Borracharia

Era 1990 e pouco, talvez 1994. Saí com minha irmã do colégio no qual estudávamos e entramos na Kombi que entregaria umas dez crianças em suas respectivas casas. Molecada reunida, todos a postos e saímos, mas não fomos muito longe. Imagino que devido a um pneu furado enquanto estávamos em aula, paramos com a Kombi do Tio Nelson™ numa borracharia bem próxima à escola. Não vimos nenhum conserto, mas ele desceu e ordenou de forma enfática que todos continuassem ali dentro. Ainda não havia tanta preocupação com a violência, mas ali estávamos num local movimentado (perto da rua Doutor Sales de Oliveira, na Vila Industrial) e é difícil pastorear uma manada infantil, principalmente sob o risco de atropelamento coletivo.

Muito bem, ficamos todos nós na Kombi até que alguém reparou em algumas imagens nas paredes da borracharia. Ao mesmo tempo em que era difícil distinguir com detalhes o que estava em cada pedaço de papel, todos sabiam a proveniência de cada um deles: REVISTA DE MULHER PELADA (o nome do gênero literário é isso aí tudo). Apesar da dificuldade de acesso, todo mundo ali possuía alguma ideia, ainda que vaga, de como era composto o corpo duma mulher nua e de como se distribuíam curvas, partes côncavas e convexas, protuberâncias e pêlos — sim, eles eram itens de série da anatomia feminina antes do Brasil conquistar o tetra. Mesmo assim, a presença daquelas imagens recortadas ali longe pareciam algo bastante adulto, até uma aventura proibida, mesmo que mal desse para dizer o que causava todo aquele reboliço dentro da Kombi.

Vale ressaltar que estes eram outros tempos, quando ainda não havia canais pornográficos na televisão, vazamentos de “nudes” (nem envio dos mesmos, para começo de conversa), desatenções intencionais com decotes… ok, estes existiam, mas não havia câmeras com vários megapixels para capturá-las e nem havia a internet, que reuniu tudo isso e muito mais.

Vários anos se passaram desde então. A internet estendeu seus ramos de entretenimento, notícias e putaria sobre toda a Terra (e ao espaço?) e acabou com o trabalho arqueológico necessário para encontrar as fotos daquela musa distante da peãozada. Facilitou muito a vida de toda a gente o fim do constrangimento de passar por um tête-à-tête com o dono da banca de jornais a cada compra de Playboy ou opção mais barata/explícita. Enquanto isso, as mulheres deixavam de ser decoração em inúmeras borracharias para se tornarem clientes das mesmas. E as fotos aos poucos sumiram das paredes, talvez escondidas, guardadas, destruídas ou simplesmente passadas adiante.

Chegamos a 2016 e tudo isto aconteceu — para nos atermos apenas ao assunto do post. O mundo mudou, a sociedade mudou, a indústria pornográfica mudou. E só agora que foi me ocorrer: por que diabos era necessário a tantos borracheiros manter recortes de mulheres peladas nos locais de trabalho?

Aquele acervo todo era destinado a um momento de transcendência quando o Juracir poderia, entre um reparo e outro, ponderar sobre a grandeza da criação divina manifestada de forma condensada no corpo da Mara Maravilha? Talvez haviam gatilhos mnemônicos ativados pelas imagens: “Qual é a calibragem do pneu da Brasília mesmo?………………… Vou olhar a bunda da Mari Alexandre pra ver se eu lembro”, reflete o senhor Joaquim. Ou havia alguma forma de competição, velada ou aberta, de quem possuía a melhor coletânea? Um colecionador de discos não se gaba de possuir uma cópia de The Dark Side of the Moon, assim como a repetitiva figurinha dum volante esdrúxulo vindo dum país gélido e inóspito não é disputada para completar álbuns da Copa do Mundo e um borracheiro talvez não visse como grande aquisição uma foto de Gretchen, que estava em todas as paredes de borracharias do Brasil — existiam borracheiros hipsters? Enfim, voltemos ao que é mais palpável. Talvez eu esteja apenas levando muito longe a merecida pausa para o café em que o Tião tinha uma oportunidade para acender um cigarro e se esquecer de prazos, crise, inflação galopante, problemas familiares e sabe Deus mais o quê.