Quando assisti no mês passado Malala saí do cinema pensando principalmente no peso simbólico que aquela menina e seu pai carregariam. Já circula há algum tempo na internet teorias e teorias de conspiração sobre o atentado feito pelo Talibã, sobre as motivações da menina que supostamente não passa de um fantoche dos EUA e outras inúmeras fantasias que se estendem ao limite da criatividade humana. Para uma sociedade que desenvolveu sua fantástica habilidade de dedução a base de maratonas de Arquivo X e CSI parece que não há ato extraordinário no mundo onde o realizador não tenha pelo menos três esqueletos no quintal.

Malala e o pai são também duas pessoas claramente influenciadas por conhecimentos que não vieram da sua realidade habitual. O pai, um homem atipicamente intuitivo pro seu ambiente, acreditava que a educação era a própria carta de alforria auto assinada que nos libertava da ignorância. Educação é liberdade e liberdade é um direito de todos. Os dois acreditavam tão apaixonadamente nisso que Malala um dia se viu diante das implicações práticas de lutar por aquilo que acredita — e não recuou. Sua história nos mostra que literatura, música e arte não são só formas de escapismo como também agem como suplemento para por em prática nossas visões. 
Porém a vida de Malala é vista como um romance social que a coloca no imaginário coletivo como símbolo que transcende sua existência humana, falha e ingênua e esse é o maior erro de mitificar um ser humano: não mais conseguir desassociar nosso conhecimento fantasioso da realidade nada romântica em que vive uma adolescente de 18 anos cujas próprias palavras dizem ser “uma adolescente comum filha de pais extraordinários”.

De alguma forma ainda vivemos numa realidade onde conhecimento subjetivo e conhecimento prático não são bem balanceados; assistimos com olhos céticos eventos excepcionais, incapazes de enxergar nossa própria capacidade de reproduzi-los. Também vivemos cercados de uma dicotomia que separa extraordinário como fictício e ordinário como real, fazendo com que tudo que aconteça fora da nossa órbita de conhecimento prático seja tido como impossível ou como farsa. Pessoas como Malala não podem ser tão boas quanto parecem e integridade e coragem como a de Katniss Everdeen só existe mesmo em livro. Se a voz do senso comum pudesse falar diria que não somos capazes de ser extraordinários.

A verdade é que o coral do senso comum canta uma melodia extremamente depressiva. Notícias ruins ecoam durante todo o dia e dormimos ao som de batidas ansiosas quase que em ritual. O grande esforço da mídia em deixar os maus acontecimentos em caixa alta acaba por hierarquizar eventos, fazendo com que boas ações ganhem menos visibilidade. Parece algo raro, resultado de sorte, coincidência ou esforço descomunal mas ambas acontecem aos montes, só recebem atenção desigual. Mesmo em meio a eventos catastróficos ainda continuamos a testemunhar feitos magníficos que são nosso maior lembrete de que a vida e nós respondemos à altura dos acontecimentos. Para uma pessoa que cruzou um continente em busca de paz e abrigo, há outra esperando de braços abertos para receber. Grandes eventos tem por natureza grandes repostas: uma grande compaixão ou uma grande indiferença. Barreiras invisíveis muito mais fortes vem ao chão em situações inimagináveis, rompemos laços que não nos servem mais, deixamos um país, deixamos preconceitos e construção sociais para trás numa fração de segundo. Qual conceito dentro do nosso limitado senso comum fundamentou decisões como essas?

Tanto Katniss como Malala são a representação do que podemos ser quando levados a situações extremas e precisamos manter somente o que nos é necessário. Não é difícil de imaginar que em meio a tantas variáveis de necessidades diferentes uma delas tenha raiz no que é tido como bom e justo, porque também precisamos disso para ser feliz. Situações absurdas demandam força e essa força vem de um conhecimento totalmente subjetivo de bem estar, é simplesmente uma feliz coincidência que nosso bem estar esteja atrelado a ideais tão nobres que são capazes de criar uma reposta coletiva como por exemplo uma grande compaixão. Talvez o único mistério capaz de criar alguma dicotomia é o de saber o que nos leva a empregar tantos esforços para construir situações que se estendem, positivamente ou negativamente, muito além de nós. No fim somos sim símbolos de tudo que criamos e somos por natureza seres extraordinários.