“Poinciana”

Minha linda!

Era sagrado — todos os dias, às 11 da noite, sintonizava a Rádio Jornal do Brasil, não importava que, no dia seguinte tivesse que acordar às 5 da manhã. Mais importante do que o sono era, por uma hora, ouvir o “Noturno”, apresentado pela voz de barítono de Luiz Carlos Saroldi, com uma seleção de músicas que encantava o “motown boy”, mesmo sem a presença de Jackson Five, Stylistics, Stevie Wonder, Sharlene, Temptations ou Diana Ross. Em vez disso, MPB (que, de resto, também ouvia aos quilos em casa), jazz (um estilo que até então me chamara pouco a atenção) e muita música romântica americana, francesa e italiana.

Assim foi que, numa noite dessas, Saroldi propiciou-me minha terceira paixão à primeira audição (das outras já falei). A alegria que sinto quando ouço a introdução de “Poinciana”, de Nat Simon e Buddy Bernier, na versão do Manhattan Transfer, não mudou em 40 anos. Foi uma quentura (como diz minha mãe) no plexo solar tão grande que fiz algo que nunca tinha feito antes e nunca fiz depois — escrevi carta pedindo que Saroldi tocasse a música novamente, no bloco em que ele atendia pedidos dos ouvintes.

Bobagem, pensei, dois segundos depois de ter colocado a carta na ranhura apropriada na agência do Correio (era assim que se fazia naquela era do mundo, jovens). Ele nunca iria ler a carta — e se lesse não iria tocar a canção de novo. Ainda assim, com aquela esperança típica dos 18 anos, por uns dois ou três meses, fiquei a ouvir o “Noturno” à espera do improvável. Nada aconteceu, como era de se esperar. Engoli a frustração e, também como é típico da juventude, toquei em frente, esqueci.

Uns meses depois, eis que o Dupin, colega do estágio em estatística no Departamento de Informática (designação hilária, pois o aparato mais avançado que tínhamos à disposição era uma máquina de calcular da Sharp com visor de fósforo verde) da Secretaria de Educação do Estado do Rio , cruzou comigo na portaria da ENCE e veio com a novidade.

– Ouvi seu nome ontem no rádio.

– Hein?

– É, na JB. Num programa de noite. Tocou uma música que você pediu, cheia de bongôs — riu Dupin.

Sim, eu faltara com meu dever sagrado e fora castigado — Saroldi tocara “Poinciana” e eu não estava escutando (depois você me pergunta por que sou paranoico). Tal injustiça do cosmos, claro, detonou aquele processo neurótico que me acometera com “Pendulum”, do CCR, e “Pela cidade”, do Azymuth (siga o link lá de cima para ter ideia bem clara do que é). Passei alguns anos atrás da música, até que, em meados dos 90, encontrei-a na versão CD de “Coming out”, LP lançado pelo MT em 1976.

Oi, velho amor…

https://pavuna73.files.wordpress.com/2016/05/manhattan-transfer-poinciana.mp3

#aGlobodeveserdestruida


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Originally published at pavuna73.wordpress.com on May 17, 2016.

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