Intersecionalidade 3

E bissexuais?

Será que a intersecionalidade, como pensamento teórico e como pensamento político pode contribuir para os questionamentos da identidade bissexual? Afinal de contas, a intersecionalidade é hoje uma das vertentes teóricas fundamentais para estudos de gênero.

Penso que uma das principais contribuições diz respeito à problematização das categorias. Categorias, como ja discutido nos dois posts anteriores, são construções da linguagem. A realidade não existe dividida em categorias, nós que as criamos para sistematizar o que está ao nosso redor. O posicionamento crítico da intersecionalidade acerca da categorização é importante porque a bissexualidade não se enquadra muito bem nas categorias através das quais é compreendida hoje. Exemplifiquemos. Tanto o ativismo lésbico quanto o ativismo gay se definem em termos de sua orientação sexual por alguém do mesmo sexo. Pessoas bissexuais não se enquadram nessa categoria. Não é atoa que o movimento bissexual nos EUA, por exemplo, sempre foi muito próximo do movimento trans (veja aqui), visto que esta categorização funciona principalmente para lésbicas e gays. Além disso, lésbicas são mulheres, e gays são homens. Bissexuais são homens e mulheres. Este é um tema que precisa ser abordado inclusive dentro da ótica feminista: será que esta é capaz de contribuir também com as demandas dos bissexuais homens? Dentro da intersecionalidade, talvez seja possível, ao menos parcialmente, discutir estratégias comuns, visto que, ainda que bissexuais homens e mulheres sejam dois grupos sociais distintos, compartilham de certas construções e relações sociais conjuntas. A problematização categórica parece uma maneira de, ao mesmo tempo, observar similaridades e diferenças entre os grupos, o que é fundamental para a construção de um movimento bissexual ativo em trabalhar sua própria identidade. E todas as pessoas que não se enxergam dentro do binarismo? Problematizar categorias é fundamental para sair da invisibilidade.

Um outro ponto importante é o entendimento, dentro da intersecionalidade, de que a identidade em si é dividida, e que as diferenças não se encontram, necessariamente, entre identidades, mas dentro destas. Isso importa porque permite compreender que a identidade não é correspondente a uma unidade. Assim, no caso da bissexualidade, expressar a própria sexualidade de maneiras distintas em diferentes momentos não significaria não ter uma identidade, ser indeciso, ou modinha, entre outras das graciosidades ouvidas por bissexuais. Significaria, apenas, perceber que a identidade é composta de elementos diversos, e a sexualidade, enquanto parte da identidade, também se compõe de elementos diferentes entre si, não é uma estrutura fixa e imutável.

Ainda sobre categorias, é importante observar que pessoas bissexuais pertencem também a outros contextos. Obviamente, isso é verdadeiro para qualquer outro grupo que se identifique dentro do movimento LGBT. Grupos estes que necessitam de tratar politicamente de sua sexualidade, simplesmente para ser reconhecidos como iguais aos demais cidadãos. Vale, contudo, reforçar o ponto de que pessoas muito diferentes entre si compõem o movimento, exatamente como mulheres diferentes constróem diferentes feminismos. Isso é importante para evitar o silenciamento de certas categorias, já em posição oprimida dentro da sociedade, e que necessitam de um espaço seguro para se expressar.

Acredito que este seja um post que terá prosseguimento, na medida em que novas informações e reflexões surgirão para construir melhor este pensamento. Por enquanto, permanece a necessidade de construção identitária e, banalmente, do reconhecimento como ser humano.

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