— Sexo & Violência —

Texto de Viviane Marques

Arte de Cleon Peterson

Com alguma frequência o debate acerca deste tema ressurge e não raras vezes algumas mulheres se deparam com tensões difíceis de solucionar.

Objetivando favorecer o desenvolvimento da discussão e amenizar possíveis dúvidas concernentes ao assunto abordado com relação ao ponto de vista feminista radical, este texto propõe a explanação de alguns conceitos básicos, tentando dar conta, através de perguntas e respostas, dessas questões.

Todas as obras citadas estarão devidamente listadas ao final do texto, juntamente ao link para acesso. Infelizmente algumas ainda não possuem tradução ou não foi possível localizá-las, estas estarão sinalizadas com um asterisco.

1 — Pornografia: entendendo onde nós aprendemos sobre sexo

1.1 — O que é pornografia, exatamente?

Sob a ótica da etimologia a palavra “pornografia” vem do grego “porne”, que significa “mulher escrava sexual” e “graphos”, que significa escrita. Posteriormente houve uma variação, “pornographos”, “aquele que escreve sobre prostitutas”. Assim sendo, a própria palavra já nos indica que a feitura da pornografia requer, num momento anterior à sua comercialização e reprodução, uma conjuntura em que uma mulher foi prostituída, sexualmente explorada.

Vanessa Belmond, uma sobrevivente da prostituição e voluntária da organização de direitos humanos AntiPornography.org, define a realidade na qual milhares de meninas e mulheres estão inseridas hoje como cruel. Ela enfatiza que “muitas dessas mulheres foram abusadas horrivelmente quando eram mais novas, passaram por muita coisa e tem os problemas com drogas… só porque elas fizeram a escolha não significa que é ok assistir sua dor.”

Ainda nesse sentido, Andrea Dworkin sustenta que “pornografia é a destruição orquestrada de corpos e almas de mulheres; estupro, agressão, incesto, e prostituição a impulsionam; desumanização e sadismo caracterizam-na; ela é a guerra sobre as mulheres, violações em série na dignidade, identidade, e valor humano; ela é tirania […]” (DWORKIN, Andrea. Pornography: Men Possessing Women. 1987).

1.2 — Quem faz e quem vende pornografia?

Em ambos os casos, majoritariamente, a classe masculina. É preciso fazer um resgate cronológico, atentando que “A pornografia antecede em milênios a indústria da pornografia audiovisual. Ela se estruturava em outros tipos de narrativa, como literatura, pintura, escultura, poesia. Sob este ponto de vista, o único ‘meio de produção’ necessário para fazer de um homem um pornógrafo é um pênis. […] pornografia é mais que o relato. É a deliberação política sobre a economia do estupro — é como eles nos mantém aterrorizadas e extraem trabalho não remunerado de nós, pela Síndrome de Estocolmo. Sem pornografia, o patriarcado não se atualiza, não evolui e, portanto, não se mantém” (ALVES, Carmen Lúcia. 2016)¹.

Para que houvesse pornografia foi necessário que o sexo heterossexual já se realizasse num contexto de violência. O que se vê na pornografia é um reflexo direto do ponto de vista dos homens acerca do que é sexo e de como ele deve ser feito. É relevante afirmar que são os homens que ditam a pornografia, é preciso que as mulheres tenham nitidez a respeito disso. A classe masculina tem consciência de que a pornografia é uma violência contra as mulheres, isto é, não há espaço para inferir que homens não sabem ou não entendem muito bem do que se trata.

Exemplos contemporâneos desse tipo de comportamento masculinista e misógino são os diversos revenge porns (pornografia de vingança) e estupros filmados que são postados e compartilhados na internet de modo geral e principalmente nos sites de pornografia, corroborando a lógica exposta anteriormente de que todo homem é um pornógrafo. A degradação de mulheres por meio da prostituição/pornografia é um projeto masculino que se realiza na materialidade dos nossos corpos.

Aproveitando-se do que Gail Dines chama de “aliciamento coletivo”², pornógrafos com meios industriais de produção — como por exemplo Max Hardcore, um sádico sexual, que se tornou rico e famoso vendendo pornografia extrema — se beneficiam do histórico estado de vulnerabilidade física, social, emocional, psicológica e financeira de mulheres e meninas, introduzem na indústria do sexo métodos cada vez mais violentos de abuso sexual e lucram sobre os corpos dessas mulheres e meninas, mantendo-as em constante regime de sujeição.

Historicamente, “Em 1972 Gerard Damiano realiza, com dinheiro da máfia californiana, Garganta Profunda, uma das primeiras películas pornô comercializadas publicamente nos EUA. Garganta Profunda se converterá em um dos filmes mais vistos de todos os tempos, gerando lucros de mais de seiscentos milhões de dólares. Estoura a partir de então a produção cinematográfica pornô, passando de trinta películas clandestinas em 1950 a dois mil e quinhentas em 1970” (PRECIADO, Beatriz). Em termos de comparação, sabemos que esse contingente não se aproxima nem minimamente do que a indústria do sexo produz hoje.

