Mudando-se para Amsterdam

Como está sendo meu processo de migração para os Países Baixos


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Escrevo este texto baseado no do Vinícius Baggio, que escreveu a experiência dele se mudando para San Francisco. Algumas pessoas me perguntaram, e ao mesmo tempo existem algumas informações que teria gostado de saber antes de vir.

Assim como o Baggio, este texto é meramente informativo, baseado na minha experiência pessoal. Leis mudam, não sou carreer advisor, então pesquise e tome suas decisões.

O que pretendo cobrir:

  1. Como vim parar aqui
  2. Visto
  3. Mudança
  4. Contrato de trabalho e benefícios
  5. Vida em Amsterdam

Como vim parar aqui

Até outubro de 2013 eu era um feliz funcionário da Dell Computadores do Brasil. E quando digo isso, enfatizo o feliz. Tenho excelentes amigos lá, se há um lugar que pode te ensinar a trabalhar numa empresa com mais de 100.000 funcionários, é a Dell.

Mas um belo dia recebi uma mensagem pelo linkedin, de um head hunter Holandês. Perguntou se eu estaria interessado numa oportunidade, respondi que estava bem, então ele me disse que passando a primeira etapa eu poderia vir a Amsterdam para uma entrevista face-to-face. Diga isso para quem gosta de viajar e é quase certo que ele vai topar pelo menos o processo de seleção.

Depois de algumas conversas pelo Skype e uma entrevista por telefone, me chamaram para a entrevista pessoal na Booking.com. Falei com a minha gerente, esclarecendo que realmente não pensava em aceitar, mas não poderia recusar a proposta de conhecer Amsterdam, e me mudei para uma casa que havia passado 2 meses reformando dia 21 de setembro. No dia 22 embarquei para Holanda para a entrevista, 2 semanas depois do primeiro contato por Skype.

Primeiras impressões

Os Holandeses são negociadores pragmáticos. Isso se reflete na arquitetura, como funcionam o transporte e as instituições, e na hora de fechar proposta de trabalho. Como finalizei a entrevista depois das 18h de uma sexta-feira, voltei para o hotel (e para o Brasil na madrugada seguinte) e no próximo dia útil me ligaram. Até aqui o processo havia durado 3 semanas. Pedi um tempo para falar com a Dell, e 1 semana depois aceitei a proposta. 4 semanas no total. Rápido…

Visto

Após aceitar a oferta, a empresa entra com o processo de MVV, que é o visto de residência temporária. Para isso precisei obter cópias de certidões de nascimento e casamento recentes, ir até o ministério das relações exteriores — o que foi surpreendentemente rápido e sem custo — para legalizar (pegar um carimbo) e levar os documentos para o Consulado em Porto Alegre para apostilar (outro carimbo). Recomendo: ligue para o Consulado ou Embaixada da Holanda mais próximo e peça orientações. Poupa tempo.

Depois dos documentos legalizados e apostilados foi necessário enviar scans deles para a empresa, que entrou com o pedido de visto. O IND (Imigração Holandesa) pede em torno de 2 semanas para analisar o pedido, e informa o Consulado que foi aprovado. Aí basta levar os passaportes e outros documentos para o Consulado/Embaixada para que o selo do MVV seja colocado no passaporte. Mais 2 semanas. A empresa me pediu para traduzir as certidões antes de enviar os scans, mas tenho a impressão que poderia ter sido feito depois, pois será solicitado somente ao chegar aqui.

Chegando aqui, é necessário agendar uma visita no expatcenter para receber, depois de 2-3 semanas, o cartão de residente. Com ele, não é mais necessário andar com o passaporte por aí. Nesta visita eles também emitem o BSN, que é como se fosse o CPF no Brasil, que deve ser mantido secreto como o Social Security nos US. O cartão tem validade de 5 anos.

Mudança

A mudança é um capítulo à parte. A minha demorou alguns meses para ser concluída, pois enviei algumas coisas, como livros, por navio. O que recomendo para quem está chegando aqui é: se for solteiro, alugar um quarto numa república, se vier com família, um apartamento mobiliado. Além de ser mais prático num primeiro momento, é caro contratar gente para fazer mudança, quando se mudar novamente. Caso prefira um apartamento não mobiliado, vi que em locadoras de carro eles alugam vans e apetrechos, então as pessoas é que fazem a próprias mudanças. E tem a IKEA, para quem gosta de comprar e montar móveis, ou está com saudade de brincar com LEGO.

