
Homens Negros e homens brancos no fim de um mundo cindido em dois
(Visões apocalípticas de uma masculinidade em colapso e as disputas de narrativa sobre ser homem)
dia desses meu amigo Roger Cipó postou em seu instagram um vídeo em que ele falava (e Roger fala muito bem) sobre a problemática das masculinidades a partir da nossa perspectiva enquanto homens negros. uma das frases que ele disse que agarraram no meu cérebro foi:
o branco ser padrão é um dos maiores problemas da nossa sociedade (…) pq aí hoje esses mesmos homens estão no hype dizendo “olha, a gente precisa mudar”
parecem sentenças simples retiradas de uma boa conversa de bar né? e até poderiam ser. mas pra além disso, Roger escancarou uma denúncia que precisamos ter a responsabilidade política de trazer para o seio do debate sobre as várias masculinidades.
se estamos aonde estamos é porque em algum momento da história os homens brancos reivindicaram pra si o poder sobre a construção de um mundo, a saber, o mundo ocidental.
este mundo, que segundo Frantz Fanon em "Os Condenados da Terra" é “cindido em dois” possui no binarismo sua maior complexidade, motivo das guerras, destruição e morte. parece dramático né? mas vejamos essa charge abaixo, que uso muito em provas dos meus alunos do 9o ano do E. Fundamental

a divisão do globo, para nós, uma lógica universal de análise da geografia e da geopolítica é o exemplo máximo de que o homem branco ocidental, após reivindicar o poder sobre toda a realidade, acreditou que poderia rachar o mundo em uma cruz: NORTE X SUL / OCIDENTE X ORIENTE (e uso aqui a ideia de cruz de forma proposital, me referindo ao pensamento maniqueísta do cristianismo ocidental).
ao contrário do que outras civilizações pensavam sobre as diferenças entre os povos, o pensamento europeu fundamentou o que chamamos de Ocidente a partir do alterocídio (MBEMBE, 2018). uma necessidade doentia de afirmar sua identidade no aniquilamento ou na interiorização/desumanização do outro. o outro, nessa perspectiva, é o outro racializado.
assim todos os não brancos, ou seja, os do eixo sul ocidental/oriental foram inscritos no lugar do subalterno, do colonizado ou colonizável.
mas, afinal, o que isso tem a ver com as diversas masculinidades?
• O fim o Antropoceno
há uns meses levei meus alunos à Bienal. foi a primeira vez deles e a minha segunda como professor. foi bem legal, mesmo com a pouca variedade de livros e o alto preço de tudo.
eu tava com pouca fé no que encontraria, estava procurando autores bem pontuais como o Mbembe e o Fanon. esbarrei sem querer em um livro que eu não estava procurando mas tive a feliz oportunidade de achar: “ideias pra adiar o fim do mundo”, do Ailton Krenak. livro barato e de alta qualidade, o conheci em uma aula de decolonialidade e religiosidade no PPRER, onde meu colega de turma que é Puri pertencente à aldeia marakana, citou trechos do livro.
Krenak é uma liderança indígena conceituada e um intelectual brilhante. no livro, ele fala de um tema que pra mim enquanto historiador é de extrema importância: o fim do mundo.
escatologia, um termo bonito que estudantes do cristianismo usam para se referirem ao fim da existência é um tema muito falado dentro das igrejas evangélicas. por esse motivo, eu passei a minha vida pensando que o mundo acabaria por algum problema extra humano, como se estivéssemos totalmente desligados da metafísica ou até mesmo, das forças da natureza.
é justamente isso que Krenak condena no livro.
o Ocidente por séculos, desde o fim da Idade Média, mantém uma relação de apartamento do meio ambiente. esse apartamento é reflexo direto da construção da ideia de humano, núcleo duro do humanismo.
humano é o homem europeu, dele é o poder sobre a natureza e sobre os não humanos (os racializados/desumanizados).
as consequências desse pensamento e da manutenção do mesmo foram a escravidão colonial, o mercantilismo e a objetificação de tudo o que não era europeu. isso significa que a partir disso, toda a fundação do Ocidente e os processos históricos resultantes disso estão intimamente ligados com o que entendemos por ser homem (que como já disse, é o homem branco europeu como parâmetro único do ser).
