O Real Madrid e a metodologia Lean

Comecei a escrever estas linhas enquanto assistia ao segundo tempo da final do Mundial Interclubes, com vitória do Real Madrid sobre o Grêmio. A ideia do texto veio justamente da observação da partida e da forma de jogar do time merengue, o qual me lembrou das características mais marcantes do Pensamento Lean (ou “Pensamento Enxuto”).

Cristiano Ronaldo comemora o gol do título

Recentemente tive Gestão de Operações como uma das disciplinas da pós-graduação que concluo e um dos temas abordados foi a metodologia Lean. Sua origem é atribuída à indústria automobilística, mais especificamente à Toyota e teria sido o motivo do crescimento de competitividade da companhia japonesa nos anos 80.

Mas o que é essa metodologia também conhecida como Enxuta? É uma forma de gestão cujo objetivo é, principalmente, de evitar o supérfluo. Ela busca simplificar e tornar seus processos mais eficientes para combater desperdícios: tudo aquilo que não gere valor ao cliente final ou que não tenha razão para ser parte dum processo. Em vez de produção empurrada, aquela que simplesmente despeja produtos no mercado, ela visa ser puxada para obedecer a demanda do cliente. Uma de suas metas é a produção em fluxo contínuo; isto seria realizado através da implantação de algumas mudanças: substituição dos lotes grandes de produção por pequenos, quebra de departamentos em pequenas equipes e versatilidade de seus recursos.

O futebol jogado em alto nível atualmente, tanto pelo Real Madrid como por outras equipes de destaque no esporte, assimila algumas destas características. Sua forma de produção puxada é a capacidade de cada equipe de se transformar para atender à necessidade do momento: não é prático adotar a mesma estratégia em campo para abrir o placar contra um time retrancado e para reverter um resultado negativo, por exemplo. As mudanças supracitadas para implantação do fluxo contínuo também são vistas dentro das quatro linhas do gramado: jogadores não têm papéis ou posicionamentos tão específicos e podem mudar de função por um dado período, como quando o lateral-esquerdo Marcelo aparece como meia ou ponta ou também quando Casemiro desarma uma jogada do adversário e (esporadicamente) conduz a bola ao ataque — apenas para citar exemplos do próprio Real Madrid. A quebra de departamentos, ou setores de campo, é realizada através da versatilidade dos jogadores e da realização de pequenas triangulações capazes de movimentar a bola com mais segurança através do campo.

Uma breve análise sobre a forma como o Real Madrid joga

O Lean tem sete desperdícios que devem ser evitados: espera por processamento ou pela liberação dum equipamento, controles redundantes da execução, transporte de materiais, informações ou clientes, movimentação desnecessária de pessoas e recursos, estoques de itens produzidos antes da hora do consumo do cliente ou da produção, processamento irracional com operações desnecessárias ou incorretas e produção excessiva, que leva a todos os anteriores. Há um oitavo desperdício, o intelectual, quando participantes dos sistemas de produção não são consultados a respeito de novas ideias e soluções de problemas.

Embora tenha surgido na indústria automobilística, esta metodologia é uma ferramenta capaz de ser aplicada a outros meios, de agências publicitárias a redes de transporte coletivo ou no setor alimentício — desde que as adequações necessárias sejam realizadas. Pensei então em sete desperdícios a serem evitados por um time de futebol.

O primeiro é a ociosidade dos jogadores em campo. Como se vê no vídeo abaixo, a movimentação de Pizarro foi crucial para liberar um corredor para a movimentação de Muller. Embora ele não tenha tocado a bola, sua participação foi providencial para a concretização do gol.

Outro desperdício já citado é a especialização, que limita os jogadores a cobrir apenas uma atividade e limitam as possibilidades táticas da equipe em campo. A perda da posse de bola é duplamente negativa, pois limita o próprio time e arma o adversário. A melhor solução para este problema é agilizar os passes entre companheiros, fazer com que não arrisquem passes longos e que a bola seja conduzida com segurança. Isso leva ao próximo desperdício, o de espaço — ocorrido quando jogadores se posicionam mal e/ou muito longe de quem carrega a bola, tornando-se indisponíveis ou arriscados para receber um passe.

Este vídeo é curto, mas conseguiu mostrar os sete desperdícios que cito no post

A aproximação de companheiros de time visa evitar os passes errados, desperdício que resulta em perda de posse de bola e tempo perdido porque uma tentativa ofensiva tem de ser refeita a partir do zero. O tempo, se gasto com jogadas de pouca eficácia e mal construídas, também é uma forma de desperdício — e por isso a vitória precisa ser buscada incessantemente.

Isto pode soar um pouco ridículo, mas há muito tempo de bola parada em cada partida — a ponto de a Fifa definir uma meta de 60 minutos de bola em movimento por partida. Além disso, há inúmeras partidas em que jogadores e técnicos aparentam estar satisfeitos com o resultado e não buscam o gol adversário, como aconteceu com o próprio Grêmio nos minutos finais do Mundial. A equipe passava a bola de lado no meio de campo, como se fossem eles que estivessem prestes a conquistar o título intercontinental.

Por fim, o último desperdício é o de chutes com pouca chance de gol: aqueles em que o jogador arrisca um chute de longe, marcado ou com o caminho completamente obstruído até a meta. Pessoalmente, acho que alguns times exageram um pouco neste aspecto e até desperdiçam boas chances de gol por preferir o passe a um chute, mas isto é só uma divagação.

Enfim, era isto que eu queria compartilhar. Espero que este post possa ajudar estudantes a entender com mais facilidade a Metodologia Lean e demonstrar como esta forma de trabalho pode ser adaptada a diferentes ambientes. E vale lembrar que alguns de seus conceitos são tão elementares que talvez já os executemos sem nos dar conta disso: vejam como em 1995 o holandês Ajax já fazia tudo que mencionei nesse post.