Wild Wild Country

Terminei agora de assistir a série documental Wild Wild Country, produção da Netflix na qual acompanhamos parte da trajetória do líder espiritual conhecido como Osho, com ênfase no estabelecimento duma comunidade dos seus seguidores num rancho no estado do Oregon, nos Estados Unidos. Recomendo a série pela riqueza de detalhes e pela história quase surreal deste fenômeno que foi Rajneeshpuram e, em algumas linhas, comentou alguns aspectos do acontecimento.

Resumindo brevemente, inclusive porque pretendo comentar duma forma mais apropriada a quem já tenha assistido os episódios ou que não se importe com spoilers, o guru começou a atrair seguidores em seu país natal, a Índia, mas saiu de lá quando já começava a chamar atenção das autoridades locais negativamente. O novo destino foi o rancho Big Muddy, onde seus mais talentosos seguidores auxiliaram na construção dum espaço para receber outros discípulos: criaram habitações, hortas, lagos artificiais, um pequeno aeroporto e locais para meditação. Milhares de seguidores do “Bhagwan”, como o líder também era chamado, chegaram de diversas partes dos Estados Unidos para integrar a comunidade, porém a criação desta comunidade e as práticas do estilo de vida alternativo vivido ali dentro criaram atritos com os tradicionalistas moradores de Antelope, cidade próxima ao até outrora inóspito rancho. Este atrito intensificou-se, gerando uma corrida armamentista entre os dois lados, além de sabotagens, espionagem, o envenenamento de moradores de Antelope e Dalles, culminando nas prisões dos principais personagens da comunidade alternativa e na debandada dos “rajneeshees”, como eram conhecidos os moradores de Rajneeshpuram.

Uma característica que me chamou atenção foi como os moradores de cada comunidade possuíam traços comuns profundamente marcados, principalmente os rajneeshees. É até esperado que os poucos aposentados que viviam em Antelope formassem uma comunidade mais homogênea e se encaixassem melhor dentro do arquétipo tradicional de WASP moralista e defensor ferrenho de certos valores, mas é inusitado que um grupo reunido por tão pouco tempo e de origens tão heterogêneas pudesse desenvolver toda a coesão e as idiossincrasias demonstradas no decorrer da série. Aqui caberiam algumas conjecturas minhas, mas prefiro calar a falar merda sobre o que desconheço — a doutrina pregada por Osho.

Do que pude conhecer através do documentário, no entanto, ficou a impressão de que tudo o que foi professado pelo indiano não era muito mais do que puro hedonismo coberto por um fino verniz de espiritualidade. Num certo ponto Osho nega que tenha sido líder duma religião e nisso concordo com ele: o papel duma religião é elevar espiritualmente, fazer com que o terreno e o material — inclinações naturais do homem — sejam trocados pelo divino; o rajneeshismo mantinha seus seguidores ancorados no primitivo.

Durante os depoimentos dados pelos seguidores do guru, independentemente de comentarem a ascensão ou a queda de sua comunidade, fiquei um pouco impressionado com o tom de empáfia dos antigos moradores da comunidade. Não importava quanto hajam errado, que seus líderes os tivessem ludibriado e enriquecido às suas custas, que fossem envolvidos em atividades ilícitas e até encarcerados; sempre mantinham ar altivo ao falar destes tempos e de seus frutos. Ma Anand Sheela, braço-direito de Osho e mais tarde sua contendedora, mantinha atitude desafiadora mesmo cumprindo pena num presídio alemão.

Só um pouco depois de assistir ao último episódio me ocorreu que os ensinamentos de Osho não devem ter levado os discípulos a ter esta postura, mas sim que esta postura orgulhosa os levou até este guia espiritual numa fuga do antiquado e do arcaico do Cristianismo. Se a religião organizada não permitia o hedonismo e a autossatisfação, era mais fácil encontrar um quebra-galho de espiritualidade que também satisfizesse estas necessidades individualistas. Ironicamente, a rejeição da autoridade das religiões organizadas levou à obediência submissa às lideranças de Rajneeshpuram: primeiramente seguindo a figura do Bhagwan e posteriormente, durante os três anos de seu período de silêncio perante o público, de Sheela.

Este período de silêncio também foi curioso. Osho foi a cara do movimento enquanto este arrebanhava seguidores e suas generosas doações — lembremos que seu movimento era febre entre os descolados da época. Não havia acanhamento algum ao receber presentes, doações, ovações e conceder entrevistas. Porém, ao encerrar este “hiato público” e acusar Sheela de ser mandante de vários crimes dentro e fora da comunidade, sua efetiva influência não ficou muito clara. Ele não sabia dos planos dela, que incluíam até tentativas de homicídio? Sabia e era conivente ou omisso?

Este papel de líder, usado conforme a conveniência, foi rasgado definitivamente após o hiato com a negação de influências que seriam de Sheela. Livros e vestes foram queimados, além da permissão dos moradores de usarem roupas que não fossem de tons avermelhados — algo vigente muito antes que sua secretária possuísse qualquer influência sobre o grupo.

Enfim, já me estendo demais. Como falei, a comunidade construída no Oregon me lembra de certa forma a supostamente utópica comunidade de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Tudo vai muito bem e há muita paz e muito amor, mas só enquanto há muito sexo liberado e as cabeças não têm com o que se preocupar. Quando os moradores de rua acolhidos na cidade foram proibidos de votar no condado e começaram a se demonstrar hostis a resposta foi sedá-los, além de eventualmente abandoná-los em cidades próximas. Quando Sheela e Osho deixaram a cidade seus moradores a abandonaram quase que imediatamente, como se fossem acordados por um pesadelo perturbador. É irônico que rejeitassem tão enfaticamente e até com certo escárnio qualquer autoridade, mas que a própria sobrevivência da comunidade fosse assim dependente da figura dum líder, seja este espiritual ou administrativo. Além disso, fica evidente quão difícil é que uma sociedade sobreviva se ela é composta por um apanhado de gente cujo único interesse é a satisfação de suas necessidades mais primárias. No Oregon construíram uma cidade, porém esta já nasceu como uma Roma prestes a cair.

Osho e Sheela