Quem diria Seu Nélio — Parte 4

Foto: Brooke Cagle

– E agora? Como vou até lá?

– Deixa eu ver Nélio….E se a gente inventar alguma coisa que fosse vantajosa para o seu pai?

– Gostei demais sô!

– A gente pode falar que ouviu uns homens querendo fazer negócio com seu Damião e iríamos atrás para ver se era verdade.

– Não. Meu pai ia querer vir com a gente.

– E estamos no meio da semana. Seu pai não ia gostar nem um pouquinho de ver cê matando aula.

– Raí! É isso!

– Isso quê?

– A gente vai matar aula amanhã!

– Ta doido sô? Se meu pai descobre ajoelho no milho!

– Que nada! A gente finge que vai para escola e vai pra Mariana.

– Mas como?

– De carroça, uai!

– Que carroça?

– É só pegar uma carona de quem for sair da cidade.

– Não sei não….

– Deixa de ser medroso, Raí.

– Não sou medroso nada! Amanhã vamos até essa cidade encontrar a tal menina.

– “A tal menina” não! O nome dela é Cecília.

Dito e feito. No dia seguinte foram os dois até a cidade arrumar alguém para levá-los até Mariana. Ficaram alguns minutos a procurar alguém quando viram Seu Augusto descarregando mercadoria. Ele também tinha uma mercearia e mais uma na cidade de Ouro Preto. Já que ficava perto de Mariana, resolveu dar uma palavrinha com ele:

– Seu Augusto, o senhor está indo para Ouro Preto?

– Agorinha mesmo mas por quê?

– O senhor podia dar carona para gente? Queremos parar em Mariana.

– Quê cês vão fazer lá?

– Ele quer ver uma garota — disse Raimundo

– Ahhhh tinha que ter uma rapariga nessa história. Cês não era para ta na escola?

– Por favor Seu Augusto! Preciso encontrá-la!

– Ta bom. Já fui jovem também sabia? Vamos, sobem aí.

Acabaram combinando um certo horário para se encontrarem na mercearia do Seu Augusto em Ouro Preto que ele ia levar os meninos de volta. O coração de Nélio batia forte a cada trote que os cavalos davam. Chegaram em Mariana. Seu Augusto se despediu dos meninos e desejou boa sorte a Nélio. Lá foram os dois a procura de Cecília. Na verdade era a procura de Seu Waldir da Silva. Isso dava um certo medo.

Pararam em frente a uma igreja. Nélio lembrou do que Raimundo disse, que se tem alguém que conhece todo mundo esse alguém é o padre. Entraram na igreja e por sorte o padre estava a arrumar a paróquia.

– Boa tarde padre.

– Boa tarde meus filhos. Vocês não são daqui, são?

– Não. Somos amigos da família de Waldir da Silva. O senhor sabe aonde ele mora?

– Sei sim. É só descer essa rua aqui e virar à direita. Você vai ver uma casinha azul com o portão branco. Lá mora a família.

“Estou a poucos metros de Cecília, nem acredito”, pensou Nélio.

– Obrigado seu padre.

Os dois pediram a benção e seguiram até a casinha azul. Ao chegar Nélio ficou parado em frente ao portão tremendo de medo. Medo por encontrar Cecília. Medo de encontrar o pai de Cecília. Raimundo vendo o amigo que nem estátua resolveu bater as mãos para ver se alguém atendia. Apareceu uma menina, aparentando uns 13 anos que falou:

– É você! O menino que gosta de Cecília! Cecília vem cá!

Cecília apareceu. Nélio não conseguia respirar. Olhou para sua donzela e disse:

– Lembra de mim Cecília?

A moça olhou para Nélio com muita mais muita vergonha. Não sabia o que responder. Esfregou suas mãos, olhou para ele e disse:

– Sim.

Nélio não podia acreditar que finalmente tinha escutado a voz de Cecília. Uma voz meiga e suave. Então, toda sua coragem apareceu e finalmente conseguia dizer a ela o que estava sentindo:

– Pode parecer estranho eu ter vindo até aqui mas eu tinha que te ver mais uma vez. Desde que te vi na festa de São João não parei de pensar em você um só minuto. Você é verdadeiramente a menina mais bonita que já conheci.

Cecília ficou encabulada pela declaração mas, mesmo assim, conseguiu falar:

– E você tem a voz mais bonita que já conheci. A música que você tocou me emocionou muito.

– Eu ia cantar outra mas quando vi você na platéia acabei trocando e escolhendo àquela.

– A que fala sobre amor…

-…à primeira vista.

Pronto. Os dois estavam apaixonados um pelo outro. Agora não tinha mais jeito. Raimundo estava meio entediado de escutar toda aquele conversa melosa. Entediado e enjoado. Sentou na grama em frente a uma árvore perto da casa de Cecília e ficou a observar a rua. Vi um homem que dava passos largos e rápido Cada vez mais se aproximava. Estava com uma aparência muito zangada. Percebeu que olhava fixamente para Nélio e Cecília. Ele notou que era uma homem bem mais velho, não podia ser namorado ou pretendente da menina. Tinha idade suficiente para ser seu pai. “Pai? Ai minha Nossa Senhora! Danou-se!”. Dei um pulo e saiu em disparada para falar com Nélio.

Clique aqui para ler a Parte 1, aqui para ler a Parte 2 e aqui para ler a Parte 3.

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