Ultra Fiord: a Ultratrail Mental

Era hora de estar na 3° edição da Ultra Fiord, prova que participaria pela terceira vez. Seria o match point de uma história trágica e feliz. Na primeira edição sofri um acidente no 28k e quase fiquei cego, culpa minha, que estava com o óculos de proteção na mochila de hidratação e tive abortado aí a experiência de tentar os 100k, em um ano onde a chuva e os charcos (mais que qualquer outro ano) imperaram.

No segundo ano foi hora de lidar com os fantasmas da quase cegueira e com humildade tentar desta vez correr só a distância dos 50k. A novidade naquele dia é que não chovia, mas havia muito vento e tempo fechado, no meu então, novo amigo chamado Chacabuco (o ponto alto em todos os sentidos da prova).

No terceiro ano repeti a dose na distância mas perfazendo à prova com o tempo de 2h30 mais alto que no ano anterior (que já estava alto) pelos bosques do Parque Nacional Bernado O´Higgins, a convite do Governo Regional da Província de Última Esperanza em conjunto com a Nigsa, levou esse Blog do Harry, a vivenciar como diz o slogan da prova: "O Mágico Mundos dos Fiords".

Tempo em si no trail não diz muito sobre quem voce é, se você só tem a intenção de cruzar a linha de chegada, sã e salvo, e livre de acidentes e curtindo, obviamente, o que era meu caso.

O trabalho de fazer vários filmetes durante o percurso deve ter me consumido uma hora no mínimo. Mas as duas perdidas de trilha, ahhh, essas foram aterrorizantes. Eu nunca me distancio da última marcação por mais de 250m (porque se você perder essa última referência, aí, pode começar a se considerar "perdido-oficial", e eu não desejo isso a ninguém nas noites entre El Salto (21k) e Los Sacos (42k).

Às 6h30 já estava dentro do ônibus da Nigsa que levaria parte dos atletas de 50Km de Puerto Natales ao Hotel Rio Serrano, ponto da largada dos 50Km nas categorias Solo e Duo. Chegamos e menos de 15 minutos depois o idealizador da Ultra Fiord, o Stjepan Pavicic, passa pelo saguão do hotel anunciando que faltava um minuto para a largada. Foi o tempo de se posicionar e pá porque o pum seria no desenrolar por horas pelos caminhos da Patagônia Chilena.

O frio era cortante - provavelmente a largada mais fria que senti nos últimos 3 anos -, fato que já fez eu largar com o Anorak, que na edição anterior só fui retirar da mochila em Chacabuco. Uns 500 metros correndo e vejo minha amiga Gemma Pla, fotógrafa oficial de Jordi Tosas. Dou um berro, paro, dou-lhe um abraço depois de um ano que não a encontrava.

Saio a correr, a estratégia era não sair desembestado pelas (ainda) boas e friorentas trilhas na parte da planície do Rio Serrano.

A experiência já me dizia. O pior da prova vinha à partir do momento que começa descer de Chacabuco (e não lá especificamente), salvo, quando o tempo virar lá em cima, aí só é com nós mesmos e com nossos fantasmas e medos.

O céu com sol estava extremamente azul e sensação térmica próxima de 0ºC, dava o tom que estávamos na Patagônia, no Extremo Sul do Continente. E seria ela, a natureza, quem iria conduzir a minha corrida.

A Ultra Fiord se diferencia das demais ultratrails por ser uma prova selvagem. É uma corrida que você não vai achar PCs e mais PCs ao longo do percurso. São às vezes horas e horas correndo ou fazendo treking sozinho pelos bosques, ou seja, é você contra você mesmo literalmente.

Minha sorte no meu acidente em 2015 foi ter me acidentado apenas a 1 quilômetro do PA/PC, mas as decisões nesta prova em específico, fazem da Ultra Fiord ser uma Ultratrail Mental, algo parecido, mas em menor escala, do que uma Barkley.

Seu terreno é traiçoeiro na área de charcos que podem ter de 1 metro a 20 metros e se estenderem por longos quilômetros. Quando você consegue desenvolver uma corrida vem um charco, mais um, mais um e isso acaba mexendo com seu poder mental ou a falta dele.

A subida até Chacabuco foi tranquila e no caminho fui encontrando alguns amigos (as) brasileiros. Para daqui e para dali. Chegamos ao portão de Chacabuco sendo recepcionados por dois Condores que pairavam a menos de 20 metros de altura de nossas cabeças. Ao horizonte, o visual que deixamos para trás: as Torres del Paine e o vale do Rio Serrano que recorta a planicíe num suave contorcionismo.

Lá em cima, estranhamente, para mim estava mais quente do que na subida. Provavelmente reflexo do calor projetado pelas bilhões de pedras cobertas — ao não de neve - que perfazem os 8km da "banheira" de Chacabuco, e por isso, extremo cuidado neste cenário é pouco para evitar um tombo ou torção. Uma parada para filmar e você vê o atleta que o ladeia abrir centenas de metros. Esse ano Chacabuco estava mais amigável, apesar de ter mais neve no chão devido a nevasca que rolou na noite anterior.

