Mad Men — Segunda metade

Demorei mais do que eu havia imaginado, mas terminei de assistir a segunda metade da série Mad Men. Eu havia escrito um post a respeito da primeira metade e agora compartilho meus valiosos pitacos sobre a segunda metade.

Quando escrevi o post anterior, a agência Sterling Cooper Draper Pryce (SCDP) estava recém-formada e saía dum quarto de hotel para um escritório pequeno. No decorrer das quatro últimas temporadas houve ainda uma fusão e a compra por uma gigante da publicidade, a McCann Erickson — menciono isto porque é relevante para compreender o final da série. Don Draper havia acabado de sofrer o divórcio de Betty e estava prestes a entrar numa sequência de pequenos casos até se casar com Megan, uma secretária cujo sonho de trabalhar como atriz a levou a Los Angeles — e ao divórcio de Don.

Megan e Don na casa de Los Angeles. Mesmo com cenas em ambientes fechados, LA sempre demonstra espaços mais amplos e abertos do que os conjuntos de edifícios de NY

A cidade da costa oeste americana não é citada apenas graças à residência de Megan. A ensolarada, exultante e cheia de vida Califórnia aparece como um contraponto à cinzenta e sisuda Nova Iorque anterior à revitalização motivada pelo prefeito Rudolph Giuliani. No estado da costa oeste americano Don se mostra cada vez mais à vontade com sua verdadeira identidade, inclusive sendo chamado por algumas pessoas de seu passado de “Dick”, seu nome de batismo.


Nos últimos episódios, quando a colossal McCann Erickson já absorveu a modesta Sterling, Cooper & Partners, Draper abandona uma reunião e o escritório ao se dar conta de que é apenas mais um diretor criativo entre tantos: além de perder o papel de líder que possuía, ainda teria de começar novamente toda uma escalada rumo ao topo da hierarquia. A saída resulta numa travessia do país, com passagens e bicos em diferentes estados de forma que lembraria o livro On the Road, de Jack Kerouac — inclusive mencionado em algum episódio. A viagem acaba meses depois na Califórnia, onde Don se encontra com sua “sobrinha” Stephanie e é levado a um retiro espiritual. A princípio defensivo, Draper tem dificuldade de digerir seus conflitos e a notícia da morte iminente de sua ex-esposa Betty.

Após um telefonema para Peggy que mescla despedida e confissão, Don sofre uma crise de pânico e é levado a uma atividade em grupo, onde ouve o emocionante depoimento dum homem com o qual ele se identifica. Leonard conta como se sente ignorado em seu trabalho e até em sua casa. Sente-se uma nulidade e diz que não é interessante como outra pessoa da roda. Diz também que espera amor das pessoas ao seu redor e talvez até tentem amá-lo, mas ele nem sequer sabe o que é isso e como reconhecer este amor. Dick, o homem de passado horrível e mantido aprisionado na escuridão por Don, vem à tona e os dois homens se abraçam. Finalmente Don entra em paz consigo mesmo e com seu passado.

Como comentei no post anterior, o idealizador da série é o mesmo de The Sopranos. Esta série teve um final polêmico por ser incompreensível à maioria do público e com Mad Men não foi muito diferente. As últimas imagens da série são um exercício de meditação de Don com um corte direto para um anúncio da Coca-Cola. Houve muita especulação sobre o que seria isso: se o anúncio, considerado um dos mais marcantes da década, seria uma metáfora da paz de espírito de Don ou se representava o encontro da cultura hippie com o materialismo e a publicidade. Porém, a interpretação correta foi dada pelos próprios envolvidos, que confirmaram que o anúncio seria uma criação de Don após este voltar a Nova Iorque e à McCann Erickson — a agência autora da campanha na vida real. O vídeo abaixo é o próprio anúncio.

Quanto ao restante do grupo de personagens, a predominância é de finais felizes: Joan decide abrir sua produtora para não ser subordinada a ninguém e não ser mais assediada. Peter Campbell assume um alto cargo numa companhia aérea e retoma seu casamento com Trudy. Roger Sterling, já sem o poder que possuía em suas agências anteriores, deixa de correr atrás de mocinhas e decide se casar com Marie, a mãe de Megan. Peggy rejeita a oportunidade de ser sócia de Joan para que sua vida pessoal possa ser aproveitada, inclusive com a percepção de sua paixão por Stan Rizzo. Aliás, preciso mencionar que em alguns momentos vi minha mãe representada na figura de Peggy. Embora ela já não esteja aqui e eu não possa confirmar, imagino que ela passou por muitos desafios similares ao se aventurar numa cidade grande (São Paulo) para estabelecer sua carreira, com um esforço para equilibrá-la com a fundação duma família.

