O desabafo do treinador de Arthur Zanetti e a história

Sucesso limitado

Outubro de 1984, Academia de Tênis de Brasília. A Secretaria de Esportes do MEC convocou reunião com a presença de presidentes de confederações desportivas, jornalistas e estudiosos do esporte. Por um motivo desconhecido por mim até hoje, fui escalado para compor a delegação de três pessoas que representaria o Projeto Memória do Esporte, parceria entre a Fundação Roberto Marinho e a Universidade Cândido Mendes – o qual, para falar a verdade, também não tinha ideia do porquê tinha sido convidado.

O convescote tinha por objetivo definir uma política esportiva para o Brasil, que seria deixada como sugestão para o governo eleito de Tancredo Neves. Esta seria aceita, obviamente, porque Tancredo estava andando para o tema, ainda mais que ele sempre fora da alçada dos militares – que comandavam a SE/MEC - e estes não se mostravam dispostos a abrir mão de qualquer parcela de poder que ainda lhes restasse. Não seria o veterano político mineiro que iria dar o contra.

Na reunião, logo ficou evidente a existência de dois lados. Um, defendido pelos presidentes de confederações – Carlos Arthur Nuzman, na época presidente da CBV, à frente –, jornalistas e alguns estudiosos, e outro formado por um grupo maior de estudiosos (discretamente apoiados pelos militares), no qual me encontrava como Pilatos no credo. O grupo de Nuzman pregava que, para que a prática desportiva se disseminasse pela sociedade brasileira, o grosso do investimento deveria ser alocado no esporte de alto nível (hoje chamado de alto rendimento), enquanto o outro – que, além do pessoal da FRM, tinha ainda gente ligada à área de educação física – defendia que o investimento principal deveria ser realizado nas escolas.

O argumento de Nuzman era que com as vitórias seriam formados ídolos, os quais, devidamente usados como garotos propaganda, atrairiam as crianças para a prática desportiva. O nosso grupo contra-argumentava que era de uma massa de crianças praticantes de esporte que se pescaria os mais talentosos, o quais, aí sim, teriam um acompanhamento especial, com um investimento maior.

Você já deve saber qual lado venceu o embate. Nuzman ganhou por dois motivos básicos:

1. O nosso grupo cometeu o erro absurdo de, logo na primeira intervenção, ter citado Cuba como exemplo da tese de massificação do esporte. Poderíamos ter citado EUA, França, Canadá, qualquer potência olímpica, mas o chefe da delegação da FRM era Raul Milliet, sobrinho de João Saldanha, que apresentou a tese e se deixou vencer pelo esquerdismo atávico;

2. O vôlei tinha acabado de conquistar a medalha de prata nos Jogos de Los Angeles e estava num caminho ascendente que levaria ao que é hoje, portanto Nuzman estava com moral no teto – e, ainda por cima, contava com o apoio de Roberto Giesta, presidente da confederação de atlestismo e “dono” de nossa medalha de ouro mais importante naqueles Jogos, a de Joaquim Cruz, nos 800 metros, um cara que era a própria encarnação da nossa tese.

Na verdade, o “argumento do ídolo” está longe de ser uma idiotice. O problema é que ele não é capaz de sustentar uma política de massificação esportiva pela simples falta de dinheiro para manter um número enorme de ídolos. Ele só funciona para poucos esportes, como provam o vôlei e o futebol aqui, os velocistas da Jamaica, os fundistas do Quênia e por aí vai.

É esse o contexto sob o qual deve ser analisado o desabafo do treinador de Arthur Zanetti, Marcos Goto, após o seu pupilo ter conquistado uma medalha de prata. Goto, tenho quase certeza, desconhece os fatos que relatei (pouca gente conhece, creio mesmo só que quem participou do encontro). Após 32 anos, ainda tenho a convicção de que investir na massificação do esporte na escola é opção mais correta (e, neste âmbito, o investimento maior deveria ser no “esporte base”, o atletismo). E, após 32 anos, também estou certo de que ela continuará a ser ignorada.

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