Shame — o metrô

Assisti nesta última tarde ao filme Shame, da história de Brandon (Michael Fassbender) e a forma como ele lida com sua compulsão por sexo. Brandon é um homem de trinta e tantos anos, habitante de Nova Iorque guiado por sua própria libido — talvez “arrastado” seria mais adequado. O protagonista é apresentado nos primeiros minutos de filme numa sequência de sexo casual com estranhas, o encontro com uma prostituta, masturbação e o flerte com uma mulher num vagão do metrô.

Há interpretações muito interessantes do filme, de seu enredo e da forma como o personagem principal se sabota para não conseguir fugir de seu transtorno, como no blog The Last Psychiatrist, mas me limito a escrever sobre as duas vezes em que Brandon flerta com esta garota do metrô e, mais especificamente, sobre o final aberto do filme. Acho que é meio claro, mas não custa avisar que revelo alguns pontos importantes da história.

O vídeo deste link é do primeiro encontro, ainda nos primeiros minutos de Shame. Brandon e a mulher demonstram interesse mútuo, embora ela pareça um pouco reticente quanto à situação — como sutilmente demonstrado com seu cruzar de pernas. Subitamente ela muda de semblante, se emociona e levanta-se para descer. Ao se apoiar num dos canos de suporte para passageiros, podemos ver dois anéis em seus dedos, um deles uma aliança de casamento. Mesmo eles estando claramente visíveis, Brandon levanta-se e tenta segui-la quando ela sai do vagão, mas a perde de vista assim que ela se mistura à multidão.


Sissy (Carey Mulligan), a irmã caçula de Brandon, chega ao apartamento dele e uma conciliação entre a presença da garota e o estilo de vida levado por seu irmão torna-se impossível. O filme transcorre numa jornada de frustração, invasão de espaço e intimidade dos dois irmãos e uma tentativa do protagonista de se envolver com alguém de maneira mais duradoura e menos superficial, porém esta tentativa fracassa.

Frustrado por não conseguir se entregar à sua compulsão sexual e por sua incapacidade de construir um relacionamento afetivo, Brandon expulsa sua irmã de casa e mergulha numa noite na qual atende todos os seus próprios desejos. Na manhã seguinte, retorna ao seu apartamento e encontra Sissy com os pulsos cortados. Ainda dá tempo de salvá-la, mas Brandon passa a se sentir esmagado pelo sentimento de culpa e pelo arrependimento de não ter apoiado sua irmã — apesar das várias cicatrizes de cortes que ela já possuía em cada braço.

Já no segundo encontro entre Brandon e a passageira, que pode ser visto através deste link, as atitudes de ambos mudaram. Ela está mais à vontade e seu interesse é ainda mais nítido do que no encontro do início do filme. Ela se demonstra menos tímida e, ao se apoiar novamente no cano do vagão, é possível ver como ela ainda usa os dois anéis, mas que eles trocaram de lugar. Imagino que ela permanecesse casada, mas talvez com um relacionamento aberto ou simplesmente disposta a não refrear seus impulsos (como li por aí, talvez a troca de posição dos anéis signifique que ela as tem tirado e colocado de volta sem se atentar à ordem delas); é impossível saber apenas com o que nos é dado pelo filme. Brandon, abalado, a observa e o filme termina quando o metrô para, antes que saibamos se ele a segue ou não.

Aqui vai meu palpite: Brandon não segue a mulher depois de sua saída. Depois de quase perder sua irmã por estar entregue à sua compulsão e tão imerso em si mesmo a ponto de não perceber os pedidos de ajuda de Sissy (não apenas sua tentativa de suicídio, mas todas as ligações telefônicas ignoradas por ele e a forma como a expulsou numa noite fria em que ela tentou dormir perto dele), seria um retrocesso para ele se envolver, ainda que brevemente, a uma mulher que começava a trilhar um caminho pelo qual ele já retornava — retorno causado também pela forma como passou a noite em que brigou com sua irmã e em que viu quão longe sua compulsão poderia levá-lo. Não sei se Brandon eventualmente busca apoio profissional, se encontra alguém com quem consegue administrar um relacionamento estável ou se apenas aprende a lidar com seu vício de maneira mais saudável (se possível); mas a resposta que tenho para a questão deixada na cena final é esta.