Cada vez mais minha corrida se tornava solitária, e eu sabia, que já existiam poucos atrás de mim. Desci até o PC de El Salto com uma norte-americana. Estava ciente que a descida de Chacabuco é extremamente traiçoeira na relação terreno com seus charcos em descida, vegetação repleta de espinhos e arbustos cortantes. No PA batia os 21Km e eu já com altas 6 horas de prova. Encontramos uma corredora chilena. Ambas, a norte-americana e a chilena partem e fui então fazer a minha primeira refeição quente. Uma sopa e Coca-Cola me caíram muito bem. Despeço-me dos dois staffs e esses seriam as duas últimas pessoas que veria nos próximos 15k ou sei lá em quantas horas mais. Eu no meu estágio de corredor já desencanei no trail de olhar relógio. Cronômetro é coisa de asfalto.

O último PC em Chacabuco fica no 18Km. Pegamos a descida de um desfiladeiro que vai dar nos bosques ente El Salto (21k) e Los Sacos (42k), parte do percurso que considero o mais técnico e temível. Além de ficar nesta parte da ultra a correr por horas à noite e sozinho. Já sabia de antemão deste cenário e me preparei mentalmente para isso. É a minha corrida solitária, aquela que penso sobre tudo e todos, ao mesmo tempo que não penso sobre nada e ninguém. Era o meu momento. Em contra-ponto era dos outros que vinha a minha força. "Não vai se meter num acidente e passar vergonha, né Harry?", pensava comigo mesmo. "Se fizer burrada seu May Day vai demorar horas, quiçá, umas 24h!", me auto-alertava, quando a trilha ladeada por um bucólico rio que nos seguiu por quilômetros até o ápice refletia os raios do sol que começava se pôr.

Havia postado um dia antes, que
seria a Cris Carvalho, dona da minha pequena homenagem de dedicar a medalha para algum conhecido, e é o sempre faço. Afinal, minha chegada poderia acontecer nas primeiras horas do dia de seu aniversário. Era uma estímulo para manter a cabeça no lugar e ser extremamente racional na trilha.

No Fiord não tem essa de economizar do tipo: "não quero estragar muito meu tênis", ou, se preocupar por que “numa caída de bunda sua mochila que nunca havia sido suja agora estar batizada”. Lá, estar no charco é para se encharcar de lama, lodo, barro até o tanto que a natureza desejar.

A corrida mental que me refiro é mais do que a distância em si, mas sim saber gerenciar com calma e racionalidade os obstáculos que surgem. E não são dois ou cinco obstáculos ao longo do percurso. São dezenas deles.

Horas depois e faltando uns 20 minutos para escurecer, ao atravessar um bucólico rio, uma dupla na categoria Duo me alcança. Os italianos Tatiana e Massimo soube no dia seguinte.

Ao atravessarmos o rio, foquei em tentar abrir um pouco de distância da dupla, à frente é claro. Eu sabia que já não havia muitos corredores e não gostaria de ficar em último, não por orgulho, mas, por questão de segurança. Prefiro ser achado estalado no chão esperando uma dupla passar por mim e me prestaren o socorro que puder ser feito, ao esperar a varredura da prova.

Quilômetros depois um único bastão de olho de gato mal posicionado em um ponto cego fizeram me "perder" pela primeira vez. Minha regra básica é nunca perder o ponto referencial da última marcação. Então era um tal de ir por várias vezes até a referência nesta já noite escura. Pensei em esperar os italianos e não deu 5 minutos eles colaram no ponto. Expliquei que não encontrava a sequência dos olhos de gatos e eles tiveram também uma certa dificuldade para tal. Mas três pessoas trabalham melhor que uma. Quando então Massimo, descobre a sequência e lá vamos à noite com o rio a nossa esquerda, bem como a lua crescente e charcos e mais charcos na imensidão.

Cheguei uns 5 minutos antes da Dupla em Los Sacos (37k) onde fica o último Posto de Assistência, que consiste em dois experientes montanhistas acampados ao largo da trilha nos preparando sopas, dando o que beber ou servindo uma barra de chocolate. Eu tinha mais comida comigo e o que eu focava mesmo era me hidratar e comer só o essencial.

Parto para os o trecho mais cheio de charcos da prova. O cansaço mental já tinha batido. De uma hora para outra o rio some, percorro mais algumas centenas de metros e lá estava ele a minha direita e eu correndo no caminho inverso a sua correnteza. Ops! Tinha algo muito errado! O correto era correr com ele a minha esquerda e na direção do fluxo d’água. Neste ponto aprendi a importância de num trail de auto-suficiência estarmos conectados a orientação espacial e não só a oficial.

Dou meia volta e começo a correr o sentido correto e 30 minutos depois, pela segunda vez não acho a marcação na trilha. Desta vez, fiquei bem mais tempo para achar a continuidade que estava ali a uns 30 metros de distância. Mas na hora a equação não fechava. Era um tal de ir e voltar incrível. E o medo passou a se fazer presente e eu já imaginando tirar meu cobertor térmico e ter que dormir na trilha esperando ajuda.

Nesta hora começo a pensar na nossa Mestra Cris Carvalho, introdutora do trail no Brasil, criadora do Núcleo Aventura equipe que treino atualmente. Estava ficando difícil, pelo tempo parado, sem avançar.

Sou agnóstico mas nesta hora proferi: "Deus me ajude!". Não deu nem 10 segundos, olho para cima e lá estava a marcação na árvore, me levando a trilha que desembocaria nele, o rio, que me acompanhou por quilômetros, e que seria, meu último obstáculo lavando meus pés e alma em Última Esperanza.

Estava na Estância Perales, local da minha chegada, depois longas e prazerosas 17 horas de corrida e treking.

E o trail me dando mais um lição. Jamais se desespere. O caminho correto a seguir está à sua frente, basta encontra-lo.

Fooorça!, diria Cris.