72h de São Paulo

Cheguei aqui no domingo. Mala nas mãos, cabeça nas nuvens, olhos assustados com tudo o que acontecia ao redor. Quem, como eu, nasceu e cresceu em uma cidade pequena, jamais desembarca em um lugar como São Paulo sem duvidar do que encontra: as pessoas vivem assim mesmo, correndo o tempo todo? É domingo, seis da tarde, por que tem tanto carro na rua? De repente, você se vê inserido numa realidade até então desconhecida, numa espécie de planeta alienígena.

“Decifra-me ou devoro-te”. Como a esfinge de Édipo, a atmosfera paulistana te desafia. As pessoas não olham para os lados. Apenas seguem em frente, por todas as direções, com passos firmes e rápidos. Instintivamente, você se pega olhando para os pés de cada uma delas, e fica assustado ao não enxergar pequenas rodas em seus sapatos.

Depois de alguns lances de escada rolante (onde, pelo amor do que lhe é sagrado, você não pode parar no lado esquerdo), chega o metrô. Um dos ícones de São Paulo, a imagem que mais assombra o recém-chegado. Pessoas se amontoam dentro do trem, uma voz impassível repete instruções e nomes de lugares completamente desconhecidos. A essa altura, o pânico atinge seu pico, e você sente vontade de desistir. Não vai conseguir lidar com tudo aquilo. Ou vai? É, talvez sim, você tenta se convencer. Se todos ao seu redor conseguem, é possível, então. Por que não tentar?

Por que tentar? Por que se submeter? Por que querer cair nessa panela de pressão? Você não sabe as respostas, e justamente por isso decide continuar. Abre um sorriso. É o momento em que o perigo te seduz, em que suas inseguranças se transformam nas mais fortes motivações.

As ruas, o caos. As casas, o endereço dos sonhos e angústias. Criolo não sai da cabeça. Não existe amor em SP. Existe? É o que mais quer descobrir. Mas, para isso, precisa sobreviver apenas mais um dia. Pegar apenas mais um metrô, um ônibus lotado, uma fila quilométrica para alguma coisa improvável.

Seja bem-vindo a São Paulo. O lugar em que nada faz mais sentido do que a própria ausência do mesmo.

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