Quase cinema

Sobre séries e representação

Fumo uma palha enquanto penso em algum filme para fazer uma resenha. Falar de cinema é sempre um prazer, para mim. Não sou a maior cinéfila da história, mas não consigo me lembrar de algum filme que trate de bissexualidade de maneira explícita. Nem de um que tenha visto, ou de um de que tenha ouvido falar (mas existem, e farei uma outra resenha de verdade. Só que agora preciso soltar um poquinho de indignação contra o mundo).

Me ocorre então um seriado que vejo já faz bastante tempo, The Good wife. Não é nenhum seriado cult sobre a vida secreta das mulheres bissexuais. Mas é a história de uma mulher, casada com um político, dona de casa que cuida dos filhos, que é atropelada pelo escândalo político que vê seu marido envolvido com corrupção e prostitutas. Ele é preso, e ela, Alicia, precisa voltar a trabalhar como advogada para sustentar sua família, após quase 15 anos afastada do mercado de trabalho. Esse é o começo, agora já estamos na sexta temporada. Ainda que a história de Alicia valha muito a pena, quero falar aqui da personagem Kalinda Sharma, investigadora particular do escritório no qual Alicia trabalha. Ela é bissexual e, a princípio, não a vemos em nenhum relacionamento sério, ainda que existam algumas outras personagens com quem se envolve com mais frequência. Aliás, várias das pessoas com quem Kalinda se envolve desejam um relacionamento mais sério com ela, mas ela gosta de seu espaço, e isso é fantasticamente retratado. Não tem nenhum problema em não querer um relacionamento. Apesar disso, e ainda que ela seja uma personagem incrível ao longo da série, inevitavelmente, me pergunto se isso não reforçaria o estereótipo de que bissexuais são incapazes de ter um relacionamento sério. E em nenhum momento da série Kalinda diz abertamente sou bissexual.
Essa é uma das críticas em relação a Orange is the new black, ainda que esta seja uma ótima série. Piper é bissexual, mas você ouve isso em algum momento? Essa palavra?

O que quero dizer com isso? Existem algumas representações de pessoas bissexuais que são razoáveis, no sentido de que não são caricaturas de uma pessoa que passa seu tempo na balada porque “joga pros dois times”. Mas não se afirma, com todas as letras, que elas são bissexuais. Como já disse antes, a princípio a sexualidade seria uma questão do foro íntimo, então pra que falar? Mas este é um Mundo em que uma sexualidade diferente significa exclusão e preconceito, portanto, é preciso que dela se fale. E a cultura não é neutra: a presença ou não de certos grupos nunca é casual. Assim, pode ser que estas duas personagens sejam boas representações. Mas não há muitas outras, e mesmo estas são representações não completamente válidas, visto que ninguém afirma abertamente que é bissexual. Que maravilha, 2015, o ser humano já pisou na Lua, e ainda estamos aqui, com medo de falar bissexual no mundo do entretenimento. Qual o problema disso tudo? Aumenta ainda mais a invisibilidade e a participação, tanto no movimento LGBT quanto em outros, como o feminista, para a afirmação de uma identidade bissexual. Reforça-se a ideia de que bissexuais não precisam de se afirmar como tais, porque esta não seria uma identidade. Assim, parece que bissexuais não existem.
E ainda tem gente capaz de dizer que bissexuais são pessoas que vivem com os privilégios dos hétero e a diversão dos gays.