• Os “tóxicos em desconstrução”
vez ou outra as militâncias de internet caem em fetiches conceituais e escolhem autores, frases e ideias para utilizarem a torto e a direita. “resistência”, “representatividade”, “sororidade” e “empoderamento” são algumas das palavras pinçadas e usadas como mantras por alguns grupos militantes, sobretudo na internet. a bola da vez é a ideia da toxicidade nos relacionamentos. a ideia do “tóxico” começou a ser aplicada em tudo e com isso, naturalmente veio o esvaziamento dessa ideia e do que ela propunha inicialmente.
a chamada masculinidade tóxica põe em cheque todo o construto socio afetivo relacional dos homens com o mundo. no entanto, é uma perspectiva incolor do ser homem. entenda-se por incolor, branco.
como Roger muito bem colocou, hoje os caras que representam e através das suas microações movimentam uma máquina de destruição que fundamentou o Ocidente em genocídio, estupro e as mais diversas violências voltam um passo atrás. voltam um passo atrás dizendo “olha, nós erramos e queremos mudar". e a partir disso, tentam por eles mesmos, sem uma reparação histórica responsável e crítica, reconstruir um mundo com novos homens. o grande problema, é que o mundo reconstruído com novos homens já foi feito na História da Humanidade. esses novos homens, eram intelectuais, entusiastas da arte, sensíveis à literatura, poesia e música, como vários dos homens desconstruídos dessa masculinidade tóxica imposta à eles. um desses nomes de uma velha geração de homens desconstruídos foi o Kant:
(…) Cite um único exemplo em que um Negro tenha mostrado talentos, e (...) entre centenas de milhares de negros que foram transportados a outros lugares de seus países, ainda que muitos deles tenham sido libertados, ainda nenhum alguma vez foi encontrado que demonstrasse qualquer coisa notável na arte ou ciência ou qualquer outra qualidade digna de elogio.
não estranhamente isso poderia ser ouvido saindo da boca de um branco de esquerda que dança ciranda, usa saia, coque e diz que apoia o feminismo com todas as forças. esse homem, julga homens negros por algumas atitudes que só homens negros entendem como a proteção do seu povo como marcador da virilidade. não há nessa atitude a mesma conotação da proteção que o homem branco oferece ao seu “povo".
perceba, homens negros são quase sempre educados por mulheres negras (mães, madrinhas, tias, avós).. essas mulheres ensinam à nós o sentido de povo, o sentido que a comunidade tem. essas mulheres também personificam o extremo oposto da pirâmide social, intercalando os lugares com o homem negro de acordo com o interesse do poder branco hegemônico. por esse motivo, existe um tipo de masculinidade que é tóxica para brancos e brancas mas que dado o contexto colonial de violência, abuso e abandono é extremamente importante para a preservação da comunidade negra.
homens brancos estão no desespero de perder o mundo que construíram/destruíram. ao vislumbrarem todos os reflexos de um mundo pós guerras, pós colonial e pós capitalista (sim, pois estamos vivendo o colapso de um sistema que está caducando até para os capitalistas), os homens brancos resolvem se reinventar, na tentativa de se manterem no topo da “cadeia alimentar" sem parecerem os carniceiros de sempre (será por isso q vários deles são veganos?? rsrsrsrs).
em algum artigo, li que o homem branco está em declínio junto com o Ocidente, com o Cristianismo Ocidental e com as instituições formadas pelo Estado Nacional. em breve, não irá sobrar absolutamente nada e esse é o maior dos medos do homem branco: que ao final de tudo ele não tenha mais a quem dominar, que seja apenas mais um episódio da Europa no Séc XIV, colapsada em si mesma, com peste, guerra, fome e canibalismo de europeus sobre europeus. como Cesaire disse na Crítica ao Colonialismo, o projeto europeu nasceu de um apetite. e o que é o apetite se não a engorda de uns em detrimento da fome de outros? a grande questão é que agora não haverão os outros. os europeus temem ser os outros deles mesmos e por isso, criam um “novo" homem. um homem que agora, redimido de seus pecados, apontará novos horizontes para serem desvendados e novas Américas a serem invadidas de acordo com seu novo modo de ser homem.
é urgente que a comunidade negra se una para discutir as novas masculinidades e a formação dos homens negros ante um novo eixo civilizatório pensando o norte do globo e o Oriente.
caso contrário amigas e amigos, a branquidade vai se reorganizar debaixo de um patriarcado 2.0, com novos colonialismos, novas violências e novos sistemas de poder ligados ao falo e ao homem branco dominador.
Referências:
Estas citações foram extraídas do texto “Kant, Race and Reason”,
Estas citações foram extraídas do texto “Kant, Race and Reason”, de Matthew R. Hachee, da página http://www.msu.edu/~hacheema/kant2.htm.
