Avulsos

Como anunciado em meu post anterior, resolvi escrever algumas linhas a respeito de Cada um vive como quer, filme de 1971 dirigido por Bob Rafelson e estrelado pelo então promissor Jack Nicholson. Jack interpreta Robert, um trabalhador da exploração de petróleo no sul dos Estados Unidos. Ali ele vive um relacionamento abusivo com a insegura Rayette, manipulada e traída, mas inseparável dele — e Robert parece ser incapaz de se separar dela.

O protagonista vive entediado em sua rotina de trabalho, cervejas compartilhadas com seu amigo Elton, sexo casual e discussões com Rayette. Numa manhã incomum, os dois amigos encontram-se presos num engarrafamento no caminho à refinaria e Robert salta de seu carro para tocar um órgão armazenado num caminhão de mudanças. O gesto, visto como uma simples travessura por seu colega, revela um lado ainda desconhecido do protagonista.

A rotina modorrenta de Robert se arrasta até o dia em que visita sua irmã (também pianista) e é informado a respeito da condição delicada de saúde de seu pai. Ainda que contrariado, o filho reconhece que deve visitar o patriarca para fazer as pazes com ele antes que seja tarde demais para isto. Então ele parte com sua namorada Rayette e viaja rumo ao norte do país, no frio estado de Washington para uma reunião na vasta residência dos Dupea. Lá Robert é confrontado por suas origens aristocráticas, sua carreira musical renegada e pela presença de seu pai — imponente, ainda que o homem já encontre várias limitações. Um dos momentos mais marcantes do longa é o monólogo de Robert diante do pai, com alguns improvisos acrescentados à atuação e lágrimas imprevistas.

Robert é um homem incapaz de se encaixar. Não se adapta ao “berço de ouro” no qual foi criado, mas também não é feliz na vida que encontrou fugindo de casa, com um trabalho braçal. Aliás, é mostrado trabalhando num campo de petróleo, mas é mencionado que ele já perambulou por outros lugares, com outras ocupações. Seu relacionamento o faz infeliz, assim como as mulheres com as quais se envolve — e também não abre mão da companhia de Rayette, ainda que ela precise lutar muito por migalhas de atenção do namorado.

Ele é como Christopher McCandless, ou “Alex Supertramp”, rapaz cuja vida foi retratada no filme Na natureza selvagem: Alex fugia de sua casa, das pessoas com quem se encontrava e do Alasca, destino desejado durante toda sua epopeia. Também é similar a Bernard Marx, protagonista de Admirável Mundo Novo, livro de Aldous Huxley.

Este livro sempre é celebrado pela forma como prevê uma distopia hedonista, industrializada e na qual não há espaço para aborrecimentos ou pensamentos negativos; porém, o que sempre me prendeu a esta obra é a forma como Bernard não se encaixava a este paraíso na Terra construído pelo homem. Especula-se que Marx é diferente física e mentalmente por alguma falha em sua geração, como a adição de álcool ao útero artificial no qual se desenvolveu. Seria este o motivo para ele ser mais baixo, franzino e não tão lascivo quanto os outros Alfas, a classe à qual ele foi fabricado para pertencer.

O que vejo de mais perturbador nestas obras é a incapacidade de fazer parte. Não há uma rebeldia ou um esforço para ser um outsider, inclusive porque isto poderia levar o personagem dum grupo predominante a um outro menor ou opositor. Trata-se duma inaptidão, de até haver a intenção de ser um entre muitos e não conseguir, como se isto se tratasse de alguma façanha.

Sozinhos contra o mundo, estes personagens não possuem a quem recorrer para conseguir alguma cumplicidade ou compreensão — ao menos não compreensão plena. Agem estoicamente em suas jornadas, mesmo marginalizados por mera inconformidade involuntária. Ainda assim, marcham adiante, numa formação invisível e desorganizada.