Para meu pai, carta 1

Pai, esse era você em meados de 70, transgressor como sempre. Essa foto me dá orgulho, ela mostra um lado seu inegável em mim, que me deixa confusa por não entender como pessoas que conviveram tão pouco podem ter tanto em comum. Nunca me senti confortável pra te chamar de pai porque você aparecia apenas quando lhe era cômodo, ligava pouquíssimo devido à vida louca que você escolheu, os poucos momentos que tivemos juntos foram intensos e eu também nunca fui de deixar ninguém entrar na minha vida de forma fácil.
Pai, você não foi nada pra mim mas também foi tanto, não consigo negar seu sangue, seus traços, sua enlouquecia, sua rebeldia, mas não quero continuar carregando os olhares de quem espera que eu seja você.
Pai, eu tenho tanto medo do peso que me colocam por ser quem você foi, no seu pior e no seu melhor. Teu show foi teu, meu show é meu e cada cortina fecha a seu modo.
Hoje pensei em você, pensei que poderíamos ter conversado mais pra eu entender tudo isso que tá acontecendo na minha vida e saber como lidar com um mundo que não foi feito pra nós… mas não deu tempo.
Eu não quero ser você, pai, eu quero ser sua fã, a autora de sua biografia talvez, ou quem sabe roteirista do seu filme, te homenagear como um artista tão plural e figura amplamente controversa merece, mas não quero ser seus erros, eu quero ser o seu melhor, quero olhar para os seus melhores atos, que foram tantos, que foram inigualáveis. Eu quero me livrar perante o mundo da comparação de ser somente parte sua e passar ser somente minha, com alguns fragmentos seus, apenas sua admiradora.
Hoje tudo isso caiu em mim como uma chuva de granizo: áspera e gélida.
Isso aqui não passa de um ode, um desabafo, escrito pela filha de vida própria (ainda que com consequências) de um grande homem-acontecimento que passou por essa terra monótona, porque no fim das contas, não acredito que pessoas mortas leem cartas.
Escrito durante uma crise de surto e choro que foi cessando depois de alguns comprimidos de Valium. Minha depressão estava atacada, eu estava desempregada, fazendo um bico em uma loja de shopping e lidando constantemente com o pensamento de que eu deveria ter o mesmo fim daquele que foi meu progenitor. Sobrevivi mais uma.
