A extinção de Dona Francisca
Apenas um conto nonsense de ficção científica marginal ou coisa parecida
Mesmo os comportamentos mais absurdamente detestáveis podem ser levados a sério. Ricardo pegou outra vez sem avisar dinheiro dos seus pais pra sair com os amigos naquelas baladas que costumam frequentar os jovens que precisam distrair as mentes do vazio existencial que lhes domina. Dona Francisca, a mãe, ao perceber que o dinheiro do aluguel havia sido subtraído, sai na rua em busca do filho, gritando furiosa enquanto o vê entrar correndo num carro seguido dos gritinhos de garotas misturados a um som desnecessariamente alto. De dentro do carro, uma das meninas tira uma foto da senhora, numa dessas câmeras automáticas que imprimem as fotos na hora. Eles partem.
Dona Francisca entra em casa novamente e passa a noite pensando em como dizer aquilo quando Seu Vitor chegasse. Já era madrugada e o marido, taxista, voltava tarde. Ela havia ligado dizendo que precisavam conversar sobre o filho novamente. Às 4h29 da manhã quando Seu Vitor avançou pela porta, ela disse:
- Olha, tudo o que eu mais queria agora era poder destruir o mundo desse moleque.
Ao terminar a frase, paralisa-se de súbito diante do destino assustador: uma imensa bola de fogo possivelmente despreocupada com o que quer que fosse isso que chamamos de “destino” caía do céu e, em segundos, desintegrava o carro dos amigos de seu filho no posto de gasolina em que bebiam depois da balada. Dona Francisca parou estupefata sem conseguir balbuciar uma só palavra, pressentindo o que havia desejado. No segundo seguinte uma chuva de imensas bolas de fogo possivelmente despreocupadas com o que quer que fosse isso que chamamos de “destino” terminou por devastar a superfície da Terra e extinguir a raça humana e tudo o que conhecemos. Inclusive Dona Francisca e seu Vitor, que mal pôde descansar do serviço.
Quinhentos anos após a vida humana ter sido dilacerada por meteoros ou pelo desejo de uma mãe furiosa com a falta de consideração de seu filho, não havia mais nada que ligasse o que havia sido a humanidade àquele monte de terra cercada por água, a não ser por algumas baratas tediosas que viravam de ponta cabeça como forma de suicídio por não ter mais gavetas empoeiradas onde comer restos de pururuca.
Ainda mais tempo depois dessa maledicência de Dona Francisca, uma equipe extraterrestre navega sobre a superfície da Terra, examinando o desconhecido território. Pousam em diferentes lugares e montam centros de pesquisa. Humanóides altos com trejeitos elegantes e cabeça de serpente caminham de um lado para o outro carregando papéis, controles e acessórios esquisitos para coçar as costas, aparentemente um problema crônico dessa civilização.
Posicionado próximo a uma rota de chegada e saída de aeronaves com amostras de terra e água estava o centro geral de pesquisa científica, absolutamente lotado de répteis humanóides que não entendiam porque a existência havia lhes dado tanta coceira nas costas. Nos continentes que restaram, muitas escavações eram realizadas em diferentes locais, em busca de algum material que pudesse dizer o que, de fato, havia neste planeta.
Em um dos continentes ainda não completamente alagados do mais azul dos planetas, havia uma ilha onde quase mil anos antes havia um país e uma cidade e um bairro famoso por seus centros de diversão noturna para jovens e adolescentes, centros estes que normalmente cheiravam a desinfetante às 10 da noite e criolina com cigarro de menta às 6h da manhã.
Neste inusitado local da face terrestre, os elegantes pesquisadores humanóides encontraram uma espécie de registro em material de celulose, algo fotográfico que provavelmente sobreviveu mesmo após a extinção das baratas que lutaram até o fim contra a fome, mas foram vencidas pelo fato de não terem mais lascas de pão endurecido pelas quais brigar.
O pesquisador chama um assistente e lhe dá ordens para convocar uma reunião com os chefes superiores, afim de esclarecer o que aquele objeto poderia dizer sobre as gerações e espécies de seres que viveram naquele planeta em tempos passados.
Estão sentados numa mesa o chefe das pesquisas de solo, representantes da comunidade estelar da galáxia de MACS0647-JD (a qual eles deram o singelo apelido de Rihanna, fato sem relação com nenhuma estrela pop deste planeta azul), meia dúzia de pesquisadores que mordem canetas ao lado de alguns dos mais brilhantes estagiários confusos e extraordinariamente felizes apenas pelo fato de estarem presentes em uma reunião de cúpula.
A imagem é projetada num telão. Vê-se ao fundo três rapazes de sorriso excêntrico e olhos avermelhados fazendo sinal de hangloose e chifrinho uns nos outros, atrás de três garotas segurando uma garrafa de Vodka e latas de energético.
Após muito burburinho, desinteligências e inquietação, houve uma separação de tarefas entre todos os presentes: o grupo de médicos permitiu-se tentar descobrir porque as cores de pele dos seres tinham tons tão diferentes; O pessoal do laboratório procurava algo relacionado às garrafas com a ajuda de um especialista em línguas mortas e uma ampliação minuciosa da imagem para descobrir cada ingrediente nas letras pequenas da garrafa e das latas. Os estagiários decididamente compulsivos por conseguir um cargo efetivo debatiam buscando explicação para os sinais de mão feitos pelos seres.
E então, meses depois da descoberta, um cientista réptil humanóide cansado após uma tarde de teorias no laboratório caminha bêbado pelas escavações com um copo grande de uma bebida muito parecida com vodka e energético até que encontra o cadáver da última barata da Terra, seca e de ponta cabeça sobre a foto parcialmente soterrada de Dona Francisca, com uma feição furiosa.
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