói um entendimento sobre a situação da mulher negra. É preciso ir mais além, buscando compreender as especificidades deste grupo social, que se encontra na interseção de diferentes opressões. Aliás, leia mais aqui sobre apropriação do conceito de intersecionalidade por parte do feminismo branco.
Em primeiro lugar, porém, acho que é importante entender a metodologia da intersecionalidade. Por quê? Simples: é fundamental entender como se constrói o pensamento. Não existe pensamento em si, ele não se produz no vácuo; é importante entender o método, para tentar compreender de qual lugar determinado pensamento vem.

Conceito central para a intersecionalidade é o de complexidade. Ao assumir que existem sistemas de opressão, admite-se que as relações sociais são complexas, porque compostas dos mais vários grupos sociais, e também porque a opressão não é uma só: isso significa, no caso do feminismo, que a mulher branca de classe média não vivencia as mesmas situações de opressão vividas pela mulher negra de classe média, e assim sucessivamente. A grande questão é que a complexidade tem múltiplos níveis, o que a torna um conceito difícil de ser estudado e uma ferramenta complexa para ser aplicada. A proposta da intersecionalidade é a de ser capaz de expandir o sujeito da análise para incluir múltiplas dimensões: isso significa ter que gerir a complexidade social de alguma forma. Se estamos lidando com grupos sociais, o problema imediato é como reconhecê-los e diferenciá-los. Isso implica, em tese, a categorização dos grupos, e é sobre este ponto que o debate metodológico se desenvolve. A estudiosa Leslie McCall tem este excelente artigo sobre o debate metodológico, e no qual se baseia o próximo trecho do post.
Existem, essencialmente, três vertentes sobre como estudar a intersecionalidade, e divergem a respeito do tratamento que deve ser dado à categorização. Categorias são aquelas tradicionais de estudo dentro da intersecionalidade, como classe, raça, gênero, e são compostas por dimensões distintas, nas quais as pessoas se reconhecem: um sujeito pode ser uma mulher, jovem, imigrante boliviana, trabalhadora operária urbana. Percebe-se, portanto, que ela se insere em várias categorias, e representa alguma dimensão destas. A problematização vem da própria identidade do sujeito, que precisa ser reconhecida (como acontece na etnografia), e também do uso de categorias em si: se este sujeito é uma mulher imigrante, mas que se percebe como integrante da comunidade local, é possível classificá-la como imigrante? Isso depende de sua relação com a terra natal, com a visão que dela tem os outros membros da comunidade? Eis que questões como essa surgem e é necessário gerir a complexidade.

https://miriamdobson.wordpress.com/2013/04/24/intersectionality-a-fun-guide/

A primeira vertente, anticategorial, propõe a descontrução das categorias analíticas, porque estas, ao produzir diferenças, produzem desigualdades. Isso acontece porque a maioria esmagadora das experiências humanas não se encaixa em uma só categoria, e se o encaixe funciona é em função, majoritariamente, da imposição de uma ordem homogeneizadora em uma realidade social que é, na verdade, mais heterogênea. É importante observar que as categorias são, em primeiro lugar, uma construção da linguagem, e não uma realidade em si. Isso significa, no caso dos sistemas de opressão, que a desconstrução de categorias também é uma desconstrução das desigualdades. Este fato também é corroborado pela ideia de que a realidade social é irredutivelmente complexa, o que significa que categorizar é simplificar, e simplificar é invisibilizar alguém. Além disso, categorias se baseiam na ideia de unidade da identidade; esta vertente, porém, rejeita essa noção ao afirmar que a diferença está na própria identidade do sujeito e que, portanto, categorizar nem mesmo cumpriria corretamente a função de diferenciar.

A segunda vertente, intracategorial, é também a primeira a ser adotada nos estudos sobre intersecionalidade pelas estudiosas de feminismo negro. É uma posição intermediária, que busca adicionar complexidade às categorias de análise, usando-as mais criticamente. Neste sentido, é importante partir de categorias porque é através destas que sujeitos e grupos sociais se percebem e percebem os outros. Assim, lida-se com a complexidade pensando que o indivíduo ou grupo representa uma dimensão das várias categorias que definem suas relações sociais. É possível dizer, portanto, que esta vertente não nega a importância das categorias, mas dá enfoque à maneira como estas são produzidas, reproduzidas, vividas e resistidas.
É importante observar que estes modelos não são estanques, dialogam entre si, e são frequentemente presentes nas mesmas pesquisas. A adoção do estudo de caso e da comparação são maneiras práticas de construir conhecimento a partir destas metodologias.

A terceira vertente, intercategorial, trabalha com as relações de desigualdade que existem a partir das relações entre diferentes grupos sociais e como estas mudam. Este processo requer o uso de categorias, e pensa a complexidade como múltiplos grupos sociais e múltiplas categorias nas quais os sujeitos de análise estão inseridos. Para estudar a complexidade destas relações, faz-se necessário o uso da teoria comparativa. Assim, se estuda-se, por exemplo, a diferença salarial entre brancos e negros da classe trabalhadora, e insere-se uma nova variável, por exemplo, o gênero, é preciso comparar o salário de mulheres brancas e negras com o de homens brancos e negros, o que gera uma matriz comparativa complexa. Este modelo permite o uso de metodologias quantitativas avançadas, o que permite ampliar as dimensões do estudo. Assim, ainda que partindo de categorias tradicionais, que podem ser reducionistas, alcança-se a compreensão da complexidade, pois diferentes contextos resultam em diferentes configurações de desigualdade.

Observa-se, portanto, que o estudo da intersecionalidade requer alguma metodologia para lidar com a complexidade social. Aquelas aqui apresentadas propõem diferentes maneiras de pensar a categorização, mas dialogam entre si. Penso que esta digressão sobre metodologias serve, principalmente, para sustentar o ponto segundo o qual a fragmentação do feminismo é sua própria força. E parece ser mesmo, pois é em sua complexidade que se encontram e dialogam mulheres cujos contextos são infinitamente diferentes.

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