A militância irresponsável que você deveria evitar

Ontem acordei e tinha uma matéria do Apoie a Cena sobre bandas que não devemos apoiar, pegando o gancho no recente relato da ex-esposa do Felipe do Apanhador Só que teve grande repercussão e, merece sim exposição.

Como escritora e profissional de redação e jornalismo, encontrei nessa matéria irresponsabilidades e um amadorismo que pode ser extremamente prejudicial. Prejudical não somente pra quem é exposto, mas para a causa feminista que é deslegitimada com irresponsabilidades, para vítimas reais de abuso e agressão, para as próprias relatantes e, finalmente para as bandas em si que, talvez nem todas devam cair do martírio do julgamento eterno.

Vamos lá:

1 — Ela pediu autorização para todas as relatantes mostradas ali?
Ela sabe se todas aquelas mulheres, depois de muito tempo, algumas mais de anos, queriam ter suas histórias revividas ou se lembrar de casos que podem doer sem nenhum preparo? Elas queriam essa exposição toda repentinamente? Acredito que a garota que fez a matéria em questão não teve essa preocupação, afinal, já teve uma das mulheres que fez um dos relatos esclarecendo as coisas e dizendo que já está tudo resolvido com o ex citado em um caso antigo colocado no texto. Ela não se preocupou com as mulheres ali, com o que elas sentiriam ou com a forma que o psicológico delas poderia ser afetado com essa movimentação toda, ela se preocupou com o frisson que essa matéria causaria, não sei se por amadorismo e ingenuidade ou por ser relapsa mesmo. Se alguma dessas mulheres dos relatos estivesse em processo jurídico contra o ex, poderia inclusive atrapalhar e prejudicar o andamento desse processo. Tá entendendo a gravidade?

2 — Foi averiguado como está a situação atual de todos os casos citados?
Não houve pesquisa ou averiguações para saber como está o andamento das situações relatadas. E se foi tudo resolvido? E se houve mal entendido? E se as partes envolvidas estão de acordo? E se existe andamento jurídico? Em nenhum momento isso foi levado em consideração.

Pra fazer uma matéria como essa, O MÍNIMO que essa autora deveria ter feito é pesquisar com afinco cada caso que ela queria expor. Perguntar para cada uma das mulheres que fizeram os relatos se poderia expor o caso delas, como está cada situação nos dias atuais, se existe alguma cautela a ser tomada, mas ela simplesmente não o fez. Certamente ela nem mesmo se preocupou com os processos que ela e até mesmo as relatantes desavisadas da exposição poderiam tomar. O artigo toda hora sofre algum edit, parece até uma tour do LDRV, tamanha foi a falta de profissionalismo e competência ao realizá-la.

3 — Vale a pena por a vida pessoal de pessoas em xeque de maneira irresponsável?
Existe bandas ali que tem mulheres como integrante, mulheres militantes e responsáveis de verdade, que podem ter sua imagem prejudicada de forma irreversível por causa de histórias sem averiguação ou de coisas que não têm culpa.

É muito delicado falar sobre isso porque hoje recebemos rótulos de biscoiteira e passadora de pano a troco de nada, só por tentar levantar contrapontos que devem sim ser questionados. Então é ciente da dor de cabeça que digo: e se tem pessoas ali que já resolveram as situações, refletiram e mudaram e, mesmo assim vão ser condenados sem chance nenhuma de evolução?

Eu acredito que a intenção de expor problemas que homens causam para mulheres, é gerar consciência e fazer que as pessoas passem a refletir sobre seus atos e mudar. Ninguém deve ser condenado eternamente se estiver disposto a reconhecer erros e melhorar. Se você for um Bolsominion eu até entendo o pensamento de que bandido bom é bandido morto ou que não existe perdão pra erro algum, aí nem discuto.

Caso o macho em questão ainda cause estrago na vida de pessoas, aí ele tem mais é que se lascar mesmo, ser exposto e até preso, mas é esse o caso de todos ali? Temos certeza disso? Será que não estamos amarrando pessoas em postes?

Vi a autora da matéria em seu perfil pessoal comemorando que, por conta desse caso, ela apareceu em uma revista famosa, de uma editora que apoiou a ditadura e é uma grande financiadora da desigualdade social, se é que vocês me entendem. Comemorar que está em uma revista feminina que reforça padrões estéticos e comportamentos, que se apropria de feminismo para ganhar audiência enquanto dá dicas de como ser padrão, não me parece muito coerente. Ela dizia que estava contente com a fama gerada por essa matéria. Mas vale a pena ser reconhecida por um feito tão imaturo e irresponsável?

Esse é o grande problema do feminismo hype: ninguém tem consciência de nada que está fazendo e estraga a luta como um todo. Afeta a legitimidade de quem realmente milita pela causa e, pior, pode fazer com que vítimas sejam colocadas em descrédito devido à essa banalização.

Toda luta social deve ser bem pensada.

