Nossos

Existe qualquer coisa de estranho na nossa relação.

É sempre um gesto econômico que anuncia o nosso encontro. Na rua. Entre salas. No corredor. Vendo os outros, procurando alguém. Com sorte, uma pergunta improvisada, talvez, com uma resposta cristalizada no rival do improviso que sempre salva.

É sempre qualquer coisa de antagônica.

Como se você nunca pudesse vir aqui e me dar um cheirinho. Antes não quisesse, daria-se mais manso o consolo. Mas não poder…ah, isso grita. Eu não tenho antisséptico para isso. Também não posso.

É nunca qualquer coisa de despreocupada. Há atrito demais entre os toques. Uma reserva da pele que implora pelo santuário da distância. Há sempre uma palavra que falha e morre como projeto de som, agoniza entre a glote e a traqueia, escorrega pelo esôfago, cai num oceano de ácido e se transforma em visão noturna, em paisagem adormecida, em largas horas de conversa boa e carinho que só existiam onde o EX se traveste na maquiagem do IN, fantasia.

É sempre mediada por qualquer coisa de intrusão, os meus, os seus. Não há a diplomacia do “nossos”. O campo da diplomacia é onde mais nos tocamos, aquele toque que não vai mais que um balançar de cabeça admirando a postura bem exposta.

Parece-me sempre o lugar como qualquer coisa de qualquer jeito, de importância rasa. Não se despede, não dá boas vindas. Não nota, nem olha. Antes fosse aquela qualidade de descaso passivo, eu lidaria melhor. Mas o diabo é que parece qualquer coisa de não ser.