Fica, Cunha!

A ponta solta do golpe

Você vai pensar que pirei, mas não. Eu realmente desejo que Eduardo Cunha permaneça até o fim da legislatura, em 2018 — mais: só entregue presidência da Câmara no devido tempo, no fim de dezembro.

Vamos lá. O que é Eduardo Cunha? O parlamentar mais escroto do país em muito tempo, certo? Mas, mesmo sendo claramente um corrupto, um ladrão impenitente, dirigiu o processo de impedimento de uma presidente com milhares de defeitos, mas totalmente honesta, correto? E qual a grande desculpa dos golpistas quando apontávamos esse absurdo? “Depois de derrubarmos ela, pegamos ele”, diziam.

Era mentira óbvia para a maioria de cínicos que fazem parte deste movimento de quebra da ordem democrática, mas não para todos. Havia (e, por incrível que pareça, ainda há) uma minoria de ingênuos que acredita estar combatendo a corrupção no Brasil ao defender a defenestração de Dilma (e a Lava-Jato). Para estes, a manutenção de Cunha é um soco na boca do estômago — não que tenha eu a esperança de a que a maior parte aprenderá muito com a pancada, pois são estúpidos por natureza. Mas vai que alguns aprendem (ahá! Não esperava essa tirada otimista, hein? Sou um cara surpreendente mesmo…).

“Mas e o mal que o Cunha ainda poderá fazer ao país?”, perguntará você. Não poderá fazer muito mais do que já fez, respondo. Roubará mais alguns milhões de dólares, enviando para contas longe do Panamá (aliás, que fim levou?). Mas encare de um modo positivo: permanecendo no Parlamento, impune, estará nos prestando um enorme serviço. “Qual?!”, cairá você da cadeira (se estiver sentadx, lógico). Respondo: ele será a prova viva, inconteste, diária, da ilegitimidade do governo Temer, de seu caráter golpista, o que lhe maculará toda e qualquer iniciativa, facilitando que lutemos, por exemplo, contra a retirada dos direitos sociais.

Como dizia Magalhães Pinto (se não sabe quem foi, por favor, veja na wikipedia): “política é que nem nuvem: a gente olha, está de um jeito; olha de novo, está de outro”. A tradução para o caso presente é que hoje é mais urgente para os golpistas livrarem-se de Cunha do que para nós. Daí vocês verão a mídia golpista (ou seja, todos os grandes jornais, TVs, rádios e revistas) subitamente despertar para as falcatruas cunhistas, que estão vagando por aí há meses, sem que lhes fosse dada maior atenção do que uma ou duas materinhas escondidas. O mesmo acontecerá com o STF e até, meio a contragosto, com a PGR. Até começarão a aparecer no facebook golpistas mais cínicos pouquinha coisa do que a maioria também pedindo a cassação dele.

O problema de Temer, Janot, Moro, Gilmar e companhia bela é que, pelo acordo, livrariam Cunha da cassação. Se não cumprirem a sua parte do trato, ele pode, uma vez preso, dar com a língua nos dentes — o que será ignorado pelos procuradores, óbvio, já que acusações contra tucanos e peemedebistas não os interessam, como sabemos há bom tempo. Mas, vingativo como é, o canalha poderá vazar as delações por outros meios — até para a imprensa estrangeira — e aí os golpistas do Judiciário ficariam completamente desnudos.

“Mas aí ele vai vencer! Ele vai escapar!”, dirá você. Bem, desculpe, mas é assim no mundo real. Os bandidos ganham na maior parte das vezes — só em Hollywood é o contrário. Além disso, lembre-se de que o mandato dele termina em dois anos e pode ser que perca o foro privilegiado (não há garantia, porém, com esse Supremo que temos). Claro que ele pode ser reeleito — o eleitorado fluminense foi capaz de tornar Bolsonaro o deputado mais votado do estado, não se pode esquecer — e aí babau. Mas nesse caso, fazer o quê, a não ser lembrar para sempre dessa lição e ensiná-la aos filhos e netos?

Assim, o melhor para nós é deixar esta parte do golpe seguir seu curso e nos concentrarmos em defender os avanços obtidos a duras penas na última década. E, se calhar (como dizem os patrícios), forçar a convocação de eleições gerais — estas sim, uma maneira pra lá de interessante não só de cassar Cunha como aqueles outros 366 pilantras que fizeram do Bananão um motivo ainda maior de escárnio mundial.

Considero ainda que #aGlobodeveserdestruida.

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