Neymar e o Turco

O que foi que eu fiz agora?

Para começar, um aviso: não sou fã de Neymar nem mesmo como jogador de futebol, embora lhe reconheça a excelência. Só para ficar nos exemplos atuais, prefiro Messi, Iniesta, Luisito Suárez, Di María, Pirlo, Cristiano Ronaldo, Rakitic e Buffon antes dele.

Isto posto…

A relação de uma parte da classe média brasileira com Neymar caminha para ser mais uma daquelas coisas que vou ter dificuldades para explicar para quem não é brasileiro — junto com o conceito de saudade, como fazer uma caipirinha e por que não conseguimos respeitar resultados de eleições por mais de 30 anos consecutivos. Talvez até mais difícil até do que explicar esses três, pois eu mesmo não compreendo.

Não entendo porque as críticas não têm nenhuma relação com a realidade objetiva. E qual é esta? Neymar é um jogador de futebol — excepcional já aos 24 anos, mas com possibilidade de evolução e ainda longe de ser o melhor do mundo, mas apenas isso, um jogador de futebol. E ser jogador de futebol muito bom, o melhor do mundo, é o que ele se propõe a ser. Nunca vi Neymar dizer que queria ser um exemplo para as crianças ou guia espiritual ou de comportamento. Na verdade, creio que já li, mas não tenho certeza, ele dizendo que quer apenas viver a vida dele sem que ninguém lhe encha o saco — o que, vamos convir, é um pedido mais do que razoável.

Por algum motivo que, repito, não entendo, uma parte da classe média brasileira resolveu que o jogador do Barça é obrigado a ser um exemplo de ser humano, uma mistura de Mahatma Gandhi e Pelé, um asceta iluminado que, sozinho, derrote adversários quando entrar no gramado envergando a camisa do time da CBF. É uma exigência muito específica da classe média, pois os pobres com quem discuto e ouço discutir sobre futebol só fazem a segunda exigência, sempre admitindo, depois de uma curta ponderação, que sozinho ele não pode ganhar nada.

O caso de Neymar anda me lembrando o de Paulo César Lima, que ficou mais conhecido como Paulo César Caju por pintar os cabelos com uma estranhíssima cor vermelho-alaranjada uns 40 anos antes de jovens andarem pelas ruas com madeixas com as cores do arco íris sem que ninguém lance um olhar. Como Neymar, PC era chamado de mascarado, ostentador e mau-exemplo por, além de pintar o cabelo de acaju, aparecer em festas a bordo de carros caríssimos, usando roupas extravagantes e acompanhado de belas mulheres, quase todas louras (dispensável dizer que PC é negro). Muito parecido, pois não? A diferença mais notável entre os casos é que nem o mais enlouquecido detrator de PC Caju jamais disse que ele não era um craque, algo que há gente que afirme no que se refere a Neymar — se bem que estes casos sejam minoria insignificante, em geral formada por quem teria dificuldade de identificar a bola ao assistir um jogo de futebol.

Paulo César, porém, tinha uma grande vantagem em relação ao 11 do Barcelona e 10 do time da CBF: ele viveu na época — e conviveu nas festas que frequentava — com Ibrahim Sued. Conhecesse a vida e obra do “Turco”, Neymar saberia como lidar com seus críticos. Não precisaria mais do que se guiar — tatuando-a, já que gosta desta arte — por apenas uma frase do paupérrimo filho de imigrantes árabes que ganhou uma estátua em frente ao Copacabana Palace: “Os cães ladram e a caravana passa”.

Não sei se esta joia é completamente da lavra de Ibrahim ou se vem de milênios da cultura árabe, mas é lapidar porque reduz os críticos a cães que, impotentes, podem apenas reclamar diante da passagem do sucesso o qual segue seu caminho sem lhes dar ouvidos. Imitando a caravana suediana, o amigo de Messi e Luisito se pouparia de problemas e viveria em paz, creio.

Quanto aos críticos sem noção, seria bom eles entenderem que não é função de Neymar — ou de qualquer outro atleta, artista ou cientista — ser exemplo de vida para ninguém. Quem tem esta função são pais, avós e tios, no caso das crianças, e dos representantes políticos, no caso das comunidades. O/A atleta, artista ou cientista pode escolher ser exemplo, e aí ser cobrado/a dessa forma, mas, se assim não for, não tem obrigação alguma de sê-lo e ninguém tem o direito de impingir-lhe a missão.

P.S.: Como bem lembrou o amigo Fernando Molica, Neymar deve à Receita Federal. Este é um ótimo motivo, por objetivo,para não tê-lo como referência fora das quatro linhas. Ele pode ser cobrado por isso (assim como Messi e aquele senhor que perdeu o pênalti em 1986 contra a França, que ficou anos sem poder pisar na Itália — pelo que sei ainda não pode — por sonegar imposto lá), mas não por ser mascarado e xingar torcedor que o xingou antes.
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