Eu sou feminista, antifa, luto com unhas e dentes pelo que acredito. E mais, sou vítima real de abuso e agressão, já tomei soco na cara de namorado e coisas piores. No dia do #meuamigosecreto, relatei pela primeira vez, em um pequeno parágrafo, sem muitos detalhes o que eu passei e perdi amizades, sofri ameaças, ao mesmo tempo que fiquei aliviada por colocar aquilo pra fora. Entendo o que motiva um relato a ser feito e a importância disso. Sempre que posso dou suporte à mulheres que, como eu, foram vítimas, já acompanhei companheiras até a delegacia e em seus processos contra agressores, recentemente escrevi uma matéria para uma revista para tentar dar mais visibilidade á um projeto que dá assistência gratuita para mulheres em situação de abuso e têm dificuldades sócio-econômicas, fui inclusive administradora de um grupo cujo propósito era denúncias de agressão e abusos. Eu não passo pano pra ninguém, já encerrei amizades de anos por constatar que a pessoa não queria mudar. Mas aprendi também que devo me preocupar com as intenções e consequências dos meus atos. Lutas são mais intensas e tem mais camadas do que a maioria das pessoas conhecem e conseguem refletir. Estamos em uma era onde comemoramos marcas pregando diversidade sem pensar que essas mesmas marcas financiam a segregação. Também estamos em tempos de linchamento virtual inconsequente. Vi em comentários no Facebook pessoas dizendo coisas como:

“Mas eu não vou com a cara do povo dessa banda, tomara que se ferrem, nunca gostei”.

Espera aí. Você acha que a pessoa deve se ferrar porque não vai com a cara ou não gosta dela sem motivo sólido? Poxa…

E o pior foi quando vi uma pessoa dizendo tranquilamente que um dos caras era estuprador, quando o relato que menciona esse cara não diz sobre estupro em momento algum e isso nunca aconteceu. Dizer que uma pessoa é acusada de estupro só porque “acha” é de um absurdo sem tamanho. Olha aonde estamos chegando com a ânsia de um bafão!

Qual o nosso direito de sentenciar uma pessoa e malhar um Judas sem nem ter nada concreto pra isso? Precisa bater em cachorro morto?

Como eu já disse, entendo a importância de expor esses casos e aplaudo muitas das mulheres que o fazem, inclusive a ex-mulher do Felipe do Apanhador Só, banda só de homens que se apropria de discurso feminista para ganhar fama. Vejo inclusive como é importante que homens passem a ter medo e pensar duas vezes antes de ser babaca com uma mulher. Também é bom mencionar como é legal a forma que outras pessoas se enxergam nos relatos e a partir daí passam a refletir sobre suas próprias situações abusivas. O que é errado é fazer isso sem pensar em consequências. Recentemente uma amiga foi processada pelo ex-namorado por causa de um relato no Facebook que não tinha nem mesmo o nome dele citado, ela perdeu a causa mesmo depois de recorrer e teve que pagar uma grana imensa pro imbecil. E essa garota tinha pelo menos condições financeiras e uma família que dava suporte, coisa que muitas meninas não têm, por isso toda cautela é necessária nesses casos. Conversar com uma pessoa que tenha noção jurídica antes de expor um caso é uma boa ideia e um bom começo para se proteger. Analisar se terá condições psicológicas e suporte pra enfrentar tudo que possa vir também é uma boa. Muita gente não aguenta a pressão que vem depois e se afoga em depressão. Isso é coisa séria!

Desejo com sinceridade que a casa de macho babaca caia cada vez mais, mas também desejo dar uma segunda chance pra quem se propõe a refletir e mudar. Casos onde envolvem estupro e crimes contra vulneráveis, são mais graves, é de competência judicial e deve ser pago conforme a lei. Mas acredito que tem outras situações fora desse patamar onde uma boa reflexão sobre privilégios e empatia pode ser muito produtiva. Tem que sofrer consequências sim, mas se a pessoa se propor a mudar, por que apedrejar pra sempre? O que a gente quer é que ele pare de prejudicar outras companheiras. Se o cara voltar a insistir no erro, aí é outra história.

Ser papagaio é a pior coisa que podemos ser em tempos de ódio social. Antes de compartilhar uma matéria ou replicar uma informação, é nossa responsabilidade pensar se aquilo é prudente e se as informações são verídicas. Caso contrário seremos mais um agente de disseminação de ódio gratuito. Não julgo quem compartilhou essa matéria porque as mulheres estão cansadas de tanto absurdo vindo de homens que saem impunes devido à fama ou por causa da casca de esquerdomacho bonzinho.

De tudo, pelo menos essa questão da impunidade foi colocada em foco e será mais discutida. Isso é muito bom. Mas as consequências da imaturidade e irresponsabilidade que uma matéria como a do Apoie a Cena podem causar são muito sérias. Entendo a intenção da matéria, ela poderia ser muito boa se feita com responsabilidade, com mais consciência e pesquisa e, principalmente, com considerações colocadas sobre como devemos lidar com aquelas informações ao invés de apenas soltá-las.

Minha intenção escrevendo tudo isso é incentivar que a sejamos mais inteligentes no combate ás injustiças sociais e de gênero, conscientes de que cada ato envolve um todo e que para alcançar resultados eficazes, devemos pensar nesse todo. Deve sim haver veemência, ninguém tem que ficar em cima de muro, mas pensar antes de agir é mais que fundamental.

Toda militância deve ser inteligente, isso o hype nunca vai te ensinar.