Inovar é uma M*
Teve esse papo que levei para provocar durante a minha palestra no Black Sheep Festival, e que entre outras coisas, pontuava através das minhas próprias experiências profissionais, como a diferença entre "precisar" e "querer" inovar é o que no final das contas torna (quase sempre) uma organização refratária as inovações de praticamente quaisquer naturezas. Sendo, aparentemente, muito mais que uma questão dialética.
Ninguém quer perder controle ou autonomia sobre as decisões decorrentes do que até então era o seu processo de trabalho, e num mundo de excessos e incertezas, as pessoas apenas preferem saber o que esperar e chegar no final da semana ainda empregadas.
As organizações foram treinadas para resistir as mudanças (porque as pessoas também o foram)… e pra esses casos vale lembrar que, numa época em que os negócios estão cada vez mais orientados a inovação, desenvolver projetos/processos/produtos/serviços disruptivos é muito mais sobre entender a perspectiva da empresa que tendências de mercado.
É um processo de empatia.
É um processo de aculturamento.
E superado todo o hype do assunto, é uma M* para implementar.
No livro Tapping Innovation, do Greg Satell, tem um (na verdade vários) insight sobre o porque algumas estratégias de inovação falham quando aplicadas ao cotidiano das empresas: "Porque no final das contas, inovar é sobre resolver problemas, e existem tantos tipos de problemas diferentes quanto maneiras de resolve-los…"
Com isso em mente, foi desenvolvida uma matriz para estratégias de inovação baseada em apenas duas perguntas:
. Quão bem você conhece o problema?
. Quão bem você percebe os skills necessários para resolve-lo?
Inovação Sustentável / para organizações que reconhecem problemas e prováveis soluções de maneira clara: A maioria das inovações acontece aqui, pois no geral as empresas entendem (ou acreditam entender) seus problemas e quais os conhecimentos precisam ser somados para resolve-los.
Para esse tipo de processo, estratégias mais convencionais como roadmaps e design thinking acabam quase sempre resolvendo o problema.
Enfim, tretinha.
Inovação Exploratória / para organizações que reconhecem problemas mas não possuem processos ou conhecimento interno para buscar soluções: Em 1962, Thomas Kuhn definiu que um dos principais paradigmas sobre o avanço científico seria baseado no que sabemos "naquele momento", e esse momentum seria o principal motivo pelo qual alguns processos da ciência acabam travados. De maneira geral, o filósofo/cientista/escritor defendia um processo de open innovation, no qual o domínio de conhecimentos adjacentes podem resolver facilmente o problema.
Tapping Innovation começa com uma história que quase sessenta anos depois, exemplifica bem o paradigma que Thomas Kuhn explicou…
"One of the best innovation stories I’ve ever heard came to me from a senior executive at a leading tech firm. Apparently, his company had won a million-dollar contract to design a sensor that could detect pollutants at very small concentrations underwater. It was an unusually complex problem, so the firm set up a team of crack microchip designers, and they started putting their heads together.
About 45 minutes into their first working session, the marine biologist assigned to their team walked in with a bag of clams and set them on the table. Seeing the confused looks of the chip designers, he explained that clams can detect pollutants at just a few parts per million, and when that happens, they open their shells.
As it turned out, they didn’t really need a fancy chip to detect pollutants — just a simple one that could alert the system to clams opening their shells. “They saved $999,000 and ate the clams for dinner,” the executive told me."
Inovação Disruptiva / para organizações que estão fazendo tudo certo, mas o negócio não performa: Tem esse outro livro, chamado Innovator’s Dilemma, um estudo sobre os porquês de mesmo escutando seus clientes, aplicando boas práticas de trabalho e investindo em projetos de melhoria contínua, algumas organizações se encontram numa situação frágil ou num caminho letal para o seu negócio.
Métodos Lean como os usados em algumas startups podem ser eficazes para entender os possíveis destinos da empresa, e pra isso, já temos ferramentas essenciais como business model canvas e value proposition canvas para criar cenários e desenvolver contextos nos quais a organização poderá performar de maneira mais eficaz.
Pesquisas Básicas / para organizações que não reconhecem o problema nem as possíveis soluções: Via de regra, a inovação nas organizações começa com a "descoberta de alguns fenômenos", e se considerar a quantidade e variedade de informação acessíveis, efetuar grandes pesquisas sobre praticamente quaisquer assuntos tornou-se tão factível para pequenas e médias empresas como o tem sido históricamente para as grandes, colocando-as em situações parecidas de entendimento, entrega e até competição. É aqui que pequenas e novas organizações revolucionam mercados globais inteiros.
É como se quem estivesse mais perdido nesse jogo todo, fosse ainda assim, o agente com maior probabilidade de inovar.
Perdido? parece que estamos todos.
E parece que isso é bom.
