O artesanato na história da arte ocidental

Não é de hoje que o ser humano busca racionalizar possíveis definições concretas para descrever o que é arte e o que é artesanato. No que se assemelham e no que se distinguem. Onde estão os limites para cada um e onde ambos se tangenciam. Tratar conceitos subjetivos com razão em excesso proporciona, não apenas uma definição plausível, como uma gama de interpretações cabíveis a cada período, universo ou contexto em que essas são engendradas.

Para analisar algumas dessas diversas interpretações, alguns textos-guia serão utilizados como fundação às reflexões aqui descritas. São eles: “Gravura em metal” por Marco Buti, “Alguns ofícios” por Víctor Grippo e “O artista e o artesão” por Mário de Andrade.

Para Buti, a arte e o artesanato diferem quanto à poética presente na primeira e à técnica na segunda. Para Mário, uma não existe sem o outro e Grippo (1976, p. 370) funde ambos logo na primeira frase de seu texto:

“Quando o homem construiu sua primeira ferramenta, ele criou simultaneamente o primeiro objeto útil e a primeira obra de arte”.

A arte se manifesta na linguagem de seu criador. Está intrinsecamente ligada às referências de quem as concebe. Ela não surge do nada nem do além, mas sim como o produto de intersecções de experiências, vivências e visões entre outros elementos que seu executor foi submetido previamente.

Já o artesanato porta-se de diversas maneiras em contextos diferentes. A figura do artesão na era pré-industrial se resumia a um sujeito que fabricava produtos utilitários manual e repetitivamente.

Der Schuhmacher por Ferdinand Hodler, 1878. Sapateiro-artesão confeccionando seu produto.
Fonte: http://goo.gl/xMysBq

Com a evolução do modelo trabalhista, surgiram as linhas de produção manufaturadas e em seguida as primeiras indústrias. O resultado da modernização do século XVIII modificou e redimensionou a figura do artesão. Nos dias atuais, o título de artesão é popularmente atribuído ao indivíduo que reproduz, em pequena escala, uma determinada peça de criação geralmente de cunho representativo de alguma prática, costume regional ou determinada crença.

Mestre Vitalino, artesão nordestino que retratou a cultura do Nordeste brasileiro em suas esculturas de argila.
Fonte: http://goo.gl/IqGYpd

Por fim, como já mencionado, há o conceito do artesanato quanto à aptidão técnica. Buti (2002, p. 20) afirma em seu texto “Gravura em metal”:

“Uma realização técnica é também cultural, na medida em que permite manifestar no plano concreto o que existia apenas potencialmente, como ideia, teoria ou projeto, possibilitando então pensar coisas que não podiam ser pensadas”.

É sob esta última faceta descritiva que o presente texto discorrerá.

As pluralidades do artesanato através da história ocidental

Desde os primórdios da humanidade, as manifestações criativas individuais só puderam vir à tona graças a algum tipo específico de técnica. No início, tais técnicas surgiram instintivamente de acordo com o estilo de vida de seus idealizadores, a partir das ferramentas desenvolvidas e superfícies disponíveis.

Na arte pré-histórica, os registros místicos e cotidianos foram retratados através de pinturas e desenhos nas paredes das cavernas e esculturas tanto de caráter religioso como utilitário. Utilizando-se de carvão, minerais triturados, sangue, argila, entre outros materiais que forneciam o pigmento, os humanos pré-históricos foram os precursores do conceito de registro cultural através de técnicas manuais. O domínio da técnica foi o catalisador para a sua disseminação e desenvolvimento através dos anos subsequentes.

Pintura pré-histórica de pastores e gado, na Argélia. 
Fonte: http://goo.gl/HC4P9f

No Egito antigo, a superfície de maior profusão da manifestação artística da época continuou sendo na verticalidade das paredes de suas construções. Porém, novas técnicas foram descobertas e aplicadas em edificações, esculturas, objetos usados em rituais religiosos, entre outros tantos produtos resultantes da materialização cultural egípcia.

Cena de caça nos pântanos (Novo Império). Museu Britânico, Londres.
Fonte: http://goo.gl/KphtXx

Já na antiguidade greco-romana, a técnica tornou-se protagonista no processo criativo. Artista e artesão eram um só. A technê grega designava a capacidade de criar determinado artefato por meios racionais. O técnico era o indivíduo executor de determinado trabalho, realizando-o com a primazia necessária à época. Seu maior objetivo era compreender e dominar os princípios das etapas de produção. O conceito de arte era semelhante ao da técnica, possível de ser aprendida, aprimorada e ensinada. A arquitetura e a escultura foram as manifestações artísticas de maior profusão neste período, descobrindo-se novos meios de aperfeiçoamento dos estágios de elaboração de ambas.

Doríforo por Policleto, 450–440 a.C. (Museu Arqueológico Nacional de Nápoles). Cópia romana. 
Fonte: https://goo.gl/f3YH5Y

Na Europa da Idade Média, com a consolidação e ascensão da Igreja Católica, a produção artística voltou-se, quase que estritamente, a ela. Pinturas, esculturas, construções e livros eram influenciados e supervisionados pelo clero. A técnica verteu-se em novas superfícies resultando em iluminuras, painéis, vitrais, afrescos e num novo conceito — que teve como personagem principal, a arquitetura — o estilo gótico.

