Sobre uma ampulheta

Entro na livraria sem pretensão de comprar nada. Passeio desinteressado pela primeira seção na entrada da loja. As capas são brilhantes e coloridas. Acho os preços altos. Os números nas etiquetas marcam uma quantidade em dinheiro, mas o preço real é pago em tempo que se leva pra ler. Na seção há muitos livros e poucos escritores. Há livros de youtubers que escrevem, livros de padres que escrevem, livros de imbecis que escrevem.

Em algum momento do passado as farmácias passaram por um processo curioso. Antes vendiam remédios, hoje é possível encontrar sorvete, chocolate e outras coisas mais surpreendentes por lá. As livrarias de antes eram, no máximo, papelarias. Hoje vendem brinquedos, quadros, chaveiros, cafés e quinquilharias em geral. Paro de frente a uma estante cheia de bugigangas diversas e um tipo específico captura minha atenção. São ampulhetas. Há uma diversidade enorme delas. Há suportes de madeira ou de gesso, umas pequenas e baratas, outras grandes e mais caras. Há areias verdes, amarelas, laranjas. Escolho uma e a viro de cabeça para baixo. Observo a areia escorrer com atenção exclusiva. A metade de cima se esvazia e passo à próxima. Um pensamento distrai da areia, um impulso de comprar. Tento encontrar uma razão minimamente aceitável para a compra. O que eu vou fazer com uma ampulheta? Toda a areia está agora na parte de baixo. Próxima. A areia escorre de um jeito diferente nessa. Penso mais uma vez se devo fazer a compra. Será que tenho uma resposta pra a pergunta sobre a utilidade de uma ampulheta? Vou até o caixa.

A mochila que tenho nas costas não tem mais espaço pra os documentos, o kindle ou a sacola da livraria que carrego na mão. Boto tudo no banco do táxi. Penso sobre o tempo. O motorista freia bruscamente e a sacola cai no chão. Antes de voltar pros meus pensamentos lembro da ampulheta. Eu a imagino quebrada, a areia derramada na sacola. Lamento. Eu havia escolhido a azul porque sua areia parecia escorrer mais depressa, como que pra me lembrar que às vezes o tempo passa rápido demais. Era a resposta que eu tinha dado a mim mesmo: Comprei essa ampulheta pra que ela me lembre que às vezes o tempo passa rápido demais. Agora ela talvez estivesse em pedaços e a lição talvez fosse outra, um lembrete de que algumas vidas não têm a chance de ver o tempo passar, são interrompidas subitamente. Estico o braço e encontro a ampulheta ainda inteira dentro da sacola. Uma segunda chance. E com ela a responsabilidade de fazer valer a pena.

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