O milagre de Anne Sullivan/ The miracle worker
Por Bruna Malaquias
A primeira vez que ouvi sobre a existência de uma pessoa surda e cega foi no curso de Libras — o que, inclusive, reflete minha condição de ignorância e ao mesmo tempo de privilégio, no que diz respeito à falta de contato com essas deficiências de dois sentidos tão “vitais”, como a visão e audição. O filme é uma verdadeira provocação à reflexão. Apesar de ter sido rodado no começo da década de sessenta e ter sido baseado numa história real, que ocorreu no final do século XIX, dialoga muito com a realidade da contemporaneidade, se pensarmos que o conceito de acessibilidade ainda é deturpado e para o senso comum está atrelado apenas a uma rampa de acesso.

“O milagre de Anne Sullivan” mais do que um filme sobre uma menina cega e surda é um filme lindo, brilhante e comovente capaz de nos levar para várias dimensões; o de reconhecer nossos privilégios (no caso das pessoas ouvintes e que enxergam) e, claro, exercer a empatia no sentido mais estrito do termo. Ele traz uma angústia sem precedente — o que deve ser proposital -, porque causa em quem assiste uma reverberação forte de experiências sensoriais: A angústia da menina Helen que além de não escutar, não conseguir se fazer compreendida, porque também não enxerga. Isso se justifica pelo fato dela não ter recebido estímulos cognitivos por parte dos pais e dos que a cercam.
Na tenra infância, um período de descoberta do mundo e de si, Helen é vista pelos pais como um problema até que surge a alma iluminada da professora Anne, que é absurdamente incansável em promover um processo de aprendizagem do mundo à pequena Helen. Seu trabalho lindo de persistência levado a cabo, mesmo com o “comportamento mimado” da garota, como disse a professora em alguns momentos, e tendo que confrontar o próprio pai de Helen, que duvidava que algo de positivo pudesse ocorrer naquela relação entre Anne e Helen, é a grande “moral da história”. Pessoas com deficiência precisam ter suas necessidades reconhecidas; precisam ser estimuladas; precisam ter seu processo cognitivo desenvolvido, para que assim possam tornar-se indivíduos autônomos, independentes e assim passem a ser pessoas compreendidas, dentro das suas deficiências e especificidades e protagonistas nas suas vidas no âmbito da esfera pública e privada.
*Resenha sobre o filme “O milagre de Anne Sullivan”, escrita para a escola de Língua de Sinais Verbo em Movimento.
