Quando eu era criança, meu sonho era ter um cavalo. Ou um carro. Na verdade, sempre fui muito aficcionada por meios de transporte e bichinhos. Talvez porque ônibus não seja lá algo muito encantador. A parte dos bichos, acho que é só porque sempre gostei deles, mesmo.

Mas voltando ao cavalo, talvez seja uma das memórias mais bonitas que conservo. Lembro que minha mãe dizia que um dia moraríamos no lugar onde ela cresceu, uma fazenda. E que eu teria um cavalo branco, que nem os dos desenhos. Eu era muito apegada à minha mãe. Dormíamos juntas, e toda noite ela contava histórias da infância dela. E sempre peguei no sono escutando a risada dela e das minhas irmãs. Não sei quando comecei a dar tanto valor à privacidade, já que dormi tanto tempo com três pessoas no mesmo quarto. Na verdade, quando se é pobre, o conceito de privacidade é bem diferente. Escovava os dentes enquanto alguém tomava banho ao lado, num banheiro que não possuía sequer uma cortina. A porta também era quebrada. Mas é algo bom quando se é criança, porque você nunca se sente só. E se é feliz com pouco. Também não tínhamos televisão, acho que isso nos tornava mais próximas ainda. Outro dia conversei com minha irmã sobre isso e reconhecemos, nós éramos felizes. Felizes como nunca mais fomos, e talvez, como nunca mais seremos. Pessimismos à parte, espero que sejamos. Continuo duvidando, mas espero. Crescer não é proveitoso. Você toma consciência de que o que sonha raramente pode se tornar verdade, e é difícil cultivar alguma coisa mantendo-se tão consciente assim. Também é comum se afastar da mãe, como aconteceu comigo. Não foi por mal, só aconteceu. Ela ainda me cobra isso, como se eu fosse a mesma criança. Sinto falta da proteção da minha mãe, sinto falta de pulmões limpos e um estômago saudável. Sinto falta de como é tão mais fácil ser criança e de como a definição de estar perdida só se aplica ao se perder da mãe no supermercado.

Sabe, eu ainda amo minha mãe. Eu não quero mais ter um cavalo, agora dou muito valor à civilização. Talvez um carro. Mas ainda amo minha mãe.

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