1.3 — De que forma a pornografia afeta a sexualidade das mulheres?

Segundo Adrienne Rich, “A pornografia não cria simplesmente uma atmosfera na qual sexo e violência seriam intercambiáveis. Ela amplia o conjunto de comportamento considerado aceitável para os homens em seus intercursos heterossexuais — comportamento que retira das mulheres reiteradamente de sua autonomia, de sua dignidade e de seu potencial sexual […]” (RICH, Adrienne. Heterossexualidade Compulsória e Existência Lésbica. 1980).

A pornografia faz com que as mulheres assimilem que aquele modelo de sexo ali apresentado é o modelo natural, o modelo normal, de modo que qualquer possibilidade de desenvolvimento de uma sexualidade saudável e livre de violência é roubada das mulheres. A sexualização precoce de meninas, incentivada por uma sociedade pedófila que odeia mulheres, aponta para uma verdadeira colonização de corpos femininos, de modo que é introjetada em nós uma concepção deturpada acerca do nosso potencial sexual. Se num contexto patriarcal a mulher enquanto sujeito existe sempre em relação ao homem, é evidente que no que se refere à sua sexualidade não haverá distinção.

O sadismo, ao qual Rich também chama de sexualidade masculina, é entendido como mais genuíno que a sexualidade das mulheres. Isso significa que existe uma sexualidade que nos pertence e essa sexualidade é roubada de nós. Esse roubo é uma das características do poder masculino e funciona como uma estratégia para não só negar a sexualidade das mulheres, como também para nos isolar de nós mesmas e de outras mulheres no que diz respeito à nossa própria sexualidade, tendo em vista extirpar qualquer possibilidade de conexão erótica feminina.

A advogada Amairis Peña-Chavez, que trabalha no abrigo Santuário para Famílias, em Nova York, explica como a pornografia atua nas situações de abuso sexual: “Em mais ou menos 70% dos casos de abuso sexual com as minhas clientes, a pornografia estava envolvida. Ou o homem está assistindo e quer recriar aquilo ou ele está fazendo-a assistir e então querendo filmar e ter seu próprio filme”.

2 — Liberdade sexual feminina: entendendo a artificialidade dos nossos “desejos”

2.1 — O sexo violento faz parte da libertação sexual das mulheres?

Não, isso é um engodo. No final da década de 60 e início da década de 70 havia a crença de que a solução para todas as tensões sociais era a dita revolução sexual. Uns defenderam a postagem de pornografia em caixas de correio como estratégia de combate a regimes políticos repressivos, outros proclamaram que orgasmos melhores trariam a revolução.

Convenientemente, “sexólogos, libertários sexuais e empresários da indústria do sexo procuraram discutir o sexo como se fosse completamente dissociado da violência sexual e não tivesse nenhuma relação com a opressão de mulheres. Enquanto isso, teóricas feministas e ativistas anti-violência aprenderam a analisar o sexo politicamente” (JEFFREYS, Sheila. Como as Políticas do Orgasmo Sequestraram o Movimento Feminista. 1996).

Partindo dessa análise política a qual Jeffreys suscita, é possível discutir em termos materiais de que modo a sexualidade das mulheres é encorajada, observando se tais formas expressam uma liberdade real ou se apenas ilustram um embuste misógino.
Nossos corpos estão expostos, nossa busca por liberdade é slogan de sexshop e, contrariando todo o marketing do discurso da liberdade sexual, nós ainda não alcançamos o poder político que precisamos para concretizar as verdadeiras transformações pautadas pelo movimento feminista.

2.2 — O prazer da submissão pode ser característico de algumas mulheres?

Sheila Jeffreys explicita que “Não existe um prazer sexual ‘natural’ que pode ser liberado. Aquilo que provê sensações sexuais a homens ou mulheres é construído socialmente a partir da relação de poder entre homens e mulheres […]. Sentimentos sexuais são aprendidos e podem ser desaprendidos. A construção da sexualidade em volta da dominação e submissão é suposta como ‘natural’ e inevitável porque homens aprendem a operar o símbolo de seu status de classe dominante, o pênis, em relação à vagina de forma que assegure o status subordinado da mulher. Nossos sentimentos e práticas do sexo não podem ser imunes a essa realidade política.”

Jeffreys sugere ainda que o que confere atratividade sexual entre homens e mulheres na supremacia masculina é a própria afirmação dessa relação de poder, pois “aprendemos nossos sentimentos sexuais da mesma forma que aprendemos outras emoções, em famílias de dominação masculina e em situações nas quais nós não possuímos poder, cercadas de imagens de mulheres como objetos na publicidade e em filmes.”

2.3 — A ocorrência de orgasmos femininos durante um intercurso sexual violento funciona como indício de que aquele sexo é saudável?

