INSPIRAÇÃO

Se o Teatro não morreu, está em coma. Só fazem sucesso “comédias para a família”, escritas dentro do limite do aceitável, estritas para que o público goste e não se lembre mais delas no jantar. A Arquitetura foi talvez a primeira Arte a desaparecer, suprimida dentro dos caixotes que constrói hoje a engenharia. A Música já não tem sido composta, mas calculada: há quem diga que os “compositores” são algoritmos, que selecionam os timbres mais comerciais e “montam” as canções. De qualquer forma, além de repetitiva, a Música tem sido barulhenta, estridente, incômoda. — Abstenho-me de falar da música eletrônica, para evitar a depressão. — Até mesmo a sétima Arte vive o apogeu da mesmice dos filmes de super-heróis, todos com o mesmo roteiro. Aparentemente, a moral de rebanho, ainda firme na torre de comando, acabou por gerar uma “arte” de rebanho também. Se o objetivo é vender mais para os iguais, a “arte” deve ser a repetição das fórmulas prontas.

Infinitamente distante desse negócio da China, porém, Arte de fato é expressão da inspiração.

Em Ecce homo, Nietzsche define a INSPIRAÇÃO: “A ideia de revelação, no sentido de que subitamente, com inefável certeza e sutileza, algo se torna visível, audível, algo que comove e transtorna no mais fundo […].” (Veja abaixo a íntegra do texto.) O fato de o Bigode dizer que a inspiração TRANSTORNA evidencia a absoluta ausência de inspiração nos cadáveres que hoje chamamos “arte”. Uma “comédia para a família” transtorna em quê? Alguém que ouve a atual música pop fica transtornado? Jamais me esquecerei da frase que Carla Tausz, atriz, disse-me em nossa conversa: “Teatro não pode ser só entretenimento. Quando eu vou ao Teatro, quero que seja uma MACHADADA.” Uma machadada é um transtorno.

Embora elimine a noção de “forças poderosíssimas” exteriores ao homem, o primeiro psicólogo da Europa mostra que a inspiração é exterior à consciência. A inspiração não é produto de um esforço da consciência. A inspiração ACONTECE À CONSCIÊNCIA forçosamente, toma-a. “Tudo ocorre de modo sumamente involuntário […] A involuntariedade da imagem, do símbolo, é o mais notável […]” A inspiração IMPÕE-SE. “Jamais tive opção.” Assim, o artista não pode escolher sua inspiração. Ao contrário, é a inspiração que o escolhe. Nesse cenário, não há espaço para fórmulas comerciais: não se pode prever o conteúdo da inspiração. O artista fica transtornado. O público leva uma machadada.

A inspiração é energia, cuja tensão expressa-se imediatamente no corpo. Assim como a consciência, os sentimentos e o corpo são tomados pela intensidade. Em seu clímax, a inspiração gera “comoção e êxtase”. Diante de tamanha potência interior, o artista não está escolhendo fazer Arte. “O ator PRECISA ser ator” (Carla Tausz). O artista TEM NECESSIDADE de fazer Arte para conseguir sobreviver à potência da inspiração. A necessidade imperiosa do artista não encontra espaço suficiente em fórmulas comerciais: a inspiração tomou seu corpo.

A inspiração, como fenômeno natural, está além do bem o do mal. “O que é mais doloroso e sombrio não atua como contrário [à inspiração], mas como algo […] exigido”. A inspiração não forçará seu caminho até a consciência, até o corpo, para tentar caber dentro da comédia para a família. Ao contrário, se a família entrar em contato com a inspiração artística, ficará escandalizada.

Como artista, fico CONSTRANGIDA com a “arte” da atualidade. Por um lado, fico acanhada por ver o ego do ator em cena, não o personagem. Fico envergonhada quando alguém me pergunta se gosto da mesma música inédita. Fico encabulada porque durmo em espetáculos e no cinema. Por outro lado, sinto uma pressão social para enquadrar-me na “comédia para a família” ou, no máximo, em um stand up comedy. Sinto-me coagida a fazer uma arte que não incomode, que não aborde qualquer tema espinhoso, isto é, que não fale da vida humana. Querem obrigar-me a só fazer uma “arte” que venda, senão ninguém compra. Imaginem se sobrevive uma inspiração que só se possa expressar dentro dos limites sociais, dos limites do mercado. Não sobrevive. O Bigode duvidava que alguém no século XIX tivesse noção de o que se denomina inspiração. Vivesse no século XXI, teria certeza.

Não consigo ceder ao constrangimento. Poderia dizer, de maneira mais heroica: “Não cederei ao constrangimento!” Mas, realista, prefiro dizer: não consigo ceder ao constrangimento. A inspiração se impõe a mim. Jamais tive opção. A inspiração é como sexo no meu corpo: quando entra em mim provoca êxtase. Eu preciso de sexo. Eu preciso ter a sensação de liberdade, de incondicionalidade, de poder, de divindade.

Imagem: DANAE. KLIMT, Gustav.

Friedrich NIETZSCHE. ECCE HOMO. Capítulo “Assim Falou Zaratustra”, parte 3:

Alguém, neste final do século dezenove, tem nítida noção daquilo que os poetas de épocas fortes denominavam inspiração? Se não, eu o descreverei. — Havendo o menor resquício de superstição dentro de si, dificilmente se saberia afastar a ideia de ser mera encarnação, mero porta-voz, mero medium de forças poderosíssimas. A ideia de revelação, no sentido de que subitamente, com inefável certeza e sutileza, algo se torna visível, audível, algo que comove e transtorna no mais fundo, descreve simplesmente o estado de fato. Ouve-se, não se procura; toma-se, não se pergunta quem dá; um pensamento reluz como relâmpago, com necessidade, sem hesitação na forma — jamais tive opção. Um êxtase cuja tremenda tensão desata-se por vezes em torrente de lágrimas, no qual o passo involuntariamente ora se precipita, ora se arrasta; um completo estar fora de si, com a claríssima consciência de um sem-número de delicados tremores e calafrios que chegam às pontas dos pés; um abismo de felicidade, onde o que é mais doloroso e sombrio não atua como contrário, mas como algo condicionado, exigido, como uma cor necessária em meio a tal profusão de luz; um instinto para relações rítmicas que abarca imensos espaços de formas — e longitude, a necessidade de um ritmo amplo é quase a medida para a potência da inspiração, uma espécie de compensação para sua pressão e tensão… Tudo ocorre de modo sumamente involuntário, mas como que em um turbilhão de sensação de liberdade, de incondicionalidade, de poder, de divindade… A involuntariedade da imagem, do símbolo, é o mais notável; já não se tem noção do que é imagem, do que é símbolo, tudo se oferece como a mais próxima, mais correta, mais simples expressão. Parece realmente, para lembrar uma palavra de Zaratustra, como se as coisas mesmas se acercassem e se oferecessem como símbolos (“aqui todas as coisas vêm afagantes ao encontro da tua palavra, e te lisonjeiam, pois querem cavalgar no teu dorso. Em cada símbolo cavalgas aqui até cada verdade. Aqui se abrem para ti as palavras e arcas de palavras de todo o ser; todo o ser quer vir a ser palavra, todo o vir a ser quer contigo aprender a falar”). Esta é a minha experiência da inspiração; não duvido que seja preciso retroceder milênios para encontrar alguém que me possa dizer: “é também a minha”.