Bode 04 — A Várzea

“shallow focus photography of white goat” by Edgar Chaparro on Unsplash

Como vou classificar o governo Bolsonaro como uma várzea, neste ponto tenho de desde já pedir desculpas aos valentes jogadores de futebol amador por isso. Não é este jogo no campinho de terra batida ao que me refiro, é uma várzea enquanto forma de ser, de improvisação mal-feita e mal-acabada, da várzea real surgiram craques, da várzea moral surgem, bem, Bolsonaros.

E não é uma questão de falta de educação formal, e nem é algo concentrado apenas na figura desalinhada do presidente eleito, é a várzea da equipe em volta, o que apelidei de Comando Maluco, espero que não espalhe muito o apelido, senão tem de pagar royalties. Enfim, além do método já utilizado em governos populistas pelo mundo nos últimos anos de confundir a opinião pública com firehosing (que ainda não achei uma boa tradução, mangueirão fica estranho), há a várzea.

Que Bolsonaro nunca se animou a realmente entender como funciona o poder público é um fato diante de tantas falas que já proferiu, mas como ele mesmo diz, ‘qualquer coisa tem meu Postopiranga, talquei’. E lá vão os jornalistas procurar saber quais serão as ideias deste braço direito e no futuro o piloto do Megazord da Economia que será criado em 2019, o Paulo Guedes.

Pois que, no meio da entrevista, o mesmo solta ‘façam o seu orçamento que eu faço o meu’ (sobre o orçamento de 2019). Isto daqui, caro bodespectador, cara bodespectadora, é o básico do básico de administração pública, de orçamentos serem elaborados no exercício anterior para o próximo, aquela sopa de letrinhas de LDO, LOA e PPA. Estas peças orçamentárias existem para garantir que obras não parem no meio do caminho e que a máquina pública continue girando mesmo em momentos de transição como agora.

‘Ah, mas ele não precisava saber’. Estamos falando do futuro superministro da Economia de um país de 200 milhões de pessoas e líder regional, e me aparece o que? Isso mesmo, várzea. E o duro é que neste caso nós somos a bola.