Músico e educador à bessa

“Nós, maestros e professores, não ficamos somente na música, damos conselhos, broncas, cobramos boas notas”, diz o regente

“Ser músico erudito em Goiás não é nada fácil, aqui a tradição é mais sertanejo e acaba sendo uma concorrência desleal”, comenta Alrisson.

Um ateliê de produção é o local escolhido para a conversa, trata-se de uma confecção onde o maestro Alrisson Rodrigo de Bessa fabrica capas para instrumentos musicais. Maestro, musicista, empresário, regente e professor de música, ele revela que não vê a música como um trabalho propriamente dito e diz que consegue conciliar sua paixão, com sua atividade empresarial, que também tem relação com música. Logo notamos que se trata de alguém bastante cultural, musical à bessa, trocadilho o qual ele mesmo utiliza com frequência.

Antes de começar a conversa ele brinca: “Já me desculpe pelo português, na verdade eu até me dou bem com ele, mas o que me “derroba” é a matemática. ” Rimos e concordamos que ser da humanas, não é nada fácil. Na entrada, um escritório, onde ele administra a empresa e recebe seus clientes. Nos sentamos à mesa, um de frente ao outro, o que nos divide são milhares de papéis e um computador. A decoração é típica de um músico, com várias referências a bandas e artistas. Chamam atenção algumas bandeiras presas a hastes, entre elas uma do Brasil e outra dos Estados Unidos.

Nascido em 1977, 38 anos, nato e criado na capital goiana. Viajado, experiente, vivido, são mais alguns adjetivos para o maestro. Ex-aluno de Música da Universidade Federal de Goiás, possui cursos em mais de oito escolas diferentes. Visitou quase todos os estados brasileiros, levando, praticando, aprendendo ou ensinando a arte da música. Esteve em países como Chile ao lado da banda marcial em que leciona e foi jurado do Primeiro Campeonato de Bandas e Fanfarras (AGBF) de 2015.

Alrisson revela que quando começou a gostar de música tinha interesse em aprender piano. A música surgiu por acaso em sua vida e, na verdade, ela serviu como uma válvula de escape da insistente rotina. “Nunca gostei de esporte”. Risos tomam conta da conversa, a descontração necessária para deixá-lo ainda mais a vontade. “Um dia os professores da banda do colégio que eu estudava entraram na sala de aula convidando os alunos para participar, quando falaram que quem participasse da banda era dispensado da educação física, foi nesse instante que nasceu meu interesse pela música. ” Sem nenhum talento inicial e com muita dificuldade em aprender, desistiu varias vezes da banda. “Já ouvi professores por diversas vezes dizendo que eu era burro”. Mas com insistência foi vencendo as dificuldades e passou a se dedicar ainda mais. Aprendeu que a música não é só talento, mas também dedicação. “Comecei no trompete, o instrumento que toco ate hoje, mas para dar aula na banda do colégio não existe preferência, temos que dar aula de todos os instrumentos, de sopro a percussão”, acrescenta o maestro.

Entretanto vários musicistas em Goiás possuem uma segunda profissão para conseguirem sobreviver devido ao pouco investimento público e privado nesses artistas. “Não é nada fácil conciliar música, banda marcial e empresa, é muito amor envolvido” e ele continua: “Já virei noites fazendo planejamentos para lecionar para a banda no dia seguinte e voltar correndo para a empresa para atender os clientes. ” Tempo e compromissos, ou melhor, falta de tempo e vários compromissos são a realidade da rotina de Bessa. “Não deixar a peteca cair… Tenho que ter muita força de vontade, amor pelo que faço e muita dedicação. ”

“Tentei muitas vezes trabalhar somente com a música, mas o mercado era muito fechado, tinha que trabalhar em outra área para me manter”, diz o músico que suspira e após uma longa pausa acrescenta: “Mas a música não me deixou, em meu sangue corre a música, tudo que faço esta dentro dela”.

“Ser músico erudito em Goiás não é nada fácil, aqui a tradição é mais sertanejo e acaba sendo uma concorrência desleal”, comenta o músico. Uma gargalhada longa e alta surge em meio a conversa, o que mostra que o professor está seguro e que esse assunto lhe faz bem.

Seus olhos brilham ao falar do trabalho com a banda marcial, a representação de um professor visionário com expectativas de mudar o mundo com seu trabalho é marcante. “Quando fui convidado a dar aula de música em uma fanfarra, já estava meio contrariado musicalmente falando. ” Ele conta que trabalho desenvolvido não pode ser muito teórico e exige mais a prática, sendo um trabalho a longo prazo, no qual já está há 14 anos. Além da musicalidade, o professor cobra um bom resultado do aluno e ensina desde a prática instrumental, disciplina, postura, ritmo, marcha, até o trabalho em equipe.

Ao cumprir uma missão cultural e musical, o questiono se ele tem a devida noção do que seu trabalho acrescenta na vida dessas crianças. “Muitas vezes, o aluno entra na banda, procurando um conserto em sua vida, ou ele é muito tímido e a banda faz ele se soltar mais. Conseguimos ver esta mudança em poucos meses, eles ficam mais alegres, atenciosos e mais calmos. ” O professor ria e concordamos que é poder da música, e ele ainda revela que já teve casos em que tirou alunos do tráfico, das drogas, do crime e da prostituição. Segundo ele, isto é o mais gratificante. “O papel de professor de banda não é só ensinar a música e, sim, formar caráter, isto é tão gratificante, que dinheiro nenhuma paga. Já ouvi alunos me relatarem que se não fosse a banda eles não sabiam o que seria de suas vidas. Onde a cultura entra a criminalidade deixa de fazer parte”.

Indago sobre os desafios que ele enfrenta ao lecionar para a periferia e a resposta surpreende. “Já tive muito caso de pais de alunos que eram alcoólatras, drogados, casos espancamento até mesmo abuso sexual…” Ele suspira e após uma pausa relata que muitos alunos preferem a banda a própria casa. ” Ele prossegue: “Nós maestros e professores, não ficamos somente na música, damos conselhos, broncas, cobramos boas notas”, conclui. “Fazemos o papel de pai, mãe, conselheiro”.

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