High Park Toronto, um dos 1.500 parques da cidade.

Por que Toronto tem mais de 1.500 parques e o que podemos aprender com isto?

Os parques de Toronto me fascinam. Não tem como andar pela cidade e não parar em um deles. Tem de todos os tipos, tamanhos e em todos os lugares. São prazerosos no verão, no inverno, de dia e de noite. Você quer estar ali. Mas, o que me intriga é: como pode uma cidade ter mais de 1.500 parques?

Toronto tem uma área de 630km², uns 2.6 milhões de habitantes. Não é uma cidade tão grande. Por este motivo, a proporção de parques dentro deste espaço acaba deixando qualquer um de boca aberta. O documento oficial “Parks Plan 2013–2017”, do Parks, Forestry e Recreation já se gaba deste diferencial: “Uma cidade dentro do parque”. E vai além.

High Park no outono, fantástico

Esse plano foi todo pautado numa consulta pública quanto ao tema “parques na cidade”. Pra se ter uma ideia 93% da população de Toronto concorda que parques são essenciais para cidade e outros 77% disseram que vão aos parques ao menos 20 vezes no ano. Eles acabam sendo praticamente um quintal de casa. E o que isso traz de bom? Muita coisa:

  • Conectividade da comunidade, das famílias e das diversas culturas;
  • Melhoria do ar;
  • Incentivo às atividades físicas, para todas as idades;
  • Por consequência, melhoria da Saúde Pública — mental, psíquica e até espiritual;
  • Valorização e uso dos espaços públicos;
  • Controle de erosões e inundações;
  • Diminuição da poluição sonora;
  • E por aí vai….

Além disso, existe toda uma preocupação quanto a expansão organizada dos parques frente ao crescimento populacional da cidade. Mais gente, mais demanda. Oras bolas. Os planejamentos apontam lá para 2031. 15 anos pra frente, e estou falando de parques! São planos de revitalização (como aconteceu no Waterfront), criação de novos espaços, integração e mapeamento dos parques, envolvimento de voluntários etc.

“Parques são essenciais para fazer Toronto um lugar atrativo para se viver, trabalhar e visitar” — Parks Plan 2013–2017

A ideia é ter parque para todos e em toda cidade. Principalmente nas áreas com poucas opções ou que não tenham nada ainda, o que eu acho difícil. Próximo de casa existem, indo a pé, quatro bons parques. Aquela sensação de culpa de ter que ir ao shopping por não ter opções de parques próximos a sua casa é inexistente. E não pensem que são meros espaços com gramas, umas árvores, balança, escorregador e gangorra. Existe um padrão de qualidade.

Saca só: “O que o povo valoriza e espera de um parque de qualidade é o que buscaremos fazer. Parques vibrantes, receptivos, seguros e sustentáveis. Não somente um espaço de recreação e descanso, mas também de união social, cultural, econômica e ambiental”, diz o relatório. Putzgrila…. e isso não é só no papel, é na prática, é visível.

Riverdale Park, em East York — e ainda tem uma visão privilegiada da CN Tower

É explícita a preocupação coletiva em preservar e pertencer a estes espaços. Em manter e buscar melhorar a percepção destes locais, que são de todos. O voluntariado é latente nas pessoas, elas querem cuidar, limpar, participar, dar ideias, unir suas forças contra as forças contrárias (que existem em todos os lugares, meu chapa). Tudo isso gera um sentimento, que não sei explicar direito, de generosidade absurda — de você querer contribuir financeiramente com aquilo, sem que ninguém te peça nada (64% das pessoas desejam doar dinheiro para os parques).

Foi o que senti em relação à Saúde Pública de Ontário, contribuo até hoje com eles, sem que nunca tenham me pedido nada. É só gratidão mesmo.

Leve em consideração que existe uma ótima comunicação por trás disto tudo. Quase não existe propaganda negativa. Pelo contrário, há uma valorização daquilo que é de todos. Parques mapeados, serviço on-line de informações, manutenção em 48 horas, sistema de irrigação computadorizado (priorizando o baixo consumo de energia e água), guias, mapas, mídias sociais e um serviço telefônico (o 311) que é oferecido em 180 línguas. Putzgrila!!!

Parques em números em Toronto
São 858 playgrounds
52 quadras de basquete
7 de skate
636 de tênis
5 de golfe
59 piscinas
40 pistas de patinação
60 areas pet
300km de trilhas
12,7% da cidade tem parques
São 8.600 hectares — sendo 13% naturais — (2012)

Respire. Os parques também são desenhados urbanisticamente visando uma melhor forma de conservação, de segurança, de inibição de vandalismo, de acessibilidade (inclusive playgrounds) e para que você passe mais tempo ali e com mais pessoas. Sua estrutura física (bancos, banheiros e espaços cobertos) também são objetos de atenção constante. As trilhas são preservadas, mapeadas, interligadas e seguras.

Enfim, enxergar parques em Toronto está além de ver espaços verdes numa esquina — os parques são vidas. São bens comuns de todos e cuidados por todos. Mais uma vez, impostos muito bem aplicados e gerenciados e que, por conseqüência, se revertem em satisfação e em lucros emocionais (se é que isso existe). É a consciência de que estarmos despreocupados com questões básicas do dia a dia, sentados num parque por exemplo, é uma das tarefas mínimas do Estado. Eu não quero um domingo no parque, eu quero todos os dias no parque — e isso é possível, em qualquer lugar do mundo. Principalmente, naqueles bonitos já por natureza.

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