Não, não funciona. O orgasmo nada mais é do que uma resposta do corpo humano a determinados estímulos. Ao constatarmos o papel central da sociedade masculinista na construção de todos os pormenores nas vidas das mulheres, conclui-se que “Uma vez que a sexualidade feminina se desenvolve nesse contexto de terrorismo sexual [cultura do estupro], nós podemos erotizar nosso medo, nosso vínculo aterrorizado. Toda excitação sexual e liberação não é necessariamente positiva. Mulheres podem ter orgasmos ao serem sexualmente abusadas na infância, no estupro ou na prostituição” (JEFFREYS).

A compreensão de que o orgasmo não é um fim em si mesmo e que sua ocorrência não atesta nada necessariamente, nem preferências naturais sendo satisfeitas nem mesmo um intercurso sexual positivo para mulheres, é de fundamental importância para que o feminismo radical alcance outras instâncias relevantes da vida dessas mulheres.

3 — Perspectiva feminista radical: entendendo o aspecto político do sexo

3.1 — Porque o feminismo radical delibera sobre uma questão que pertence ao campo privado?

Se o feminismo radical discute a opressão sexual de mulheres, sexo jamais poderia ser considerado algo particular, isto é, livre de análise. Entretanto, apesar do reconhecimento de que o prazer sexual para mulheres também é uma construção política, “Na concepção masculina liberal, o sexo foi relegado à esfera privada e visto como um domínio de liberdade pessoal no qual as pessoas podem expressar seus desejos e fantasias individuais. Mas a cama está longe de ser privada; ela é uma arena na qual a relação de poder entre homens e mulheres é atuada de forma mais reveladora” (JEFFREYS).

Compreendendo que a sexualidade feminina foi forjada no modelo de dominação/submissão como um artifício para satisfazer e servir à sexualidade dos homens e que não há nada de inerente neste processo quando dentro de uma conjuntura patriarcal, é irreal supor que este campo da vida das mulheres seria poupado de crítica feminista. Principalmente porque “o domínio masculino sobre os corpos de mulheres, sexualmente e reprodutivamente, provê a base da supremacia masculina […]” (JEFFREYS).

3.2 — Como um sexo destrutivo é percebido de forma prazeirosa pelas mulheres?

Na apresentação clássica da Síndrome de Estocolmo, reféns aterrorizados criam vínculo com seus captores e desenvolvem cooperação submissa com o intuito de sobreviver. É bem possível que esse vínculo seja criado caso o captor demonstre qualquer mínima gentileza. Dee Graham, em Loving to Survive, 1994, “define a violência sexual rotineira que as mulheres vivenciam como ‘terrorismo sexual’. Em face desse terror, Graham aponta, mulheres desenvolvem Síndrome de Estocolmo e criam vínculos com homens” (JEFFREYS).

A habilidade de erotizar a própria subordinação e degradação é um mecanismo de dissociação que tem por finalidade proteger as mulheres da real consciência do sequestro de seus corpos e suas sexualidades. Por conta disso, a sexualidade feminina é construída e manifestada sem, regularmente, jamais ser objeto de estudo e debate por parte dessas mulheres.

3.3 — De que maneira podemos tentar desconstruir ou pelo menos contestar esse padrão sexual nas nossas próprias vidas?

Tendo em vista que a sexualidade das mulheres é moldada pelo olhar masculino, portanto, o olhar pornográfico, é difícil assegurar um método único que viabilize tal iniciativa. Jeffreys afirma que “Questionar-se sobre como esses orgasmos são experimentados, o que significam politicamente, se são obtidos através da prostituição de mulheres na pornografia não é fácil, mas também não é impossível. Uma sexualidade de igualdade adequada à nossa busca pela liberdade ainda precisa ser construída e defendida se nós desejamos libertar as mulheres da sujeição sexual. […] que é impossível imaginar um mundo no qual mulheres são livres ao mesmo tempo que se protege a sexualidade baseada precisamente na sua ausência de liberdade. Nosso impulso sexual deve se igualar ao nosso entusiasmo político pelo fim de um mundo sustentado por todas as hierarquias abusivas […]” (JEFFREYS).

A despeito de toda a complexidade presente na progressiva transformação do pessoal em político, é certo que o estudo feminista, a troca honesta entre mulheres, a experiência adquirida e o próprio amadurecimento político contribuem de forma profunda para esta empreitada, paralelamente dolorida e libertadora.

_________________________
¹ Carmen Lúcia Alves é lésbica, feminista radical, membra da Coletiva Comigo Ninguém Pode (atuante na cidade de Niterói — RJ) e graduada em Letras pela Universidade Federal Fluminense.
² Expressão utilizada pela socióloga para designar a não mais existência de um único aliciador que age aliciando uma única criança de cada vez, e sim a vigência de uma cultura inteira aliciando meninas a se comportarem inapropriadamente de maneira sexual e aliciando meninos a apreciar pornografia gonzo (pornô “sem roteiro”, onde a violência é mais extrema).