África ou Caribe?

O passado e a herança

A diáspora africana iniciou-se na idade moderna e teve fim em meados do século XVIII, espalhou-se pelo ocidente e deixou marcas insanáveis na história que perduram até hoje. Devido a miscelânea entre culturas, muitos valores originais da cultura africana acabaram se perdendo ou se transformando radicalmente por conta da influência “ocidental” na época. Apesar disso, é inestimável a herança cultural deixada após o tráfico de escravos através do Atlântico. É também inegável a influência que esse tesouro cultural exerceu no Brasil. A mistura de raças, cores, sabores, ritmos musicais e religiões.

Devido a mescla de povos e imposição de culturas, as características da indumentária em países americanos, como o Brasil, sofreu enorme influência da Europa, e por aspectos socioeconômicos, acabou se camuflando ainda mais os traços da cultura africana em relação à moda. Hoje, graças ao despertar da comunidade negra, sobretudo as novas gerações, se destaca a autoafirmação e a valorização da cultura através da moda, tendo como alicerce diversas subculturas, que tem como objetivo intencional ou não, resgatar valores ancestrais e lutar contra mazelas tão antigas, como o racismo.

Os Afro-caribenhos

O navios negreiros no período de tráfico também ancoraram nas caraívas. Assim como outros territórios ao longo do continente americano, na região conhecida como “Índias Ocidentais”, os afro-caribenhos também lutaram contra a escravidão, conquistando muitas vezes a abolição. Igualmente enriquecida com a cultura africana passada por gerações, esse pedaço do continente americano composto por ilhas, conta com uma história de resistência e valorização de uma cultura única. De Toussaint Louverture a Bob Marley, muitos nomes se destacam entre os afro-descendentes caribenhos. Além de suas paradisíacas praias de águas azuis, a relação dos países caribenhos com a música é de fundamental importância para a valorização da cultura negra remanescente. Um ponto que se destaca dentro nos ritmos caribenhos, é a versatilidade e personalidade dos músicos em relação à moda.

Moda Afro-caribenha masculina

A “vestimenta caribenha” em sua maioria, é ressaltada pelo uso de roupas leves e cores quentes, além de acessórios clássicos e penteados únicos, como os dreadlocks. Entre os países do Caribe com maior destaque para a moda, está a Cuba e Jamaica, país onde foi rodado o filme Rockers It’s Dangerous, um clássico jamaicano da década de 70 e que foi escolhido como tema da primeira coleção de roupas da Black & Company. Algumas considerações sobre o filme e o estilo jamaicano da época:

“Rockers — It’s Dangerous é considerado uma “obra prima cinematográfica do reggae”, um clássico prestes a completar 40 anos. A expressão “Rockers” designou um estilo de reggae mais agressivo. O longa é composto por grandes estrelas desse ritmo musical em bastante ascensão na época. Utilizavam suas canções para falar da desigualdade social e racial, além da religião rastafári. O “rockers lifestyle” foi marcado pela música reggae, religião e sobretudo no estilo de se vestir dos rastas.

Diferente da fase ska e rockesteady, marcadas pelo uso de ternos, os rockers aderiram um estilo mais casual e por “instinto”. As roupas eram um meio natural de distinguir-se nos bairros lotados da capital jamaicana, pois havia um número limitado de maneiras nesse contexto. A alfaiataria e a costura era uma habilidade amplamente aceita por homens na jamaica, muitas pessoas ganhavam a vida produzindo roupas e afins.”

África, Jamaica, São Luís

A história por trás da chegada do reggae na ilha de São Luís, conta que a música chegou através das ondas sonoras baixas captadas diretamente do Caribe na década de 70. Sob influência da música jamaicana, que carrega consigo valores intrínsecos da cultura negra, a cidade acabou criando uma forte identificação com o reggae, e consequentemente com a cultura jamaicana. Outra característica que é possível identificar, é a grande semelhança entre estilo adotado pelos homens em São Luís, com os homens jamaicanos e cubanos, fato que se deve também ao clima tropical, muito semelhante com o das ilhas das Atilhas. Essa semelhança é percebida sobretudo quando observa-se o streetstyle dos homens mais velhos em um passeio no centro histórico de São Luís. Muitas vezes, o lifestyle é adotado mais por necessidade ou costume, do que meramente por estética.

Apesar das disparidades geográficas, a África está presente em nossa cultura, seja no Maranhão ou na Jamaica. É compreensível que nós, nascidos do lado de cá do continente, não tenhamos o prazer de usar batas africanas típicas de boa parte do continente africano e dos nossos ancestrais. Mas entre valores perdidos ou modificados, hoje a cultura negra consegue se destacar através de formas muito particulares, estéticas ou musicais, que podem variar entre regiões. Pode-se dizer, que em cada canto onde existem raízes dessa cultura, é de vital importância reconhecer e reforçar ainda mais o seu valor. O Caribe também é África, São Luís também é Caribe, e assim por diante.

Texto: Duda Ogunkoya

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