Tradução — O que aprendi sobre minha fé católica ao assistir uma tourada

Tradução do artigo What I learned about my Catholic faith from watching a bullfight de Angela Alaimo O’Donnell publicado originalmente em 21/09/2017 no site American Magazine. Aqui tem o LINK para o post original.

“Touradas não são um esporte — são uma tragédia”, escreveu certa vez Ernest Hemingway. E ele devia saber. Tendo viajado a Pamplona nove vezes para o festival anual de São Firmino, uma celebração de nove dias na qual uma das atrações é a infame corrida de touros adicional às touradas noturnas da festa, Hemingway havia se tornado um entusiasta desta arte. Ele também testemunhou touradas em outras cidades através da Espanha, mas, para ele, Pamplona era o marco zero. Ele imortalizou sua paixão pela experiência em Morte à Tarde (1932), sua ode à tourada que narra suas histórias, cerimônias e tradições.

Eu estive em duas touradas em minha vida. A minha primeira foi quando eu era uma estudante de 17 anos visitando Madri. Como a maioria dos jovens com poucas economias, me sentei no setor mais afastado da arena, onde a animação era vibrante, mas a ação era suficientemente distante para fazer com que o touro e o toureiro se parecessem com bonecos. A minha segunda foi em julho passado, quando eu me encontrava em Pamplona durante o festival de São Firmino. Durante um mês de viagem pela Espanha e pelo País Basco, a cada nova cidade ou vila visitada, Hemingway parecia estar por lá. Por isto, me pareceu apropriado e inevitável que, por eu o haver seguido como sua sombra, que meu trajeto culminasse aqui, sentada à mesma arena à qual ele se sentou, durante o ano do 85º aniversário de publicação de Morte à Tarde.

Esta segunda tourada se revelou uma experiência uma experiência muito diferente da primeira. Não sendo mais uma das jovens, consegui um ótimo lugar, com sombra e a quatro fileiras da ação. Eu havia trocado, além da minha juventude, o muito longe pelo perto demais. Eu era capaz de ver tudo: os matadores em suas calças impossivelmente justas, as capas auri-róseas jogadas por eles com floreios, as espadas longas que brandiam e enfiavam nos pescoços dos touros e, claro, o foco central de 20 mil espectadores na arena — o touro.

O touro corre para entrar na arena. A primeira impressão do espectador é de como o animal é belo. Seis touros são mortos no decorrer de uma tourada, cada um deles escolhido por sua força, agilidade, inteligência e temperamento. (Hemingway afirma que eles são criados para serem “malvados”. Não é claro se isto é verdade ou não. O que é claro é que nenhum toureiro que enfrentar um touro tranquilo). Cada touro adentra a arena jovem, belo, magnífico, no auge de suas forças e ao fim dos 20 minutos da tourada, cada um deles sai morto, seu corpo coberto de sangue é arrastado pela arenada empoeirada por cavalos. Esta é a tragédia da qual fala Hemingway. A criatura explode sobre o palco, cheia de paixão e propósito e encontra sua morte na forma apropriadamente chamada de “matador” — gradualmente, dolorosamente, inexoravelmente. Assim como qualquer tragédia, esta é difícil de ser assistida. Sentimos compaixão pelo touro, em parte porque entendemos que este animal nos representa. A tourada reproduz o drama humano do qual cada um de nós participa. Todos nós entramos na arena da vida indescritivelmente belos e nenhum de nós sai vivo.

Touradas não são um esporte — são uma tragédia. Também são uma forma de realização de desejo. Assim como o touro está interpretando seu drama, o matador também o faz. É arrepiante, emocionante, assustador de assistir quinhentos quilos de um animal musculoso correndo em velocidade máxima em direção a um homem esguio e impecavelmente vestido que o enfrenta com nada além duma capa de tecido. É o absurdo. O touro é a morte sobre quatro patas. Quem entre nós não buscaria refúgio correndo (como centenas de pessoas fizeram mais cedo no mesmo dia na corrida de touros)? Mas o matador defende seu território. Ele provoca a morte. Ele alfineta a morte, cutucando-a com banderillas. E ele dança com a morte, arqueando e virando seu corpo, produzindo o mais gracioso dos arabescos, com sua capa acentuando o arco de seus movimentos enquanto a estúpida e grande fera que é a morte tenta apanhá-lo, derrubá-lo, atravessá-lo com seus terríveis chifres. Desta vez não é o touro que nos representa, mas o matador, fazendo aquilo que todos nós desejamos — escapar de nossa inevitável mortalidade.

Juan José Padilla, cujo olho foi arrancado por um touro em Zaragoza em 2011, mais tarde voltou às arenas

A tourada é realização de desejos porque, a menos que algo saia terrivelmente errado, o matador vence. Depois de manter a morte subjugada, fazendo com que ela se curve à sua vontade, tratando-a com respeito, mas também a fazendo parecer tola — este pequeno homem e este enorme touro — o matador a elimina com apenas uma espada estocada na corcova atrás da cabeça da criatura, mirando o imenso coração que bate mais abaixo. É uma investida graciosa, artística e absolutamente perigosa — uma descrição da vida tão adequada quanto do toureiro. Apensa no final a vida vence. A morte é posta de joelhos, despachada e arrastada para fora da arena. O matador vive para lutar outro dia.