Peggy Olson na famosa cena de sua entrada na McCann Erickson

Retornando ao último episódio, o único final triste foi o de Betty Harris e das pessoas ao seu redor. A história termina antes de sua morte, mas já se sente como isso vai acelerar ainda mais o amadurecimento de seus filhos Bob e Sally — cujo desenvolvimento como personagem acabou se revelando bem mais interessante do que eu esperava. Alguns fãs da série podem considerar este final apropriado como uma forma de punição a Betty por antipatia a ela, mas acho que sua doença foi o meio encontrado para que Don fosse lembrado de sua própria finitude.

A mãe Betty e a filha Sally, já uma mocinha

É até um tanto prepotente de minha parte arriscar uma análise baseada em impressões tão rasas como uma série televisiva e algumas leituras sobre a época… mas a internet está aí para desempenhar várias funções, inclusive o de armazenar bobagens. A impressão que tive a respeito destes dez ou onze anos exibidos na série é dum período de bonança e êxtase iniciado como comemoração pela vitória na Segunda Guerra Mundial e expandido além de seu limite razoável, numa agitação intensa por toda a sociedade americana.

No livro A Assustadora História da Maldade, de Oliver Thomson, menciona-se como a moralidade, a permissividade — e, consequentemente, até a prosperidade econômica — de cada civilização oscilam entre níveis mínimos e máximos. Os Estados Unidos passaram por um começo de século XX de muita fartura econômica e prosperidade até a quebra das bolsas em 1929. Este pico foi atingido e o descenso durou todos os anos 30 e parte da década de 40. O pós-guerra e os anos 50 e 60 (período da série) seriam a ascensão, interrompida pela crise do petróleo de 1973.

Este período de ascensão dos anos 60 foi, talvez, o de maior exploração do “sonho americano” internamente e do Destino Manifesto exteriormente. Famílias cresciam e enriqueciam, o progresso trazia novas comodidades e grupos marginalizados alcançavam direitos — em Mad Men, os distantes mobilizações do movimento negro e conflitos raciais das primeiras temporadas chegam a Nova Iorque, Chicago e outras metrópoles no decorrer das temporadas; menos claramente se vê também traços de desenvolvimento duma consciência feminista. “Fora de casa”, os Estados Unidos se articulavam mundo afora em sua disputa ideológica contra a União Soviética.

A aparentemente infindável bonança americana pode ter criado a sensação de que absolutamente tudo era possível e isto, levado à sensação de que nenhuma oportunidade poderia ser desperdiçada. Daí veio a exploração de novos horizontes, como: a cultura hippie, a busca pela espiritualidade oriental, a revolução sexual, o uso de drogas como ferramenta de imersão e autoconhecimento, o movimento de contracultura manifestado nas artes, etc — tudo isto, ao meu ver, buscas e anseios externos cujo objetivo, no fim das contas, era satisfazer uma fome, um desejo íntimo e pessoal de cada participante destes movimentos. Do lado de fora dos Estados Unidos, o interesse de manter a hegemonia de influência diante da União Soviética levou seus governos acontrariarem a origem não-intervencionista americana: houve a Guerra Fria, com lutas armadas abertas como a guerra do Vietnã ou então atos de manipulação, como desestabilização de regimes legítimos, participação na fundação da OTAN, envolvimento no Oriente Médio…

Funcionários da agência recebem a notícia da morte de JFK, presidente cujo plano era de modesta participação americana no conflito do Vietnã

Passamos as sete temporadas de Mad Men assistindo ao descontrole dessa década e à forma como cada personagem conseguiu ficar em paz apenas quando abandonou distrações externas para conseguir ouvir o que havia dentro de si que lhe incomodava e aceitou isso: a “dupla personalidade” de Don, a conciliação entre vidas profissional e afetiva para Peggy, o papel de homem de família de Peter, entre outros. A série vale muito por sua ambientação primorosa e pelo cuidado para reproduzir até detalhes que passam despercebidos ao público, como notícias, acontecimentos ou até condições climáticas reais das datas em que cada episódio aconteceu. Vale também por todo o trabalho de diretores, roteiristas e elenco para narrar esta fascinante jornada de pessoas e dum país, algo que me lembrou bastante de um dos meus filmes favoritos, Forrest Gump. Imagino que se você já leu isto é porque conhece a série, mas caso não tenha visto, aproveite porque está no Netflix.