Existem alguns problemas quando essa discussão jogos X arte aparece, Thais. O seu texto foi interessante em tocar em vários deles, como a evolução do conceito do que é certo ou errado representar pela pintura, mas ele deixa algumas lacunas que me proponho a exemplificar a seguir.
Um questionamento pertinente com o qual entrei em contato recentemente foi o seguinte: a escultura é considerada uma forma de expressão artística. Toda escultura, portanto, é arte? Uma estátua assinada pelo Michelangelo é mais arte do que as esculturas de argila da minha tia aposentada? Se video-games são arte, então todos os jogos são também?
Esse tipo de questionamento dá origem à essa segregação tão conhecida em campos como, por exemplo, a música. Até pouco tempo atrás o jazz foi considerado uma forma “impura” de manifestação artística, sofrendo o mesmo preconceito (de ordem política/social, diriam alguns) que o funk sofre hoje. Mas, com o passar do tempo, o jazz foi ganhando status dentro do mundo musical até ser considerado não apenas música, como uma forma refinada de manifestação sonora, digna de louvor no meio acadêmico (se o paralelo com o funk continuará, só nos resta aguardar para descobrir).
Meu ponto é que talvez estejamos utilizando a chave errada para tentar interpretar o conceito de video-game no paradigma artístico. A arte sempre esteve sujeita a historicismos para ser “definida” ou classificada, como se houvesse de fato uma evolução natural nas técnicas, ferramentas e modos de representação. Uma manifestação historicista é, por exemplo, a ideia de “realismo”: quanto mais realista é uma arte, mais “evoluída” ela se mostra. Como você mencionou no texto, o Renascimento goza dessa reputação de ser o motor da arte ocidental porque seu ideal representativo estava na perspectiva, profundidade, retratos fiéis e outras coisas que tornavam as obras mais realistas do que o antecessor medieval na pintura.
É claro que isso mudou nos movimentos seguintes: o realismo deu lugar à ideia de expressão subjetiva, mas novamente condicionado ao historicismo da ideia que perpetrava o que era “correto” na arte. Já não importava o retrato fiel, mas sim a expressão do sentimento do artista, ou do desafio ao academicismo. O erro comum é creditar essa evolução (sempre que o termo “evolução” aparece é para provar que ele está errado, ok? hehe) se deu porque a máquina fotográfica produzia imagens mais realistas do que o pincel e a tinta, atribuindo, portanto, à técnica um papel definidor do que é arte ou não.
Quando a discussão sobre games-arte surge, a técnica é geralmente invocada como uma forma de classificar essa forma de expressão como pertencendo às prateleiras do imaginário artístico. “O video-game é a evolução do quadro ou do filme porque permite ao observador estar inserido na obra”, ou “O video-game é arte porque permite que experiências estéticas sejam vividas com tanta intensidade quanto os europeus vitorianos viviam ao assistir ao teatro”. Se o video-game é invocado como uma evolução natural de alguma coisa para ser classificado como arte, eu me inclino a duvidar dessa classificação, porque os desdobramentos dela são meio engraçados: cria-se um território de disputa sobre qual jogo é mais arte que o outro. Por que Journey é artístico enquanto Angry Birds é só um passatempo de smartphone? Aparentemente, os jogos que mais tentam se posicionar na categoria de arte são aqueles que fazem questão de sacrificar mecânicas ou de se restringir a estéticas experimentais ou de simplesmente passarem seus conteúdos de forma obscura e pouco acessível em comparação com os jogos populares, intuitivos ou com “gráficos foda”. Tudo isso para demonstrar que dentro do que entendemos por “jogos” existem categorias mais valiosas que outras. Se o debate do games X arte serve para isso, é porque estamos debatendo errado.