Contrato de trabalho e benefícios

O meu contrato tem 5 páginas, as quais num primeiro momento sabia praticamente decoradas. Ali estão os benefícios, obrigações, condições, etc. E o contrato também será útil para abrir a conta no banco, alugar imóvel, às vezes até comprar telefone. Leia atentamente e entenda tudo o que há nele.

As maiores diferenças dos benefícios em relação ao Brasil são: plano de saúde, sick days e férias.

Plano de saúde aqui é obrigatório e contratado à parte. Não sei ainda de empresa que pague plano para o funcionário, como tinha no Brasil. Tens de escolher um pacote e pagar retroativo à data de entrada no país. Depois é preciso escolher um médico generalista perto de casa, que é a triagem para qualquer situação não-emergencial. Em caso de emergência, é discar 112 e esperar a ambulância.

Sick days podem ser utilizados a qualquer momento, mas eles são descontados (-20% do pagamento do dia) e impactam o salário anual, utilizado para desconto de imposto. Dependendo da empresa, se o funcionário não tiver sick days em um ano pode ganhar alguns dias a mais de férias…

A quantidade de dias de férias pode ser negociada, mas o padrão da minha empresa é 26 dias… úteis! Eles podem ser tirados em quaisquer intervalos (1, 2, 20 dias), sem período mínimo de espera, ou seja, não precisa trabalhar 1 ano para tirar férias.

Vida em Amsterdam

Antes de vir um camarada foi em casa, e quando disse que vinha para cá, aconteceu um diálogo memorável…

— Amsterdam! A melhor erva do mundo!
— É… mas eu não fumo…
— Ah, tudo bem, tem a melhor cerveja do mundo!
— É… mas eu não bebo…
— Mas vais fazer o que em Amsterdam, então???

Pois é… talvez para a maioria dos turistas Amsterdam é uma festa, mas para mim, é uma cidade tranquila e onde cada um cuida da sua vida. Vivo numa ilha afastada do centro, onde há a maior concentração de crianças da Europa. Aqui não vi nenhuma coffee shop, nem pubs. Tem a praia de Blijburg, que abriu este final de semana e parece que é movimentada no verão.

Blijburg Beach, 5 minutos de casa (caminhando)

Eu acho a vida muito tranquila. Coisas básicas como transporte público funcionam, as pessoas são diretas e práticas, é possível planejar o que se quer fazer e cada um limpa o seu banheiro. Literalmente. É uma vida simples, pragmática e cheia de possibilidades. Pode-se pegar um trem e estar em outro país em 1h para passear, agora na primavera já está amanhecendo 7am e anoitecendo quase 9pm.

O que um Holandês que viveu no Brasil me disse sobre as pessoas é que para fazer amigos aqui, basta fazer algo que gosta (um esporte, algo fora do trabalho) compartilhando interesses, e quem estiver lá estará mais disposto a fazer amizade. Os brasileiros do trabalho já parecem amigos de longa data, mesmo sendo praticamente um representante de cada Estado. Eu ainda não senti uma nostalgia braba, tipo sair correndo para comprar guaraná Antarctica. Mas já vi gente fazendo.

A maior vantagem que acho daqui é que as pessoas são civilizadas, cada um cuida da sua vida, e tem um ditado local que estou apreciando ultimamente:

‘Doe maar gewoon dan doe je al gek genoeg’
just act normal, that’s crazy enough

Para quem quer agito, tem. Para quem quer sossego, também. É fácil se deslocar, pois o transporte funciona, não se gasta muito mais que no Brasil em supermercado, a internet é excelente e yes, nós temos netflix. O idioma é meio complicado, mas todo mundo fala inglês bem em Amsterdam. Segundo um amigo, para falar holandês basta "falar inglês, pensando que está falando alemão com sotaque francês". É por aí mesmo.

Uma coisa que eu gostaria de saber antes de me mudar? Que é preciso fazer check-in e check-out ao entrar e sair de tram, metrô e ônibus.

Recomendo a mudança? Definitivamente. Ou melhor, absoluut


Esse texto é baseado na minha experiência pessoal, e espero que tenha esclarecido dúvidas ou satisfeito sua curiosidade. Fique a vontade para mandar perguntas e convido-o a enviar sua própria experiência na coleção “O Recomeço”.