Vitral na Catedral de Notre-Dame de Paris. Paris, França.
Fonte: https://goo.gl/eZx6IU

A Renascença surge com a retomada da racionalização da Antiguidade grega e com o conceito do antropocentrismo. A técnica renascentista trouxe imensos avanços para a práxis artística. A representação da perspectiva, o uso da geometria, as pinceladas imperceptíveis, o realismo intenso na pintura e na escultura foram as principais manifestações da técnica neste período. Todavia, foi a invenção de uma nova prática que revolucionou o cenário artístico e permitiu o aparecimento das diversas técnicas da pintura nos anos e movimentos consecutivos: a pintura a óleo. Atribuída aos irmãos Van Eyck, (com certas controvérsias), a tinta a óleo permite a utilização de superfícies não rígidas (como a tela em tecido, com sua invenção também atribuída a esse período), maior profusão de cores e brilho. Além de permitir retoques, pois sua secagem é mais lenta em comparação a outros tipos de tinta.

A Escola de Atenas, Afresco por Raffaello, 1506–1510 (Palácio Apostólico, Vaticano). Esta obra traz os principais conceitos e técnicas renascentistas: perspectiva, geometria e racionalização.
Fonte: http://goo.gl/BW9KQS
Madonna com anjos por Filippo Lippi, cerca de 1410 (Gemäldegalerie, Berlin). É uma das primeiras pinturas sobre tela que sobreviveu através anos.
Fonte: http://goo.gl/PFGO18

A partir de então, a técnica transformou-se de tantas formas que torna-se um desafio complexo enumerá-las e defini-las. É em consequência da técnica que se pode visualizar e compreender a evolução histórica da arte (ANDRADE. 1938, p. 2). É através das mutações técnicas que são definidos escolas e movimentos. Assim, se faz possível a dedução e categorização de determinada obra por qualquer indivíduo, quando devidamente embasado no estudo da evolução das técnicas e ofícios.

Impressão, nascer do sol por Claude Monet, 1872 (Museu Marmottan, Paris). Considerada a obra mais importante do impressionista Monet. A técnica predominante do movimento Impressionista são as pinceladas visíveis e marcadas.
Fonte: http://goo.gl/dMGJYB
Guitars por Pablo Picasso, 1912–1914 (MoMA, Nova Iorque). No Cubismo, a técnica da colagem foi largamente usada por Picasso e Braque.
Fonte: http://goo.gl/gDqiJr
Autumn Rhythm (Number 30) por Jackson Pollock, 1950 (Metropolitan, Nova Iorque). A técnica chamada dripping caracterizou diversas obras de Pollock.
Fonte: http://goo.gl/ZJA5Lw
13/3 por Sol LeWitt, 1981 (Metropolitan, Nova Iorque). Com a liberdade trazida pelas ideias que compõem a Arte Contemporânea, novos materiais e técnicas começaram a ser amplamente exploradas.
Fonte: http://goo.gl/8Ng1RN

Porém, o conceito de técnica desenvolvido no termo “artesanato” perdeu-se ao longo da história e acabou popularmente banalizado. O que tem sido concebido como artesanato atualmente se restringe à produção de souvenirs de determinada região. Alguns teóricos buscaram trazer seu significado antigo à tona. Como Mário de Andrade quando escreveu em seu livro “O baile das quatro Artes”:

“O artesanato é uma parte da técnica da arte, a mais desprezada, infelizmente, mas a técnica da arte não se resume ao artesanato. O artesanato é a parte da arte que se pode ensinar. […] O artista que não seja ao mesmo tempo artesão, ou seja, artista que não conheça perfeitamente os processos, as exigências, os segredos do material que vai mover, não é que não possa ser artista (psicologicamente pode), mas não pode fazer obras de arte com esse nome. Artista que não seja bom artesão, não é que não possa ser artista: simplesmente, ele não é artista bom. E desde que vá se tornando verdadeiramente artista, é porque concomitantemente está se tornando artesão”. (ANDRADE, 1938)

A arte difere-se do artesanato quanto ao intangível. O ofício do artesanato faz-se material quando há possibilidade da técnica ser concebida de maneira pedagógica (ANDRADE. 1938, p. 2). Já uma das definições possíveis para o que é arte estaria no fato de possuir inspiração pessoal intrínseca a seu criador, o que não é passível de ser ensinado ou perpetuado, sendo impossível qualquer forma de cópia ou imitação (GREENBERG. 1962, p. 117). Cada criador executa seus trabalhos conforme as exigências de sua própria linguagem (BUTI. 2002, p.11).

Feitas as devidas reflexões, cabem às próximas linhagens de apreciadores da arte, zelar pelo real significado do artesanato e perpetuá-lo como ofício oriundo da criação e da manifestação do ser. Pois como escreveu Grippo (1976, p. 371):

“Talvez, em algum momento, o esforço contínuo e concertado melhore o homem e a sociedade, e a coincidência entre arte e trabalho, formando um único ritual humano, seja novamente válida […] Agora, em uma época em que existem insensatos que se gabam de ‘não fazer nada com as mãos’, esperamos outra época em que o homem, absolvido, recupere o amor pelos ofícios e, exercendo sua consciência, possa reduzir a distância entre conhecimento e a ação”.