Mudança
Eu entrei sozinho na rua. Até a luz cansada dos postes parecia suar seus fótons a contragosto no esforço de tocar aquele asfalto imundo. A rua era mais fria que o resto de suas capilares irmãs. Não estava disposta a aquecer os passantes, antes roubava-lhes insidiosamente o pulsar morno das veias. Eu tremi um pouco quando cruzei os umbrais de neon formados pelos letreiros de um motel honesto e um bar. Duas esquinas de consumo cuja existência emergia como a mais natural das contingências da noite. Mais do que passar, a minha intenção era passar pela rua. Saíra de casa convicto da necessidade de ouvir quando os sons da cidade de súbito se convertiam nos sons da rua, pois essa metamorfose, julgava, testemunhar essa metamorfose me ajudaria a escrever sobre o momento em que eu mesmo havia mudado. Minha mudança não era fruto dos tectonismos orgânicos, típicos no animal. Havia sobrevindo num plano que me era alheio demais e de cuja ciência eu me apercebia puramente pelos colaterais no trato com os outros. Um outro específico. Cumpria-me dominá-la na ponta do lápis, à moda dos matemáticos que conquistam seus arcos e ângulos e teoremas valendo-se de uma própria pictografia lapidada. Talvez eu soubesse que mentiria, mas era esperto demais para me deixar saber. Eu ouvi o som mudar ao mesmo tempo que a rua me concedeu a consciência de que minha presença havia sido aprovada sobre suas beiras de calçada . Não era uma aprovação livre, gratuita. Era gelada. Eu poderia voltar no rastro ainda quente de minha entrada, mas sabia que perderia permanentemente o aval da rua. Comandei passos toscos a um corpo que se rebelava ante a frialdade hostil. O vento abafado que me oprimia na cidade, pouco antes, agora deixava conjurar uma ausência cujo efeito principal era afirmar definitivamente a rua. Eu estava na rua. Frontões de casas seladas e construções deterioradas monitoravam minha passagem, o caminhar desengonçado que era agora também maculado pela pressa de um arrependimento humilhante. Seria um foco de luz amarelada o que me desviava a atenção para as janelas mais altas? E se fosse, seria aquela uma forma humana que eu via fluindo contra a amarelidão doentia? Não poderia ser. A forma humana não teria os olhos faiscantes de um animal. Mas os braços e pernas, e os movimentos familiares… Eu suava agora um medo primitivo. Uns poucos momentos a mais do trotar que me impelia e a rua ficaria para trás com sua gelidez deliberada e seus olhos de janelas ávidas, com seu silêncio sugestivo e sua aprovação que suscitava uma parceria antinatural, uma camaradagem profana e mais antiga do que a própria cidade. As esquinas que me aliviavam com a promessa do fim da rua já se punham ao alcance de poucos passos e uma onda de euforia ia aos poucos me conduzindo pelas alamedas do pânico. Foi então que notei a porta aberta. A casa escura, sem tinta, a fenda retangular que vomitava sua penumbra de recessos inexcrutáveis. Ali dentro, estática, uma forma parecia me encarar. A rua havia descoberto a minha dúvida. Ela gostara. Ela queria que eu ficasse. Parei. Eu fiquei paralisado. Fiquei porque a forma no umbral me mostrava um futuro possível, e os futuros possíveis eram-me sempre tragicamente irresistíveis. Eu caminhei em direção à forma. Ao futuro que tanto me fascinou. A porta bateu sem qualquer ruido. Agora eu estou aqui. Agora eu ajudo a rua a ver e a aprovar. Eu a auxilio no entendimento das dúvidas dos que percorrem seu asfalto imundo. Eu me esgueiro pelos corredores sem tinta, amarelos de luz. Agora eu também sou a rua.