O que Brasil e Romênia têm em comum?
Dizem que uma foto vale mais que mil palavras.

O rapaz da foto acima está fazendo menção ao marco histórico denominado pela maioria dos romenos como “A Nossa Revolução”. Depois de um longo e sangrento período ditatorial, os cidadãos derrubaram o político comunista Nicolae Ceaușescu do poder no 25 de dezembro de 1989 em Timișoara, cidade próxima das fronteiras húngara e sérvia. “Happy Christmas, Romania!”, bradou a guia turística que contou essa história para o grupo que a acompanhava durante um free walking tour. Eu era uma das participantes do passeio e ali, no coração de București (Piaţa Universităţii), lembrei muito de onde eu vim. Vou explicar o porquê.
Em 31 de janeiro deste ano, o Ministro da Justiça Florin Iordache aprovou, sem o crivo do Parlamento, algumas medidas que facilitam a corrupção na Romênia. E, por coincidência, tais decretos poderiam facilitar a vida de um político muito influente no país (quem sabe o Presidente da Câmara dos Deputados Liviu Dragnea?) que está passando por uma série de julgamentos. Poderia até um roteiro de filme, mas é só baixaria mesmo. Esse artigo aqui da jornalista portuguesa Joana Azevedo Viana explica a situação com mais detalhes.
Obviamente, a população não ficou satisfeita com essa história. Como muitos canais de comunicação descreveram, tratam-se das maiores manifestações políticas no país desde a queda do comunismo no final da década de 80. Ou seja, os romenos não brincam quando o assunto é política. Não só os decretos foram anulados, como o Iordache abdicou do cargo. E, ainda não satisfeitos, os cidadãos prosseguiram com os protestos por todo o país até o começo dessa semana, 19 de fevereiro.
Democracia recente, protestos que reclamam indignação generalizada, vários manifestantes jovens. Onde foi que eu já vi esse cenário?

Em junho de 2013, as ruas do Brasil inteiro foram tomadas por manifestações. A primeira pauta de reivindicação foi “transporte público”. O aumento das passagens de ônibus (não são só 20 centavos) nas capitais de São Paulo e de Rio de Janeiro foi a gota d’água para que milhares de pessoas de todas idades e classes sociais fossem protestar por um preço justo.
Porém, cada vez mais pessoas compareciam às manifestações exigindo cada vez mais pautas diferentes uma das outras. A população não sabia exatamente pelo o que reivindicar primeiro, mas sabia que precisa fazer alguma coisa porque “do jeito que tava, não tava dando mais”. De fato, insustentável. A situação foi um reflexo da instabilidade generalizada em que o país se encontrava (e, sejamos francos, ainda se encontra).
Desde 1985, quando presenciamos a transição democrática depois de 21 anos de ditadura, nós ainda não conseguimos nos estruturar politicamente muito por conta do mesmo motivo que os nossos companheiros romenos também reclamam frequentemente: corrupção. Veja bem, nosso primeiro presidente pós-regime militar foi José Sarney (saudades Tancredo Neves). E, bom, o Sarney é o Sarney (sem comentários).
Essas duas heranças históricas, ao meu ver, é que faz ambos os países tão parecidos. O Brasil tem o Real, a Romênia, o Leu Romeno. Hoje, por conta da desvalorização da nossa moeda, a cotação é muito parecida. Também facilitou muito a minha vinda para cá os custos de vida serem similares. Segundo o site Numbeo (o melhor amigo de um planejamento financeiro para qualquer viagem que você vá fazer), uma refeição em um restaurante barato em Fortaleza, minha cidade natal, custaria em torno de R$17,95. Enquanto eu deveria pagar 17,50 lei pelo mesmo em Pitești, cidade onde moro aqui.
Além disso, pensando um pouco fora do aspecto econômico, Brasil e Romênia também são muito similares se pensarmos em uma perspectiva social. A Romênia compartilha com outros companheiros do leste, como a Bulgária, a questão dos ciganos. Nós temos uma dívida com irreparável com os negros do nosso país por conta de séculos de escravidão. Infelizmente, essas são as pessoas que se encontram em situação de pobreza nos respectivos países.
Isso sem falar que a região romena era um ponto de confluência entre os domínios dos Impérios Russo, Otomano e Austro-Húngaro. Não é de se espantar essa zona estava sempre na agenda de “próxima conquista territorial”. Outro ponto interessante de ressaltar na questão da constituição étnica da Romênia é que sua extensão foi controlada pelo imperador romano Trajano após derrotar os Dácios durante um período do Século I. Esse é o motivo pelo qual o idioma romeno é o único de raiz latina no meio de tantos idiomas de origem eslava. Os romenos conseguem entender português, espanhol, italiano e francês, além de terem uma facilidade enorme de aprender esses idiomas, mas o inverso não acontece por conta do sotaque local.
Já no Brasil nem precisamos nos estender muito quando o assunto é “diversidade”. Nossa população é constituída pela mistura de povos. Indígenas, europeus e negros formam a base da nossa origem, seguido por árabes, japoneses e tantos outros que vieram ao país constituir uma nova vida. Não existe um estereótipo nosso, características físicas que nos identificam no meio dos demais. Qualquer um pode ser brasileiro, de verdade.
Sempre que converso sobre isso com alguém de outra nacionalidade, exemplifico com três histórias: uma das minhas melhores amigas de infância tem sobrenome judeu e perdeu parentes no Holocausto da Segunda Guerra, um amigo da faculdade só fala em castellano em casa já que a parte da família é argentina e outro amigo tem os olhos puxados por causa dos avós chineses.
Todos são brasileiros natos. Acho que eu mesma me encaixo nessa descrição, já que sou lida como árabe por muitos, mas parte da minha descendência é italiana. Na Romênia, é mais ou menos a mesma coisa. Ninguém é muito “cara de um, focinho do outro”. Em geral, as pessoas são caucasianas de cabelos e olhos castanhos, mas tem gente de todo jeito.
Eu jamais poderia imaginar que que um país tão geograficamente distante do Brasil poderia compartilhar tantas semelhanças. Meu raciocínio sempre seguia a linha de pensamento dos países sul-americanos ao fazer qualquer associação, muito por conta do populismo do século XX que influenciou o nosso continente. Mal saberia eu que a Romênia também seria um país que, segundo uma pesquisa realizada pelo instituto britânico YouGov, é extremamente favorável aos ideais populistas. Um dos maiores índices da União Europeia. Seria uma influência da Moldávia, vizinha ex-república soviética? Ou resquícios do comunismo, talvez?
Quem sabe, mas para explorar essa tema eu ainda preciso conversar com mais romenos e pesquisar muito nos livros de história.