A tourada é alheia às nossas sensibilidades. Ela é, indubitavelmente, cruel com o animal. É desagradável assistir um time de picadores, banderilleros e matadores conspirando para incitar uma criatura até a fúria para depois mata-la para fins de entretenimento. Sentados nas arquibancadas, assistindo o ritual desenrolar-se, nós nos tornamos cúmplices do assassínio. Nós viemos testemunha-lo por vontade própria. Nossos euros pagam os salários dos toureiros e proveem a forragem dos touros. Como uma pessoa com consciência pode participar dum esforço de tamanha brutalidade? Ativistas por direitos animais têm tentado por anos banir a prática e sentando-se a quatro fileiras da arena, pode-se entender o porquê. Eu poderia ter chorado pela criatura sofredora. E ainda assim eu assisti. Assisti com um nível de atenção que raramente experimentei. Foi inegavelmente terrível E foi estranhamente, selvagemente belo.

“Qualquer coisa de despertar paixão a seu favor certamente despertará proporcional paixão contrária”, escreveu Hemingway. Apaixonados pelas touradas se opõem às queixas de crueldade. Eles te dizem que o touro criado para este esporte vive solto nas matas por cinco anos, comendo e se reproduzindo para enfim morrer depois de vinte minutos na arena. Seus primos criados na pecuária vivem meros dezoito meses em cativeiro fechado e encontram a morte em abatedouros, enfileirados, assistindo e sentindo o cheiro de seus companheiros indefesos às suas frentes. Não há nada de imponente ou gracioso em suas mortes. Eles nunca são temidos ou reverenciados. Suas vidas não são sacrificadas, touro por touro. Eles morrem anônimos e em massa. Isto eu sei porque me contaram. Eu nunca testemunhei animais sendo mortos em um abatedouro e rezo para que nunca o veja. De qualquer forma, ainda sou cúmplice disso: eu como carne e tenho sapatos de couro.

Touradas acontecem em Pamplona por mais de 500 anos. Suas raízes são mais pagãs do que cristãs, ambas sendo tradições nas quais o sacrifício de sangue possui grande valor. É notório que no festival de São Firmino homens e mulheres tradicionalmente se vestem de branco com lenços vermelhos em volta do pescoço e cintos vermelhos na cintura. Este traje simbólico celebra a morte de São Firmino, santo padroeiro de Navarra, martirizado por sua fé. As peças vermelhas de vestuário lembram de seu sacrifício, com cada homem e mulher da festa encenando sua decapitação.

“O sangue dos mártires é a semente da Igreja”, Tertuliano escreveu certa vez. Sem sangue não há fé, ressurreição nem salvação. A morte do touro é, de alguma forma, parte da tradição. O animal é sacrificado. Sua carne é comida. Sua morte gera a vida. O ato de matar é lamentável e necessário. É um fato relevante que a palavra para “bênção” em inglês (“blood”) venha duma palavra do inglês antigo, “blud”. Não há bênção sem sangue. O que eu não esperava descobrir durante minhas duas horas na arena era a natureza profundamente católica da tourada, a forma como o ritual ecoa o sacrifício da missa. Pois, estranhamente, o touro é Jesus, também — o formoso deus destinado a morrer, cuja carne é comida e cujo sangue é bebido. Isto não é tão exagerado quanto parece. Em tempos antigos, entre algumas culturas, o touro era tratado como uma criatura sagrada e acreditava-se que ele era divino. Touradas (como em Pamplona) faziam parte dum contexto duma celebração religiosa maior. Isto pode ajudar a justificar o apelo irresistível ao católico convertido, Hemingway, assim como o apelo ao povo da Espanha, um país onde o catolicismo tomou formas sangrentas por séculos.

A tourada não é um esporte — é uma tragédia. Eu assisti seis touros morrerem em Pamplona. Eu fiquei comovida com suas mortes. Fiquei comovida pelo respeito prestado pelos toureiros aos touros, como adversários dignos, pela maneira como falaram com eles enquanto amenizavam o caminho ao falecimento. Fiquei comovida pelo fato de que sacrifícios em rituais foram executados da mesma forma em que foram feitos por séculos com o mesmo desfecho. Nenhuma tecnologia moderna intervém no encontro elementar — sem maquinário, armas poderosas, armaduras, redes de segurança. Eu assisti o drama se desenrolar da mesma forma em que ele havia se desenrolado por mais de 500 anos. Senti piedade e medo: pelo touro, pelo toureiro, por nós. Estive em apenas duas touradas em minha vida, mas foi o suficiente. Fui marcada de modo indelével pelo que vi. Ao contrário de Hemingway, não preciso retornar à arena. Após nosso mês de viagem conjunta, tomamos rumos distintos. Pelo bem ou pelo mal, carrego a arena dentro de mim.