Intersecionalidade 2

Do papel político

Me deparei com este artigo de Sirma Bilge sobre a despolitização da intersecionaliade e seu “branqueamento”, termo entendido por Bilge como a percepção da intersecionalidade através das lentes de grupos privilegiados, inclusive, dentro da academia, especificamente nos campos de estudos de gênero.

Por quê isso importa? Em primeiro lugar, porque a intersecionalidade nasce a partir da ideia de que não se pode separar a questão de gênero de outras, neste caso específico, a de raça. Kimberlé Crenshaw, que cunhou este termo em 1989, explica bem a questão nesta entrevista. Bilge, contudo, vai mais além, e discute em seu artigo como existe um processo de despolitização acadêmica do conceito de intersecionalidade, tratando-a como algum tipo de reflexão meta-teórica, ou mesmo negando ou desvalorizando seu contexto de origem, ligado ao feminismo negro e à falta de representação dentro do feminismo mainstream, o branco.

Em segundo lugar, é importante discutir o papel do feminismo dentro da academia. No post anterior, discuti sobre metodologia de pesquisa em intersecionalidade. Aquele post veio antes por um motivo muito claro para mim: é preciso saber como se constrói o conhecimento em primeiro lugar. E na discussão metodológica é muito claro que a intersecionalidade é capaz de produzir um conhecimento transformador. O que isso quer dizer? Como McCall observa em seu artigo (post anterior!), diferentes metodologias produzem diferentes conhecimentos, e a proposta metodológica intersecional se demonstra, a princípio, capaz de identificar grupos em interseções socialmente esquecidas, de lidar com a complexidade social sem recorrer a simplificações que nunca são neutras. Se o conhecimento produzido é transformador, então este também deveria ser seu papel dentro da academia. Bilge discute sobre a cooptação da intersecionalidade em termos neo-liberais, o que nega sua radical posição em prol de uma construção social diferente e de uma luta por justiça. Isso acontece mesmo dentro do feminismo, quando o establishment acadêmico toma a intersecionalidade para si, privando-a de sua capacidade de crítica à construção acadêmica, por exemplo, em áreas de estudos pós-coloniais. Evidentemente, isso não acontece com a academia toda, e não é propósito do artigo dizer quem pode ou não discutir e utilizar os conceitos da intersecionalidade, apenas, alertar para este risco.

Em terceiro lugar, discutir do papel político e transformador da intersecionalidade significa também discutir práticas, inclusive dentro do próprio movimento feminista. Este artigo, de 2011, foi extremamente popular na época, e trata justamente dos problemas da prática social, inclusive dentro de movimentos que se definem como progressistas, de silenciamento de minorias ou grupos sociais historicamente oprimidos.

No caso específico, trata do silenciamento das mulheres negras, e mesmo racismo, dentro da SlutWalk de New York. Outro exemplo mais recente trata da fala de Patricia Arquette no Oscar, especialmente aquilo que ela disse à mídia depois da cerimônia. O ponto, nestes dois casos, é enxergar a prática social através de lentes intersecionais. Concordo, é difícil. Fundamental aqui, porém, é reconhecer a conexão entre uma teoria e uma metodologia de pesquisa dentro da academia e sua capacidade transformadora política da prática social.

Isso tudo importa, inclusive no contexto político brasileiro, porque as diferentes opressões não podem ser razão de divisão do movimento feminista. A questão, porém, é que diversidade necessita de espaço, para se tornar solidariedade. E o espaço se constrói, se cede e se conquista através da compreensão. Bilge nota como a diversidade, se não transformada em solidariedade, pode se transformar em uma mera representação mercadológica de nichos econômicos, de grupos-target cada vez menores e mais fragmentados, cada um com sua representação no âmbito do consumo. A proposta política da intersecionalidade é o contrário disso. É a construção de solidariedades sem silenciamentos, é a capacidade de criar coalizões verdadeiramente inclusivas.
Chegaremos lá.