Mad Men — Primeira metade

Cheguei ao fim da terceira das sete temporadas de Mad Men — na verdade, três temporadas mais um episódio da quarta. É mais ou menos metade da série e, por isto, pensei em fazer este post para comentar algumas impressões e previsões da série até aqui. Normalmente acompanho apenas séries concluídas, o que me garante a segurança de que não acompanharei uma história cortada pela metade. No entanto, perco o direito de reclamar de spoilers devido ao longo intervalo entre a primeira exibição dos episódios e o dia em que o assisto, além da propagação de referências e menções devido à sua popularidade — portanto, se você chegou até aqui, imagino que já assistiu a série ou não se incomoda com estes spoilers.

Primeiramente, preciso explicar o porquê de ter começado a assistir Mad Men. Sim, esta foi uma série aclamada por público e crítica, premiada em várias ocasiões e mais uma pérola da nova era das produções televisivas. Algumas outras séries compartilham destas mesmas características, mas o que mais especificamente me prendeu foi o que eu lia a respeito do protagonista, o publicitário Don Draper (interpretado por Jon Hamm). Descrito como um exemplo de estoicismo, força, liderança e presença masculina entre mulheres, decidi dar prioridade a esta série sobre outras disponíveis para me distrair um pouco, mas também para estudar este personagem.

Comecei então a assistir a série. Para quem não a conhece, ela trata sobre a forma como Don equilibra seu trabalho como publicitário na agência nova-iorquina Sterling Cooper e seu casamento com Betty (January Jones) — e seus casos extraconjugais — no início dos anos 60. Don é, de fato, uma figura imponente: sua posição de liderança dentro da agência, aliada à sua assertividade (que beira a agressividade), transformam-no numa pessoa arrebatadora. A forma lacônica como fala sobre seu passado e sobre si mesmo faz com que ele seja misterioso e aparente não possuir pontos fracos.

Don Draper e sua pupila, Peggy Olson

Muito do que resumi neste último parágrafo me parecia um pouco familiar e logo descobri porque: a série havia sido criada por Matt Weiner, cujo trabalho anterior havia sido a excelente The Sopranos. Nela acompanhamos a figura central, o mafioso Tony Soprano, em seu esforço de equilibrar suas duas famílias, a de casa e a do crime.

Nestas três primeiras temporadas seguimos Don e outros personagens menores em seus conflitos cautelosamente explosivos em atritos surgidos entre sócios, redatores e gerentes de contas com clientes. Além destes conflitos, há também uma série de affairs de funcionários com pessoas de fora da agência e também de dentro dela. Alguns destes casos acabam levando o casamento de Don com Betty ao fim, quando ela pede a separação para se unir a Henry Francis (Christopher Stanley). Num plano mais macro, acompanhamos a compra da Sterling Cooper por uma companhia inglesa e a posterior separação da agência e de suas cabeças, com a criação da Sterling Cooper Draper Pryce. No ponto em que parei da série, a nova sociedade luta para sobreviver com um cartel limitado de clientes e Draper, recentemente divorciado, ensaio o retorno à vida de solteiro com ao se encontrar com a amiga dum amigo.


Como mencionado, minha motivação principal para acompanhar esta série era seu protagonista, Don Draper. De maneira geral, tenho de concordar com o perfil que eu havia montado por análises e comentários de outros internautas. Seus momentos de intempestividade, no entanto, fazem com que ele pareça um tanto volátil e até incapaz de controlar seus nervos — algo incoerente para um suposto exemplo ideal de frieza e comando. Logo no primeiro episódio ele discute com uma cliente e diz que não aceita que uma mulher fale assim com ele, uma forma bem clara de apresentá-lo ao público. Mais tarde ele dá sinais mais sutis de hesitação e fraqueza, principalmente quando encurralado ou quando precisa ocultar seu passado ou sua verdadeira identidade.

Don em momento pouco brilhante

Se Don foi um pouco decepcionante ao não ser o ícone que eu havia construído com a soma de visões e opiniões alheias, o gerente de contas Peter Campbell (Vincent Kartheiser) é uma surpresa positiva pela forma como seu personagem é desenvolvido. Ao terminar os dois primeiros episódios minha impressão era literalmente de o rapaz ser um psicopata, mas aos poucos ele se torna mais humano e cativante. Vincent se destaca entre muitas atuações insossas na série e cumpre bem o papel dum jovem adulto atormentado pelas expectativas quase sufocantes de sua família influente em Nova Iorque e também por seu casamento com Trudy (Alison Brie), cuja forma de companheirismo também evolui no decorrer dos episódios.

Pete Campbell dança com sua esposa num dos seus momentos mais simpáticos

Peggy Olson (Elizabeth Moss) também desperta a atenção do telespectador com sua trajetória. Inicialmente uma secretária assustada com o cotidiano do escritório e deslumbrada com as possibilidades oferecidas por estar em Manhattan, ela passa a trabalhar como redatora e, numa interpretação cada vez mais à vontade com o papel, imagino que sua carreira continuará ascendente nas próximas temporadas, ilustrando a participação feminina crescente no mercado de trabalho no período retratado na série.

Duas ausências que devo lamentar neste post: Ken Cosgrove (Aaron Stanton), colega e competidor de Peter Campbell. Onde parei na série, ele foi deixado para trás e preterido na formação da nova agência — mas aparentemente ele retorna em futuros episódios, pelo que pude constatar por imagens que circulam pela Internet. A outra é a do ilustrador Salvatore Romano (Bryan Batt), demitido depois deste recusar uma investida sexual do dono do maior anunciante da Sterling Cooper. Já li que Sal realmente não retorna a Mad Men, então a abordagem de sua homossexualidade reprimida e seu relacionamento com sua esposa não têm continuidade na série.


Já registradas minhas impressões, encerro com alguns palpites do que imagino que acontecerá. A queda duma figura representativa de Don na abertura de cada episódio, além de algumas referências mais ou menos sutis (como quando a filha de Don lê trechos de A história da ascensão e queda do Império Romano, de Edward Gibbon, para seu avô materno) são indícios do inevitável ocaso da decadente, hedonista e entediada geração de Draper; a ser substituída pela contestadora, motivada e “faminta” geração de boomers como Peggy Olson, Peter Campbell e Harry Crane (Rich Sommer). Peggy, aliás, deve passar pela maior ascensão entre estes e outros nomes: em parte devido às suas origens mais modestas, mas cientes da miríade de possibilidades que podem e devem ser aproveitadas; como também pela forma como digere ou até cospe de volta os desaforos e ofensas que esperam que ela engula.

Sally Draper e seu avô, durante a leitura sobre a queda dos romanos